"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

abril 12, 2011

BOCA FALA, C... PAGA! O CRIADOR E SENHOR DA VERDADEIRA "HERANÇA MALDITA"

A expressão "herança maldita" foi cunhada no Éden. Quando Adão foi flagrado consumindo a maçã proibida, disse: "Não fui eu, foi a mulher que Tu me deste." Eva, por sua vez, acusou a serpente. Apesar do jogo de empurra, ambos foram expulsos do paraíso. A partir daí, segundo a crença, homens e mulheres herdaram o pecado original.

Na política, a expressão tornou-se conhecida quando Lula passou a utilizá-la atribuindo aos governos anteriores tudo o que supostamente encontrou de errado ao assumir a Presidência da República. Na prática, uma forma de desconstruir as administrações anteriores, justificando as imperfeições da própria gestão.

Exageros à parte temos novas perspectivas. O Brasil adquiriu presença internacional, subiu no ranking das maiores economias mundiais e expandiu consideravelmente o mercado interno por meio da inclusão social e ampliação da classe média.

Na realidade, essas conquistas foram obtidas em cenário internacional favorável e com a colaboração de vários governos, inclusive dos ditos "ruins".
Até de onde pouco se esperava veio algo de bom. Sarney, por exemplo, realizou a transição democrática, criou a Secretaria do Tesouro Nacional e o Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). Collor, com todos os males, promoveu a abertura comercial e reduziu, à época, o tamanho do Estado. Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso criaram o real, a Lei de Responsabilidade Fiscal e domaram a inflação.


No momento, há que se perguntar: que legado Lula deixou para Dilma? Com certeza, até por lealdade, a presidente só irá comentar os diversos fatos positivos. Mas, na verdade, também são inúmeras as dificuldades e os desafios que ela enfrentará nos próximos anos.
Para começar, os ventos internacionais mudaram.
A elevação abrupta dos preços das commodities (29% nos últimos 6 meses) está pressionando a inflação, que já toca no teto da meta.
Adicionalmente, a dinheirama que o banco central americano injetou no planeta faz com que boa parte desses dólares passem férias no Brasil. Tal fato vem derrubando a cotação da moeda americana, que, na última sexta-feira, chegou a R$1,574.


Finalmente, as revoluções democráticas na África e Ásia levaram o barril de petróleo a US$112, o maior valor alcançado há dois anos e meio. Assim, chegamos ao fim do primeiro trimestre do atual governo com inflação e juros altos, superávit e câmbio baixos.
Arrumar esse vespeiro não será tarefa fácil.


Paralelamente, como nenhum governo aumenta salários e outras despesas de custeio impunemente, a conta da festa política chegou. Sob o ponto de vista orçamentário, Dilma herdou restos a pagar de aproximadamente R$128 bilhões, valores que estavam comprometidos nos orçamentos dos anos anteriores e não foram pagos nos respectivos exercícios.
Como a arrecadação é finita, os gestores estão tendo que optar entre pagar as despesas roladas dos anos Lula ou aquelas previstas no orçamento de 2011.


Na tentativa de arrumar a casa, nos primeiros 3 meses do seu governo Dilma investiu apenas R$306 milhões com o orçamento de 2011, enquanto pagou R$7,9 bilhões de restos a pagar. Além disso, pretende cancelar, em 30 de abril, cerca de R$17 bilhões de compromissos assumidos em 2007, 2008 e 2009 que sequer foram iniciados. A ideia é boa mas, como diria Garrincha, é preciso combinar com os adversários - neste caso, os políticos, que certamente vão espernear.

Enquanto busca o equilíbrio econômico, o governo terá que realizar grandes investimentos em infraestrutura para evitar vexame internacional por ocasião da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.
Para mencionar apenas o principal gargalo, no primeiro bimestre de 2011 a Infraero investiu R$53,8 milhões, somente 2,4% do montante anual previsto.


A missão da presidente inclui ainda a modernização institucional, necessária tanto à democracia quanto ao sistema produtivo.
A bem da verdade, as reformas política, tributária e trabalhista, itens fundamentais dessa pauta, não saíram do papel durante os oito anos do presidente Lula.


Como se vê, há muito pela frente devido ao que não foi feito no governo passado, fato até natural em processo histórico. Porém, considerando a relação política da atual presidente com o seu antecessor, a herança, quando maldita, não será mencionada. Nesse paraíso, a eventual culpa não será de Adão, Eva, Lula ou Dilma. Vai acabar sobrando para a serpente ou para a maçã...

