"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

junho 19, 2013

O que se quer é mudança

A voz que emana das ruas merece, acima de tudo, respeito. Ainda que não se saiba de forma exata quais são suas reivindicações mais amplas é extremamente saudável que os cidadãos tenham voltado a demonstrar sua capacidade de se indignar. O grito das multidões está mostrando que, mais que o conforto monetário, o brasileiro preza valores. 
De tudo, parece ser possível tirar um recado indubitável: 
o que se quer é mudança.

A voz que emana das ruas merece, acima de tudo, respeito. Ainda que não se saiba de forma exata quais são suas reivindicações mais amplas – que transcendem, e muito, a mera revisão de reajustes de passagens de ônibus – é extremamente saudável que os brasileiros tenham voltado a demonstrar sua capacidade de se indignar. 
De tudo, parece ser possível tirar um recado indubitável: 
o que se quer é mudança.

Há tempos se ouve e se lê que o brasileiro está satisfeito com o emprego que lhe é oferecido, com a prestação do financiamento que não lhe aperta o bolso, com a sensação de bem-estar que o dinheiro compra. Há tempos se diz que, tudo mais constante, o brasileiro não busca nada além disso; basta-lhe a sombra e a água fresca que a carteira pode garantir.

O grito das ruas diz outra coisa. Revela uma gente cansada de ver que as mazelas do país se aprofundam, que o vale-tudo é transformado em prática corriqueira, que a corrupção, a esperteza e o malfeito são aceitos e impostos como regra do jogo. O brasileiro está mostrando que, mais que o conforto monetário, preza valores, quer que a dignidade, a seriedade e o respeito prevaleçam. 
Isso não tem preço.

Há anos, somos tratados como um país de consumidores, não um país de cidadãos com direitos a serem respeitados e deveres a serem cumpridos. Há anos, a dignidade foi resumida a carnês de financiamento, a acesso a shoppings centers. Viramos um país que se contenta em consumir o presente sem construir e investir no futuro. 
A isso, as ruas dizem "não”.

As pessoas parecem ter se enchido do marketing cor-de-rosa, da publicidade enganosa, da propaganda mentirosa que mostra um Brasil que só existe em anúncios de margarina. Resolveram se indignar e mostrar que o país que elas querem não é este; o Brasil do futuro é outro, diferente e não cabe na camisa de força na qual o discurso oficial quer aprisioná-lo.

A voz dos manifestantes mostra que os que resolveram ocupar as ruas não aceitam mais ver a corrupção tratada com naturalidade pelos seus governantes. Segundo pesquisa do Datafolha divulgada hoje, esta era a razão manifestada por 38% das 65 mil pessoas que protestaram anteontem em São Paulo.

São pessoas que buscam demonstrar que não toleram ver o dinheiro pago em impostos sendo desperdiçado em más gestões, usado para beneficiar amigos do rei e da rainha, torrado em estádios – já são R$ 28 bilhões e serão bem mais – enquanto escolas apodrecem e postos de saúde e creches continuam só na promessa.

Este grosso caldo de rejeição e insatisfação encontrou na alta disseminada dos preços um catalisador poderoso. Um povo que se amedrontou com o monstro da hiperinflação e que lutou muito por reconquistar a estabilidade de sua moeda não aceita ver a carestia voltar a pôr em risco o conforto do seu presente e o direito de planejar o seu futuro.

Além de respeito, é necessário ter humildade ao tentar entender a mensagem das manifestações. Seus protagonistas parecem querer deixar claro que prescindem de tradutores, de intérpretes. Querem ter sua voz ouvida. É bom que seja assim, respeitado o sagrado estado democrático de direito e rejeitadas as ações violentas, como as vistas ontem em algumas capitais do país.

É repulsivo que alguns busquem apropriar-se de movimento tão espontâneo e autêntico. Como tenta fazer, por exemplo, o PT e governo federal em sua estratégia de metamorfosear-se e irmanar-se às manifestações como se não fosse também alvo dos que protestam.

Como quem se inspirou em Lampedusa e seu "O leopardo”, a presidente Dilma Rousseff disse ontem que seu governo também quer a mesma mudança que emana das ruas. Só se for para que tudo fique como está. Segundo O Estado de S.Paulo, até o anúncio de novos programas para beneficiar a juventude já está em estudo pelo governo petista, talvez na crença obtusa de que o grito da moçada será calado com migalhas e ilusionismos.

O PT e seus líderes querem tratar a voz aguda das multidões de maneira oportunista. Provavelmente, creem que é possível manejar a insatisfação por meio de reuniões de seus "estrategistas”. Revelam não ter compreendido nada e, pior ainda, demonstram que continuam a crer que com sua esperteza são capazes de transformar a massa em matéria-prima para suas manobras. 
Juntam-se a cegueira e a surdez.

