"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

setembro 09, 2013

Cadeia nacional de empulhação


Está virando hábito, um condenável hábito: 
a presidente da República ocupar cadeia nacional de rádio e televisão para fazer proselitismo político. Aconteceu de novo na sexta-feira, quando, a pretexto das comemorações pelo 191° aniversário da Independência, Dilma Rousseff protagonizou mais um horário antecipado de propaganda eleitoral gratuita.

Foram dez minutos em que a presidente, mais uma vez, se dirigiu à nação como chefe de um governo, ou, mais precisamente, de uma facção. Novamente faltaram a suas palavras o que distingue um líder de Estado de um temporário ocupante da principal sala do Palácio do Planalto. Dilma, não há dúvida, confirmou-se meramente isso: uma burocrata circunstancialmente instalada no topo do comando do país.

A presidente teima em aprisionar a história do Brasil ao que aconteceu – supostamente de bom – nos "últimos anos”. É incapaz de manifestar alguma visão de nação, de reconhecimento à trajetória de um povo que há séculos luta para avançar e já há pelo menos um par de décadas parece ter encontrado seu melhor caminho.

Não fosse apenas a pequenez da abordagem, o pronunciamento da presidente também pecou pela inexatidão dos argumentos. Dilma surfou sobre resultados episódicos do PIB registrados no segundo trimestre – para surpresa geral, inclusive e principalmente de seu governo – para dourar a pílula de uma economia que claudica a olhos vistos.

A presidente se vangloriou de um país com "garantia do emprego, a inflação contida e a retomada gradual do crescimento”. Onde? A geração de emprego está no nível mais baixo dos últimos dez anos, conforme o mais recente levantamento do Caged. A inflação voltou a subir em agosto, segundo o IBGE, e o que a presidente classifica de "contidos” são alguns dos preços mais altos do mundo, como qualquer compra de supermercado ou conta de boteco comprova.
A "retomada gradual do crescimento” é um capítulo à parte nesta saga de empulhações. Embora para a presidente "o pior já passou”, há quem projete PIB negativo no terceiro trimestre – e não são poucos. O ritmo de expansão da economia sob Dilma equivale à metade do registrado no governo anterior. No continente, só ganharemos da Venezuela.

Com sua média anual de 2% de crescimento, a petista só será superada em ruindade pelos presidentes Fernando Collor e Floriano Peixoto – em toda a história da República! "O modelo Dilma fracassou. Em 2015, a economia terá que passar por ajustes, mesmo na hipótese possível de ela se reeleger. O que Dilma escolheu teve resultado negativo”, escreveu Míriam Leitão na edição de domingo d'O Globo.

No trecho eminentemente político de seu pronunciamento, Dilma apresenta aos brasileiros um balanço edulcorado dos cinco pactos que propôs à sociedade em junho e que resultaram, na vida real, em praticamente nada.

O da saúde resume-se a um programa correto nos objetivos, mas leviano no diagnóstico e desumano na ação. O pacto da educação limita-se a iniciativas que levarão, na melhor das hipóteses, uma década para surtir efeito.

Já o pacto da reforma política redundou em piadas como a Constituinte exclusiva e o plebiscito natimorto, e ressurge agora no Congresso por meio de projeto sem chance de valer nas próximas eleições. Dilma também teve a pachorra de dizer no pronunciamento que sua proposta para o transporte público produzirá resultados no curto prazo. Perdeu o bonde.

Fantasiosas também são suas palavras sobre o "equilíbrio fiscal”. Neste ano, os resultados do governo serão piores que os do maquiado 2012. Em 2014, o esforço fiscal proposto pela presidente ao Congresso será o menor em 12 anos. Os investimentos continuam representando fração ínfima das despesas públicas – só não vê isso quem não anda pelo Brasil real.
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O viés eleitoreiro dos pronunciamentos presidenciais tem se intensificado. Dilma ocupa longos espaços na TV e no rádio – pagos com isenção de impostos – para propagandear supostos feitos de seu governo que não mereceriam nem notas de rodapé. Basta lembrar que programas como Brasil Carinhoso e Melhor em Casa já renderam redes nacionais, embora ninguém hoje saiba mais do que se trata.