Gil Castello Branco O Globo

abril 11, 2011

UM MAU COMEÇO, NÃO PODERIA SER DIFERENTE : CEM DIAS DE UM GOVERNO MAMBEMBE .

A passagem do 100º dia de governo costuma ser carregada de simbolismo. Menos pelo que efetivamente se fez no período, que é curto, e mais pelos rumos que o novo administrador costuma imprimir à condução da gestão iniciante.

Os cem primeiros dias de Dilma Rousseff à frente do Palácio do Planalto, completados ontem, foram recebidos com certo entusiasmo por parte da opinião pública.
Mas é um erro imaginar que essa exibição de boa vontade signifique que ela faça um grande governo.
Ao contrário.


Assombra a falta de ímpeto demonstrada por Dilma até agora, as contradições em relação ao mundo cor-de-rosa que vendeu aos eleitores no ano passado, as indecisões em relação ao enfrentamento de problemas que se agigantam.

Uma análise mais detida mostra que o enaltecimento a Dilma se deve, principalmente, a correções de rumo de excessos do governo Lula. Abandonou-se o caráter estridente e espalhafatoso em nome da acertada austeridade pessoal. Isso é bom. Também deixaram de existir o alinhamento automático a ditadores fratricidas e o antiamericanismo da nossa política externa. É alguma coisa, mas muito pouco.

A louvação ao governo atual acaba servindo para turvar a visibilidade de seus muitos equívocos. O pior deles é a tibieza com que a inflação tem sido combatida. A equipe econômica de Dilma não tem sabido enfrentar com eficácia o crescimento de um monstro com potencial de arruinar nossas formidáveis conquistas sociais das últimas décadas.

Outro problema sério, a apreciação excessiva do real junto ao dólar não tem sido atacada de maneira apropriada. Medidas como o aumento de impostos para empréstimos feitos no exterior se mostraram inúteis - embora tenham, convenientemente, servido para engordar o caixa do governo federal. Resta claro que governo não sabe se ataca a inflação ou a valorização cambial, que corrói a indústria nacional, mas serve para segurar os preços.
Bate-se cabeça.


Com conveniente discrição, promessas anunciadas durante a campanha de 2010 vão sendo, uma a uma, deixadas de lado. Para começar, a pretensão de acabar definitivamente com a miséria no país já foi colocada na geladeira pela presidente, de maneira trivial, como quem não quer nada...

Sobriamente, muitos outros compromissos parecem ter ido para o arquivo morto, como a ideia de incluir eletrodomésticos no Minha Casa Minha Vida. Na realidade, o governo fez o contrário: paralisou o programa para famílias mais carentes.

A política habitacional é apenas um entre os muitos casos de descarte de compromissos firmados com o eleitor no período de busca aos votos. Logo após a eleição, O Globo listou 190 deles. Boa parte ainda não passa de palavras vãs.

Está na relação, por exemplo, a promessa de "não fazer o ajuste fiscal". O compromisso, como se sabe, foi quebrado com o anúncio de uma tesourada de R$ 50 bilhões no Orçamento, feito em fevereiro.
Sabe-se que a necessidade de adequação das finanças deve-se aos excessos de gastos praticados no governo anterior com intuito quase exclusivo de garantir a cadeira presidencial para Dilma.


Outra palavra empenhada em campanha, "trabalhar fortemente para diminuir os juros", já foi quebrada duas vezes neste ano e nossa taxa continua sendo a mais alta do mundo. Já a promessa de "privilegiar critérios técnicos para definir as nomeações" ficou de lado frente à fúria fisiologista de alguns aliados: quase um terço dos ministros escolhidos por Dilma deve alguma explicação por envolvimento em escândalos.

Os cem primeiros dias do atual governo também se notabilizaram pela tentativa de fazer o Estado controlar a iniciativa privada, da qual o caso da troca de comando na Vale pode ser apenas a ponta do iceberg.
Concomitantemente, dentro da nova filosofia, bilhões de reais dos brasileiros correm o risco de virar pó em aventuras sem lastro, como a construção do trem-bala (outra promessa eleitoral que não para em pé).