A pauta dos manifestantes pode ser por demais ampla, difusa e às vezes até confusa. Mas baseia-se em insatisfações que se referem a fatos reais, a problemas cotidianos, a dificuldades diárias. Quando o povo, enfim, se manifesta por si próprio, cabe a quem governa, a quem tem o poder de decidir e intervir no futuro do país respeitá-lo, ouvi-lo e agir. 
É o primeiro passo para que mudanças verdadeiras aconteçam.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica
estão disponíveis na página do
Instituto Teotônio Vilela

"Vozes sem voto"

Arruaças de baderneiros, violação das regras democráticas, etc. – é assim que as autoridades começaram classificando as seguidas manifestações contra o aumento das passagens de ônibus. 

Mas terminaram se dando conta de que o movimento é político, embora ainda o pensem como se fosse luta pela tomada do poder.

Tudo parece indicar que também nós podemos ter uma primavera árabe. Utilizando redes sociais, os jovens concentram suas insatisfações num objeto de protesto, saem às ruas e passam a se confrontar com as autoridades locais. E o movimento se repete e se espalha. Entre nós espanta a rapidez com que se tem multiplicado pelo País afora.

Desde o início era nítido que a insatisfação não se limitava ao aumento do preço das passagens. Os jovens entrevistados na TV terminavam afirmando que, dada a péssima qualidade dos transportes públicos, estes não mereciam aumento nenhum. 

Daí a impropriedade daqueles que têm se oposto ao movimento recorrendo a argumentos técnicos: 
o custo do serviço, aumento menor do que a inflação, etc. 
Os jovens simplesmente estão dizendo que recebem um serviço inadequado e que não encontram canais políticos para exprimir suas insatisfações.

Trata-se de uma crise de representação.

Se eles estão subordinados ao ritual das eleições periódicas, estas pouco dizem a respeito de sua vida cotidiana. Os manifestantes são vozes sem voto efetivo.

Caem no molhado as autoridades quando proclamam que, estando nós numa democracia, o protesto deveria ser ordeiro e conforme os canais competentes. Esses canais estão viciados. 
Daí a necessidade de transformar um incidente num evento político.

E a manifestação assume esse caráter porque, mesmo deixando de formular palavras de ordem adequadas, as pessoas passam a manifestar suas contrariedades assumindo o risco de apanharem, de serem presas, de se machucarem e até mesmo de morrerem.

Igualmente o risco de que baderneiros a elas se juntem, consequência, aliás, da fraca organização política do processo.

O movimento atual é contra a ditadura do discurso feito, destas siglas mortas – PAC, Minha Casa Minha Vida, etc. – executadas sempre aos pedaços. Está morto o projeto lulopetista – essa minha afirmação não nega sua enorme importância histórica. 

Mas ele se esgotou na repetição esclerosada, na incapacidade de se ajustar às novas situações que ele mesmo, às vezes, propiciou.

Diante de uma dificuldade, apenas oferece um novo pedaço do bolo. E no jogo político, soçobrou num acordão em que PT e PMDB trocam favores e flechadas sem que os problemas reais do País sejam enfrentados. A oposição, por sua vez, não tem projeto, a não ser ocupar um lugar privilegiado nessa troca corrompida.

A política atualmente praticada se afoga na farsa da repetição.

Nessas situações politicamente mortas, não é raro que o vigor da política efetiva retorne de supetão. Um Jânio Quadros, um Collor de Mello são os exemplos mais recentes. Eles rompem o sistema esclerosado, mas terminam sendo expulsos dele.

Este, depois do choque, termina encontrando as vias da renovação conservadora.

Note-se que em São Paulo, na última eleição, Celso Russomanno iniciou esse tipo de disparada, mas tropeçou por causa de um erro de cálculo, precisamente no preço dos transportes coletivos. Não é esse o setor em que a insuficiência de planejamento das políticas públicas se faz mais evidente na vida cotidiana?

Os jovens foram para as ruas vociferando contra o beco no qual foram empurrados. Nos últimos tempos este governo quis transformar nossa sociedade num enorme e variado supermercado. Essa modernização transformou as grandes cidades num inferno e o aparelho de Estado no lugar de troca de favores.

Os jovens já têm demonstrado suas opções por outras formas de vida, o que demanda novas formas de politização. Pouco lhes interessa o ritual das eleições em que se diz o que todo o mundo já está cansado de dizer.

Cada vez mais se toma consciência entre nós de que o Estado suga parte importante do produto nacional bruto, sem que devolva os serviços prometidos e necessários a um bem-estar razoável. E os jovens se defrontam de imediato com a farsa em que se transformou a educação nacional, obviamente com raras e nobilíssimas exceções.

Diante do problema mais urgente, pleiteiam mais verbas sem se dar conta da podridão do sistema. Mais do que verbas, é urgente uma completa revisão das instituições educativas vigentes. A começar pela reeducação dos educadores, que, na maioria das vezes, ignoram o que estão a ensinar.