Mais uma vez, o pronunciamento da presidente da República a esta nação de 200 milhões de brasileiros foi coberto pela capa do marketing. Mas não foi capaz de ofuscar os enormes problemas que a gestão de Dilma Rousseff não apenas não tem conseguido superar, como tem contribuído para tornar ainda mais severos.

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Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica
estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

BRASIL REAL ! "Marolinha" de 2008 ganha força em 2013. Brasil paga caro por não fazer dever de casa

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Durante um bom tempo, o Brasil se vangloriou de ter sido o primeiro país a sair da crise que varreu o mundo a partir de 15 de setembro de 2008, quando um dos maiores símbolos do capitalismo ruiu, o banco norte-americano Lehman Brothers.

 Cinco anos depois do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, que revelou ao mundo o monstro dos subprimes — créditos de péssima qualidade vendidos como o melhor negócio do planeta —, a nação comandada por Dilma Rousseff está entre as mais vulneráveis do globo, justamente no momento em que deveria tirar proveito da retomada da atividade internacional, puxada por sua maior locomotiva, os Estados Unidos.

Se, em 2008, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva definiu como “marolinha” o tsunami que destruiu pelo menos US$ 18 trilhões em riquezas no mundo, pelos cálculos da Organização das Nações Unidas (ONU), o Brasil pôde lançar mão de medidas que minimizaram os estragos na economia, hoje, o que se vê é um governo com pouca margem de manobra para encarar o que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, chama de “minicrise”.
Não sem motivos.

Em vez de aproveitar a recuperação da atividade, que teve seu ápice em 2010, com o crescimento de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) — o maior, em 24 anos —, para consolidar a estabilidade, o país cometeu uma sucessão de equívocos e improvisos que resultaram na alta da inflação, na perda de ritmo da expansão econômica e em um rombo crescente nas contas externas.

O quadro que se vê no Brasil é desalentador, admite Roberto Fendt, diretor executivo do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Em vez de cortar juros para estimular o crescimento, o país está sendo obrigado a elevar o custo do dinheiro para que a inflação, que se mantém insistentemente próxima do teto da meta perseguida pelo Banco Central, de 6,5%, não saia do controle.

Ao contrário de dar um sinal claro aos investidores de que o ajuste fiscal é para valer, o Palácio do Planalto encaminhou ao Congresso Nacional uma proposta de Orçamento de 2014 na qual reduz a economia para pagamento de juros da dívida (superavit primário) a 2,1% do PIB. A gastança nos últimos anos foi tamanha, que já não há mais espaço para estímulos à atividade, em especial aos investimentos produtivos.

Não por outra razão, o Brasil passou a liderar a onda de desconfiança que inundou os países emergentes desde maio, quando o Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, indicou que estava se preparando para reduzir os estímulos que vinha dando à maior economia do planeta. Com os juros norte-americanos apontando para cima, os investidores optaram por selecionar os países nos quais manteriam suas aplicações.

De prioridade, o Brasil passou a ser visto com ressalvas. Os problemas estruturais da economia, com a infraestrutura precária, o intervencionismo estatal, a leniência com a inflação e truques fiscais, deixaram de ser relevados. A cobrança veio por meio de uma forte saída de recursos do país e da disparada de quase 20% do dólar ante o real.


Blindagem falha

Na avaliação dos especialistas, mais do que olhar para trás, para os cinco anos pós-Lehman, o que assusta é a falta de transparência do que será a política econômica em um eventual segundo mandato de Dilma. “Infelizmente, o Brasil nunca teve o costume de fazer o dever de casa”, afirma Creomar Lima e Souza, professor de relações internacional da Universidade Católica de Brasília.

E poucos acreditam que as tarefas que poderiam blindar o país neste momento serão executadas com êxito. “Os tempos são de incerteza para o Brasil, quando todos deveriam estar comemorando a recuperação da economia mundial, em especial a dos Estados Unidos”, acrescenta Ernesto Lozardo, professor da Fundação Getulio Vargas.