Do PAC já nem se fala mais.
Seja por causa da lentidão e da inoperância que marcam o programa, seja até por constrangimento. Vai se conhecendo, aos poucos, as condições degradantes que vigoram nos canteiros de obras das ações do programa, como ficou patente tanto nos movimentos reivindicatórios nascidos nas usinas de Rondônia, quanto no centro desenvolvido do país, como mostra a edição de hoje da
Folha de S.Paulo.

É certo que cem dias pode ser cedo para cobrar o cumprimento de promessas firmadas em uma campanha eleitoral. Mas é tempo suficiente para perceber que, em muitas ações fundamentais, o Brasil corre na contramão do que se anunciava e se exige.

Fonte: ITV

HÁ PEDRAS NO CAMINHO DA PETROBRAS E DA VALE.

Se o cenário internacional conturbado e a alta da inflação local impedem que o mercado brasileiro deslanche, as duas maiores empresas da bolsa também contribuem para esse rame-rame.
Existem pedras no caminho tanto da Petrobras quanto da Vale.


As duas companhias possuem incertezas que preocupam os investidores e fazem com que esses papéis não subam como se esperava, pelo menos no curto prazo.

Esse cenário ruim afeta não apenas os investidores das duas companhias. Como, juntas, as ações preferenciais (PN, sem voto) e ordinárias (ON, com voto) da Petrobras e da Vale representam quase 30% do Índice Bovespa, elas acabam emperrando o mercado inteiro.

"Sendo praticamente um terço do índice, fica muito difícil ele subir com percalços nas duas empresas", diz o presidente da Modal Asset, Alexandre Póvoa.
No caso da Petrobras, o principal problema é a alta do petróleo no mercado internacional.
Em qualquer lugar do mundo, esse movimento é positivo para as petrolíferas, que repassam o aumento para os seus produtos.


No Brasil, no entanto, a decisão faz parte de uma política de governo. E, neste momento, com a inflação sendo o principal problema da nova equipe econômica, a última coisa que se espera é que o governo aprove qualquer alta dos combustíveis.
"O repasse só colocaria mais gasolina na fogueira da inflação, tudo que o governo não quer neste momento", ironiza Póvoa.

Com o pré-sal, a Petrobras é a petroleira com o maior potencial de crescimento no médio e longo prazo. No entanto, com os dados de produção decepcionando consistentemente, aumentam as dúvidas se o potencial irá se transformar em crescimento de fato, lembra Póvoa.
Além disso, sem o aumento da gasolina, a empresa pode não ter caixa suficiente para investir no tal crescimento que tanto se espera.


Os percalços no caminho da Vale parecem mais simples, mas não menos importantes para emperrar a ação no curto prazo. Nas últimas semanas, o papel oscilou ao sabor dos rumores sobre a troca de comando na companhia.
Apesar dos rumores já terem virado fato, com a substituição de Roger Agnelli por Murilo Ferreira, os investidores devem continuar com o pé atrás enquanto o novo presidente não mostrar que o lucro da companhia continuará sendo a prioridade, se é que isso vai acontecer. Póvoa acredita que sim, já que uma Vale ineficiente não é interessante nem para o governo.


Passada essa névoa que paira sobre as duas companhias, a Vale deve ser a melhor opção no médio prazo, diz Póvoa. "A mineradora tem menos incertezas pelo caminho do que a Petrobras", afirma, lembrando do movimento de alta do minério e da demanda da China.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

ENFIM, UM DISCURSO REAL : OS CEM DIAS DE UM GOVERNO SEM VERGONHA, MAMBEMBE!

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias (PSDB-PR), criticou nesta segunda-feira (11) a condução da economia pelo governo da presidente Dilma Roussef. Em pronunciamento em Plenário, o senador enumerou o que considera erros dos cem primeiros dias do governo e afirmou que falta coragem política para promover reformas.

- Dilma tem conhecimento e domínio dos temas econômicos. Nos seus cem dias de governo, as questões econômicas e financeiras, algumas aqui apontadas, não foram enfrentadas com a determinação que a sociedade brasileira esperava. Falta coragem política para reformar - afirmou.

Alvaro Dias criticou a contradição entre os cortes orçamentários anunciados pelo governo e o aumento no número de ministérios e nos gastos com passagens, diárias e cartões corporativos - neste último caso em grande parte sigilosos. O senador citou dados do Portal da Transparência e chamou de duvidosa a austeridade fiscal implantada.

- Em 2011, os gastos da Presidência chegaram a média próxima de R$ 839 mil por mês. Em 2010, a média não ultrapassou R$ 515 mil, ou seja, houve um aumento nos gastos com cartão corporativo da Presidência próximo a 62%. O discurso é de economia, o discurso é de corte - disse o senador.

Alvaro Dias afirmou ainda que a presidente não cumpriu o compromisso assumido em campanha de realizar concursos públicos e valorizar o funcionalismo. Ele se referia à determinação de suspensão, por tempo indeterminado, das autorizações para o provimento de cargos na administração pública.

- Por outro lado, duas medidas provisórias e um projeto de lei editados no governo Dilma tratam da criação de 411 cargos comissionados, de livre provimento, para atender os aliados. São criados cargos comissionados, mas faltam recursos para empossar aqueles que foram aprovados em árduos concursos públicos - ponderou o senador, acrescentando que os cargos comissionados significam a "continuidade do aparelhamento do Estado".

Arrecadação e inflação
Outra promessa de campanha não cumprida, segundo Alvaro Dias, é a redução da carga tributária. O senador citou como exemplo o anúncio recente de aumentos em impostos incidentes sobre as bebidas e no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) nas compras com cartão de crédito no exterior e nos empréstimos contraídos por pessoas físicas.

- Aqui se configura o chamado estelionato eleitoral. Na campanha, a promessa foi de redução da carga tributária no país. O que se verifica agora é exatamente o oposto - apontou.

O senador também criticou a capitalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) por meio da Medida Provisória 526/2011, que autorizou aporte de R$ 55 milhões no banco, e mostrou preocupação com o aumento da inflação provocado pela oferta de crédito.

- Quem paga a conta é o povo brasileiro que paga impostos, já que esses recursos são públicos e oriundos do Tesouro Nacional. Isso tudo num momento em que o Banco Central trabalha para frear o aquecimento da atividade econômica - protestou Alvaro Dias.

Combate à corrupção

Sobre as medidas de combate à corrupção, o líder do PSDB afirmou que o governo da presidente Dilma não demonstrou postura combativa ao longo dos cem dias de gestão e criticou o silêncio com relação às novas denúncias sobre o esquema que ficou conhecido como "mensalão", além da falta de dados sobre licitações para consulta da população.

- Com respeito às irregularidades nas concessões de rádios e TVs, empresas abertas em nome de laranjas para fraudar licitações públicas e as últimas denúncias envolvendo a Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações], o atual governo admitiu não ter dados oficiais atualizados sobre licitações disponíveis para consulta. O silêncio é, sem dúvida alguma, a constatação presente à sombra da impunidade - disse.

O senador manifestou contrariedade em relação ao que chamou de "falta de fiscalização e transparência" na aplicação e na transferência de recursos federais para as áreas da saúde e da educação. Segundo ele, falhas apontadas em 2009 pela Controladoria-Geral da União (CGU) não resultaram em medidas adequadas por parte do governo.

- Isso demonstra a certeza da impunidade, a falta de compromisso, o descaso com a destinação e eficiência dos recursos. Por essa razão, vamos anunciar nesta semana a tentativa de instalação de uma CPI na área da saúde pública para a apresentação de um diagnóstico da realidade e, certamente, a apresentação de sugestões - adiantou.

Da Redação / Agência Senado

PRODUÇÃO PODE; CONSUMO NÃO.


Se a política do ministro Mantega funcionar direitinho, vai acontecer assim:
a fábrica de automóvel terá crédito abundante e barato (subsidiado pelo governo), mas o consumidor não terá crédito para comprar o carro.


É uma caricatura, claro, mas que apenas exagera a falta de lógica da política econômica em vigor, de estimular o crédito para investimento e restringir e encarecer os empréstimos para consumo.
Segundo essa linha de pensamento, o consumo aquecido é ruim porque gera inflação.
Mas o investimento, mesmo superaquecido, é bom, porque cria a capacidade de produzir os bens que atenderão ao consumo lá na frente.
Logo, não é inflacionário.


Ora, depois de inúmeras negativas, o governo finalmente se convenceu de que o consumo está aquecido - ou seja, um desequilíbrio entre a demanda de pessoas querendo e podendo comprar e a oferta insuficiente de produtos. Se há dez pessoas querendo comprar geladeiras e apenas sete no mercado, o preço vai subir.