Ninguém espera, contudo, a ruína dos países emergentes, em especial de Brasil, Índia, Indonésia, Turquia e África Sul, cujas moedas estão derretendo, por causa da fragilidade crescente nas contas externas e da alta do endividamento interno. “Teremos pelo mais dois anos de dificuldades, até que se saiba ao certo como será a condução da política monetária norte-americana”, destaca Lozardo. Muitos acreditam que o desmonte dos estímulos dados pelo Fed será complexo, pois não se sabe para onde vão os juros norte-americanos.

Antônio Corrêa de Lacerda, professor de economia política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz não ter dúvidas de que o Brasil apresentou uma das melhores respostas de países emergentes ao terremoto financeiro oriundo dos EUA. “O uso de bancos públicos para compensar as dificuldades de crédito e estimular a demanda interna foram positivas e impediram a economia de levar um tombo igual ao de Rússia e México ”, explica.

De toda forma, ele acredita que, desde 2009, estava claro para o governo que o modelo de desenvolvimento não poderia mais se ancorar no consumo das famílias, cujo comprometimento da renda com dívidas saltou de 32%, em setembro de 2007, para 45%, em junho deste ano. “As ferramentas usadas para superar a crise no auge dela não servem mais agora”, resume.

ROSANA HESSEL SÍLVIO RIBAS DECO BANCILLON DIEGO AMORIM Correio Braziliense

DOIS EM UM ! E NO DE(S)CÊNIO DA REPÚBLICA DO CACHACEIRO PARLAPATÃO/TORPES E A NADA E COISA NENHUMA ... A AUTOSSUFICIÊNCIA DE PETRÓLEO E PETEBRAS ESPIONADA

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Em nossa série “Túnel do tempo” de hoje vamos regressar a 2006. 
É a inauguração da plataforma P-50 na Bacia de Campos. Repetindo o gesto de Getúlio Vargas, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva suja sua mão de óleo negro e posa para a foto(acima).

Havia motivo para tanta celebração ufanista. Ou ao menos assim pensava o presidente. A P-50 era o marco tão esperado pelos nacionalistas desde que a Petrobras foi fundada, em 1953. Finalmente, após mais de meio século, a estatal, que gozara de monopólio absoluto no setor por quase todo esse tempo, chegaria a autossuficiência na produção de petróleo.

“O petróleo é nosso!”, bradaram todos os nacionalistas, de esquerda e de direita, por décadas. E agora, com a inauguração dessa grande plataforma, o país seria capaz de produzir a mesma quantidade consumida do ouro negro e seus derivados.

Não bastava celebrar a redução da necessidade de importação do importante produto; era preciso dar um tom todo especial a isso. O presidente Lula, então, chamou a conquista de “independência” e a comparou ao esforço de Tiradentes, que “ousou desafiar a idéia de que o Brasil não poderia ser independente”. 
A esquerda nacionalista foi à loucura.

Mas era tudo prematuro demais.
O cheiro de demagogia tomou conta do lugar. 
Lula teria, pelo visto, cantado vitória muito antes do tempo. Avançando para os dias de hoje, como está essa questão de autossuficiência do petróleo? 

Vejamos alguns dados do último balanço disponível da Petrobras:


Fonte: Petrobras

Como fica claro acima, a Petrobras ainda precisou importar 400 mil barris/dia de petróleo e derivados no primeiro semestre desse ano. Houve paradas programadas na produção, mas explicam apenas parte do problema. A tendência é de alta na necessidade de importação de petróleo.


Fonte: Petrobras

Vendo de outra forma a mesma coisa, a Petrobras utiliza praticamente toda a sua capacidade instalada, mas mesmo assim só é capaz de atender cerca de 80% da demanda. O restante tem que ser suprido pela importação mesmo.

Que fique claro o seguinte: 
a autossuficiência em si não é o mais importante. 
Isso é mentalidade mercantilista. 
Países desenvolvidos importam petróleo sem problemas, e focam naquilo que são mais competitivos. Por outro lado, países exportadores de petróleo muitas vezes são atrasados, corruptos e vítimas de regimes autoritários. Essa obsessão com o óleo viscoso é puro fetiche irracional.

Dito isso, claro que seria bom para o país ter um setor de petróleo mais dinâmico, com várias empresas privadas competindo para explorar nossos recursos naturais. Seriam mais divisas, mais dólares exportados permitindo a importação de outros bens e serviços.