Por isso o ministro Mantega vem aplicando desde novembro de 2010 uma série de medidas para reduzir e encarecer o crédito ao consumidor. A última, na semana passada, dobrou, para 3% ao ano, o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado nos empréstimos a pessoas físicas.

Vai aqui uma observação paralela.
Há menos de um mês a presidente Dilma Rousseff declarava em entrevista a Claudia Safatle, do jornal Valor, que não concordava que havia inflação de demanda no Brasil. Ora, restrições ao crédito pessoal são justamente para conter a demanda de coisas como automóveis, eletrônicos, etc.


Mas, tomando pela palavra de Mantega, o governo continua contra a tese de que a expansão dos investimentos também aquece a demanda. Mais exatamente: aquece, mas, como aumenta a capacidade de produção, a situação se equilibra.

Equilibra-se mesmo? E quando?

Considerem o investimento para aumentar a produção de uma fábrica de automóveis. Para instalar novas máquinas, será preciso construir ou ampliar prédios. Assim, toda uma cadeia se move, da produção de máquinas até a construção civil, absorvendo aço, alumínio, cobre, cimento, plásticos, madeira, combustível, etc., mobilizando outros fabricantes, fornecedores e prestadores de serviços. E empregando gente em diversos setores, com salários bons, pois a oferta de mão de obra no Brasil já se esgotou.

Pode-se dizer, sem erro, que o mercado de trabalho está superaquecido, com empresas precisando pagar mais para contratar ou segurar funcionários.

Ora, parece claro que há aí um forte impulso da "demanda agregada", não importando se o aço do momento vai para o torno ou para o automóvel. Esse aquecimento ocorre bem antes de a fábrica começar a produzir os carros adicionais.

E, como o governo insiste em manter os canais de financiamento subsidiado a grandes setores escolhidos pelo BNDES, a aceleração da atividade é generalizada. Assim sobem os preços - do caminhão e do frete, do aço e da carga no porto, da borracha e dos pneus, dos móveis e dos escritórios.

Finalmente, os trabalhadores que têm conseguido ganhos reais vão às compras, não é mesmo?

Só aqui o governo pretende agir.
Os consumidores topam com um crediário mais curto e mais caro. Não é muito mais caro, porém, porque o governo não quer matar o negócio, de modo que muita gente aceita pagar um pouco mais na prestação. Os que podem, é claro, que são os de maior renda.


O executivo que vai comprar a moto para passear no fim de semana encara o crediário mais caro. O motoboy que precisa trocar a moto não pode. A locadora que vai comprar 50 carros pode, o trabalhador que acaba de ingressar na classe C não pode.

Mas esses que não podem continuam empregados e, pois, vão gastar em alguma outra coisa. Ou seja, vão aquecer o consumo de outros bens e serviços (viagens, por exemplo, que podem pagar no cartão, em seis vezes sem juros, sem o IOF).

Resumindo:
medidas como essa do IOF, chamadas hoje "macroprudenciais", penalizam alguns setores e pessoas - as de menor renda -, distorcem a atividade e não reduzem o consumo de maneira significativa. O nome pode ser novo, mas a prática está longe de caracterizar uma nova política.


Nas décadas de 70, 80 e início da de 90 se fazia isso direto - e a inflação subiu o tempo todo, até ser abatida pelo Plano Real, em 1993.

Na verdade, o governo Dilma está buscando objetivos incompatíveis. Como disse ao Valor, a presidente tem "certeza de que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% neste ano", sendo intolerante com a inflação. Mas o seu Banco Central (BC) já prevê que a economia cresça 4%, com inflação a 5,6%, acima da meta (4,5%). Para alcançar a meta neste ano, o País teria de crescer menos ainda, é o que nos diz o BC, argumentando assim por que tem sido mais tolerante com a inflação.

Fora do governo, as previsões de crescimento já estão abaixo de 4% e as de inflação passam de 6%.
O governo também não quer aumentar mais os juros e quer impedir mais valorização do real.
O que está acontecendo?
O dólar roda abaixo de R$ 1,60, os juros subiram, a inflação aumentou e o crescimento caiu.


Saiu um pouco errado, não é mesmo?

Alternativa?
A ortodoxia, pessoal. Primeiro, é preciso admitir que a economia brasileira cresceu e cresce mais do que pode.
Isso posto, a receita:
alta mais incisiva da taxa básica de juros, que atinge todo mundo por igual, e uma forte contenção do gasto público, outro poderoso fator de aquecimento da economia. Isso derrubaria a atividade por algum tempo, mas logo criaria as condições de retomada com juros mais baixos.

Carlos Alberto Sardenberg O Estado de S. Paulo

abril 10, 2011

NO MATO SEM CACHORRO : SEM TER O QUE "COPIAR" O MINISTRO BUFÃO NÃO SABE O QUE FAZER. PIOR, A FRENÉTICA/EXTRAORDINÁRIA QUEBROU COM R$1,99. TAMO ...

É assustadora a tranquilidade exibida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, diante do evidente surto inflacionário e das condições nada invejáveis das contas públicas brasileiras.
Ele tem fracassado seguidamente nas tentativas de enfrentar alguns dos mais prementes problemas, como o ingresso
maciço de dólares.


O anúncio de cada nova barreira é seguido de mais uma enxurrada de moeda americana e de mais uma rodada de valorização do real. Nada parece, no entanto, abalar seu otimismo e sua aparente confiança no sucesso de todas as suas políticas. Nessa sexta-feira, ele voltou a prometer, num discurso em São Paulo, medidas para conter o crescente desajuste cambial, como se as suas palavras desestimulassem os especuladores.

Não parece haver percebido um fato muito simples:
a reação normal dos jogadores a cada nova ameaça é antecipar seu lance e agir mais prontamente que o governo.

Mas o mundo fantástico do ministro tem muitas outras maravilhas.
Segundo ele, "o governo não titubeará em adotar medidas para ter a inflação sob controle". As autoridades, acrescentou, pretendem evitar o contágio de outros setores pelo aumento dos preços das commodities.
Ele pode não ter notado, mas, no Brasil das pessoas comuns, o contágio há muito deixou de ser um risco hipotético.


Enquanto o ministro discursava em São Paulo, a Fundação Getúlio Vargas divulgava no Rio de Janeiro o Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), pesquisado em sete capitais. O aumento foi de 0,89% nos 30 dias terminados em 7 de abril. No fechamento de março havia sido de 0,71%. Um mês antes havia ficado em 0,59%. O contágio tem sido claramente confirmado pelo chamado índice de difusão.

No período encerrado na primeira semana de março, 63,34% dos itens haviam ficado mais caros. No fim do mês, esse índice havia chegado a 68,04%. Segundo a apuração recém-concluída, o surto inflacionário contaminou 68,33% dos bens e serviços incluídos na pesquisa.

A inflação brasileira, segundo insiste o ministro, é essencialmente um reflexo da valorização internacional dos produtos básicos. Mas ele decidiu, talvez por segurança, elevar de 1,5% para 3% o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente no crédito ao consumidor. Desde o ano passado muitos especialistas vinham apontando a rápida expansão do crédito como um fator inflacionário.

A reação do governo foi demorada e muito provavelmente será inócua no combate à inflação. A maior parte dos consumidores dificilmente notará o aumento do imposto e continuará tomando financiamentos, se as prestações couberem no seu orçamento. Muito mais eficaz seria uma redução do número das prestações, mas o ministro ou não percebeu esse dado ou não se dispôs a tomar uma providência realmente séria.

O aumento do imposto servirá mesmo para engordar a arrecadação do governo. Só com o aumento da carga tributária o governo conseguirá alcançar a meta fiscal deste ano - outra promessa do ministro.

Ele mencionou, naturalmente, a disposição do Executivo de cortar parte dos gastos programados para o ano, como se houvesse, de fato, a intenção de executar uma política austera.
Também isso é fantasia.
Já se fala, em Brasília, da disposição do governo de preservar certo volume de desembolsos para atender a pressões de prefeitos preocupados com as eleições de 2012. Isso é apenas parte das pressões.


Em seu surto de fantasia, o ministro comparou a expansão dos investimentos no Brasil e na China. De fato, o aumento de 21,9% apurado em 2010 deve ter sido bem maior que o verificado na China.

Mas esse aumento ocorreu sobre a base deprimida de 2009. Além disso, há uma diferença monumental entre as duas economias na relação entre investimento e PIB. Neste ano, se der tudo certo, o País investirá o equivalente a 19,1% da produção bruta, segundo a própria Fazenda.