O então presidente Lula não explorou essa visão racional da globalização quando comemorou (precipitadamente) a nossa autossuficiência. Para ele, era uma conquista análoga à independência. Agora sim, o Brasil ficaria livre da necessidade de importar petróleo!

Sete anos depois… ainda temos de importar 20% do que consumimos, pois a produção da Petrobras não consegue crescer no ritmo da demanda. Cresce pouco mais de 2% ao ano desde que o PT assumiu o poder, uma taxa medíocre.

Fonte: Petrobras

Como podemos ver, nada mais incômodo para populistas de plantão do que os fatos históricos. Nosso “túnel do tempo” está aqui para isso.

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A Petrobras foi espionada pelos americanos. O que eles descobriram? Ou: Quem tem amigo como o PT não precisa de inimigo externo.

Agora mexeram com nosso “orgulho nacional”. Afinal, o petróleo é nosso! Já posso até ver os nacionalistas babando de ódio porque a agência de segurança americana (NSA) espionou, segundo documentos vazados (a conta gotas e de forma seletiva) por Greenwald, a nossa querida Petrobras. Confesso que até eu fiquei muito irritado!

Afinal, há muitas dúvidas no ar, e nós, brasileiros, queremos respostas. Os americanos poderiam nos explicar melhor como foi que a Petrobras torrou quase um bilhão de dólares para comprar uma refinaria em Pasadena, no Texas, que não vale quase nada? Podem nos dizer como a estatal investiu tantos bilhões, aumentou tanto seu endividamento, mas não consegue fazer a produção crescer?

Sobre o caso da espionagem e a revolta cívica seletiva, meu vizinho virtual Reinaldo Azevedo já disse que deveria ser dito
aqui. Pretendo apenas quantificar um pouco a análise qualitativa do jornalista. Vamos ver alguns números da Petrobras, para compreender melhor que seu verdadeiro inimigo não são os americanos, mas sim nosso próprio governo, sob o comando do PT.

Em primeiro lugar, vejam quantos bilhões de dólares foram investidos apenas no setor de Exploração & Produção desde que o PT assumiu o poder:


Fonte: Petrobras

Trata-se de uma montanha de recursos! Após tantos bilhões destinados ao setor de exploração e produção, podemos imaginar que o resultado logo apareceu no crescimento de produção, certo? Errado. Estamos falando de uma estatal, ora bolas, e gerida por petistas! Eis, portanto, o resultado da produção total da empresa, em barris de óleo e equivalentes:

Fonte: Petrobras

É um crescimento medíocre, sendo benevolente com a empresa. Mais precisamente 2,3% ao ano desde 2003. A Petrobras alcançou a marca de 2 milhões de barris/dia em agosto de 2008, e em julho de 2013 sua produção era… 2 milhões de barris/dia!

A sensação que fica é a de que toneladas de recursos foram aportadas apenas para o crescimento se manter estável. Bem, sempre pode ser pior. A Venezuela que o diga. A PDVSA torra bilhões de dólares e a produção cai ano após ano! É o efeito do bolivarianismo na empresa.

Se os investimentos têm aumentado tanto e a produção não, então o endividamento deve ter explodido em relação ao valor de mercado da empresa, certo? Exato. É o que podemos verificar abaixo:

O impacto disso tudo pode ser observado quando comparamos o desempenho das ações da Petrobras (PBR) com uma cesta de empresas do mesmo setor (XLE). Toda a euforia com o Brasil, em boa parte fruto do crescimento chinês e do baixo custo de capital nos países desenvolvidos, dissipou-se nos últimos anos:
Fonte: Bloomberg
Explicando melhor: 
 a Petrobras já perdeu 80% de seu valor relativo a essa cesta de empresas do setor desde 2010! Nossa estatal é o “patinho feio” do setor de petróleo no mundo. Os investidores não querem saber dela. Sua destruição de valor para os acionistas – leia-se todos os brasileiros – é assombrosa.
 
Pergunto:
alguém precisa de espiões estrangeiros para destruir a Petrobras? Claro que não! Basta deixar o PT mais alguns anos tomando conta dela. Quem tem amigos como o governo do PT não precisa de inimigos…

Transcrito do original em :