A China deve ter investido 55% do PIB no ano passado. Em 2011, a proporção talvez diminua para 54,5%.
O Brasil precisará poupar muito mais para chegar à metade disso. Esse resultado dependerá principalmente da adoção de políticas mais sérias pelo governo. Fantasia sem ação não gera recursos.


O Estado de S.Paulo

abril 09, 2011

AINDA PARA O "BRASIL SEGUIR MUDANDO" : AS CAPITAIS DA INFLAÇÃO

Quatro cidades rompem o teto da meta, de 6,5%, perseguida pelo BC e puxam a carestia. Brasília é a 3ª mais cara

Em quatro das principais cidades brasileiras, a inflação estourou a barreira do tolerável no período de 12 meses e disparou além do que o Banco Central previa para todo o país. Brasília, Fortaleza, Curitiba e Belo Horizonte superaram o teto da meta, de 6,5%.
Com isso, essas localidades estão ditando o ritmo da carestia no país.


O restante das regiões pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) caminha a passos largos rumo a esse patamar.
A capital cearense é a recordista até o momento.
Lá, o custo de vida encareceu 7,88%.
A capital federal aparece em terceiro, com elevação de 7,53%.


Enquanto a autoridade monetária esperava para o país uma inflação acima de 6,5% — no acumulado de 12 meses — apenas no fim do primeiro semestre, os consumidores das quatro capitais com maior inflação estão convivendo com um Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nas alturas.
Para esses brasileiros, o dragão ressuscitou.


E pior:
as medidas macroprudenciais (alternativas a aumentos de juros) do governo tentando conter a demanda e corrigir os rumos da economia não estão conseguindo conter o aumento do custo de vida. Elas apenas encareceram financiamentos.

Como o Correio mostrou em reportagem de 27 de março, a escalada inflacionária deste início de ano também está ressuscitando velhos hábitos do período em que os preços estavam descontrolados ao extremo.
As polêmicas maquininhas de remarcação de preços voltaram à cena.

Os freezers, usados para congelar as promoções, também retornam, aos poucos, à vida de brasilienses, curitibanos, belo horizontinos e fortalezenses.
Em Curitiba, a inflação em 12 meses, até março, chegou a 7,75%.
Em Belo Horizonte, a meta foi batida no mês passado, quando a cidade chegou aos 6,51% de carestia.

Campeãs dos preços*

Município - Em %

Fortaleza (CE) - 7,88
Curitiba (PR) - 7,75
Brasília (DF) - 7,53
Belo Horizonte (MG) - 6,51
São Paulo (SP) - 6,40
Goiânia (GO) - 6,25
Rio de Janeiro (RJ) - 6,09
Salvador (BA) - 5,68
Belém (PA) - 5,58
Recife (PE) - 5,26
Porto Alegre (RS) - 5,11

* No acumulado de 12 meses

Fonte: IBGE/IPCA

Victor Martins Correio Braziliense

ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA PERVERTIDA.


Memória
O desvio e o mau uso de recursos destinados à reparação de localidades atingidas por catástrofes naturais têm sido frequentes. Na tragédia de Santa Catarina, por exemplo, que teve cidades devastadas pela chuva há dois anos, os recursos enviados pelo governo federal foram usados para outras finalidades ou simplesmente desapareceram.

Em julho do ano passado, 15 cidades alagoanas receberam um total de R$ 275 milhões da União depois de terem sido atingidas por enchente que castigou o estado. No entanto, a população dos municípios atingidos não viu a cor do dinheiro procedente do governo federal. Escolas, postos de saúde, prédios públicos e até estações de trens continuavam destruídos sete meses depois das fortes chuvas, conforme verificou a reportagem do Correio.
\Outro caso emblemático da má aplicação dos recursos foi verificado na cidade de Mineiros (GO), a 384km de Brasília. Por lá, a quantia de R$ 1,5 milhão liberada às pressas pelo Ministério da Integração para a reconstrução de acessos destruídos pela chuva não resultou em melhorias na infraestrutura da cidade.

Além de pontes e estradas continuarem danificadas, parte do recurso recebido pelo município acabou usada para a contratação da empreiteira que doou, segundo consta nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), R$ 8 mil para a campanha a deputado estadual de Aderaldo Barcelos (PSDB), o marido da prefeita.

abril 08, 2011

INFLAÇÃO SEM CONTROLE "PARA O BRASIL SEGUIR MUDANDO".

O IPCA de março divulgado esta semana ficou acima das expectativas do mercado. O ministro Mantega chegou a culpar a chuva pela alta dos preços dos alimentos. O governo parece ainda viver em negação da realidade. O IPCA já acumula alta de 2,44% no primeiro trimestre do ano, o que representa mais de 10% de inflação anualizada. Nos últimos 12 meses, a inflação já chega a 6,3%, muito perto do topo da meta do governo, que é 6,5%.

O governo e alguns analistas “chapa-branca” ainda culpam apenas as commodities pela inflação, mas o item de serviços subiu 8,5% nos últimos 12 meses, com índice de difusão de 68,2%. Ou seja, mais de dois terços dos itens que compõem o setor de serviços estão aumentando de preço, e de forma acelerada. Será que os honorários de um advogado aumentam muito porque o preço do tomate subiu?

Enquanto a inflação foge do controle do governo, o Banco Central divulga ata negligente, sinalizando aumento reduzido nas taxas de juros à frente. E o governo continua adotando medidas paliativas, enquanto o BNDES jorra crédito no mercado. As medidas “macroprudenciais” são um tiro no escuro, e o governo está contando com a sorte de forma irresponsável.

Ataca os efeitos, mas não mexe nas causas principais do problema. A economia segue superaquecida, com elevada capacidade utilizada, dados de emprego no limite, e fortes estímulos monetários, liderados pelo próprio governo.

O ministro Mantega tem aparecido em público para anúncios oficiais quase diariamente, comunicando novas medidas, como o recente aumento de IOF sobre crédito para pessoa física. A imagem que ele passa me remete aos desenhos animados de minha infância.

Quando começava um vazamento, o personagem tentava, desesperado, tampar o buraco, apenas para ver outro buraco vazando. No final, ele estava todo enrolado, tampando buracos com as mãos e os pés, mas nada impedia o rompimento final do recipiente.

Rodrigo Constantino

" ATÉ QUE UM NOVO DURVAL PROVE O CONTRÁRIO"

Parece inacreditável. Mas não é.
Num país onde sempre falta dinheiro para a saúde, a educação, as estradas, o Congresso Nacional trama mais um assalto ao bolso dos brasileiros. O golpe da vez se chama financiamento público de campanha.

Faz parte da reforma política ora em discussão na Câmara e no Senado. Em tese, a artimanha se destina a acabar com o caixa dois e o financiamento ilegal.

Mas só um demente acreditaria nisso.
E, como bem sabemos, não há tolos no Poder Legislativo em Brasília. O mais bobo deles, costuma brincar um colega jornalista, é capaz de consertar relógio embaixo d’água usando luvas de boxe.

Pois é.
Eles não se cansam de tripudiar sobre o dinheiro que pagamos via impostos. E qualquer piada serve de justificativa ao avanço sobre recursos que poderiam, por exemplo, serem usados para tirar o país das trevas no ensino fundamental e médio nas escolas públicas.

Em vez de cotas para que alunos dessas escolas cheguem às melhores universidades, os nobres parlamentares deveriam brigar pela excelência na qualidade da educação oferecida pelo Estado.

Assim, o estudante pobre — negro, pardo, branco, amarelo — chegaria à faculdade pela porta da frente. Respaldado pelo conhecimento. E não por uma compensação porque estudou em escola ruim.

E vejam só:
hoje, parte dos impostos arrecadados já banca a verba partidária. Só este ano, mais de R$ 400 milhões vão irrigar os cofres dos partidos. Sem contar outros R$ 200 milhões destinados à propaganda eleitoral no rádio e na TV, que nada tem de gratuita, pelo menos para a sociedade. Na verdade, trata-se de renúncia fiscal.


É o Estado abrindo mão de receita para bancar proselitismo político.

Nos Estados Unidos, Obama pretende arrecadar US$ 1 bilhão para a campanha da reeleição. Mas terá de convencer os eleitores a doar a dinheirama.

No Brasil, convencer o eleitor a doar? Nem pensar!
Sem a sua permissão, eles pretendem usar seu dinheiro para fazer campanha e ainda terão a cara de pau de, mais uma vez, pedir seu voto.

Mas prometem:
daqui pra frente, nada de mensalão, recursos não contabilizados, caixa dois, doações ilegais...
Até que um novo Durval prove o contrário.

Plácido Fernandes Correio Braziliense