Até há pouco tempo eu me mortificava com este viés do educador se transformar num sacerdote do saber revolucionário, vendo-se sobretudo como um militante de ideias vindouras. Mais do que emancipar, porém, o educador de hoje, quando vem a ser intelectual, precisa deixar florescer.

Será ele capaz disso?
Mas me parece é que estamos entrando na fase do intelectual minguante.

É sabido que movimentos sociais não se transformam diretamente em movimentos políticos. Aqui, em São Paulo, o estopim da revolta pode ser removido se os novos custos do transporte coletivo forem cobertos pelas empresas que muito têm lucrado com a falta de um planejamento global. Mas isso apenas adormecerá o movimento.

Até agora não surgiu nenhum demagogo capaz de fazer a ponte entre ele e a política. Por sua vez, seria um milagre se o governo federal se renovasse por inteiro, fazendo ampla reforma ministerial e administrativa, abandonando os paliativos e iniciando um programa radical de combate à inflação.

Mas que não invente de fazer agora uma reforma política, porquanto os quadros que estão no poder só podem restringir os direitos democráticos. Caberia esperar, então, que alguns congressistas sejam capazes de construir uma frente superpartidária com uma agenda precisa atacando os pontos nevrálgicos da crise?

Às vezes, vale esperar um milagre.


José Arthur Giannotti

PARA REGISTRO ! SEM "MARQUETINGUE" : Popularidade DA GERETONA 1,99 despenca em nova pesquisa Ibope e tensão cresce no Palácio do Planalto


Descendo a ladeira 
– De acordo com pesquisa CNI/Ibope, cujos resultados foram divulgados nesta quarta-feira (19), a aprovação do governo Dilma Rousseff caiu de 63%, em março, para 55%, em junho. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
 
O índice de aprovação de 55% é representado por entrevistados que consideram o governo da neopetista Dilma “bom” ou “ótimo”, segundo o levantamento do Ibope, que ouviu 2002 pessoas com mais de 16 anos em 142 municípios, entre os dias 8 e 11 deste mês. É bom lembrar que esse contingente de entrevistados representa 0,1% da população brasileira.
Já o índice dos que consideram o governo “regular” passou de 29% para 32%. O contingente dos que consideram o governo “ruim ou péssimo” saltou de 7% para 13%. O que mostra que a situação de Dilma Rousseff não é das mais confortáveis e que o governo está à deriva.
A situação deve piorar ainda mais, pois a pesquisa em questão foi realizada antes do início dos protestos que tomaram as ruas do País.

Renda

De acordo com a pesquisa, a piora na avaliação do governo ocorreu em todos os grupos de renda, mas com intensidade maior entre os que têm remuneração maior.

Entre os entrevistados com renda familiar de até um salário mínimo, houve uma queda de 5 pontos percentuais na proporção de “ótimo” ou “bom”. Entre os que possuem renda de 2 a 5 salários mínimos e de 5 a 10 salários mínimos a queda foi de dez pontos percentuais. No grupo de entrevistados com mais de dez salários mínimos, a aprovação do governo caiu 21 pontos percentuais.

Missa encomendada

O mais interessante nesse cenário de crise política é que alguns veículos de comunicação, assíduos frequentadores do caixa do Palácio do Planalto, insistem em poupar Dilma Rousseff, afirmando que os protestos não são contra o governo ou a presidente. Como se sabe, esse tipo de comportamento é obra de profissionais da imprensa que protegem os donos do poder à sombra de um escambo espúrio e condenável.

A chiadeira popular está apenas começando e as pesquisas vindouras, se não foram manipuladas, mostrarão o grau de descontentamento da população em relação ao um governo incompetente e paralisado, mas que faz da pirotecnia oficial a maior de suas realizações.

No mundo da fantasia


A seleção faz hoje a segunda apresentação na Copa das Confederações da qual é anfitriã e até empate com o México pode significar passo decisivo para a classificação. O teste será mais rigoroso do que o da estreia, diante do Japão, em que já se notou evolução. 
Tomara haja dificuldades em Fortaleza - e que o desafio se mostre bem complicado contra a Itália, no sábado. 
Só assim Felipão, torcida e crítica terão ideia justa de pontos fortes e de aspectos frágeis da equipe que tem como objetivo maior a Copa de 2014. O resto fica em plano inferior.

O torneio preparatório para o Mundial do ano que vem se transformou também em alvo de protestos populares. A moçada que há dias sai às ruas para lutar contra aumento de tarifas de transporte público aproveitou a ocasião e escancarou o quanto está irritada com governantes e cartolas pelos custos engordados e inflacionados das praças esportivas erguidas pelo País. 

Os bilhões despejados em estádios soam como escárnio para os cidadãos.

Até que enfim uma parcela da população deixou o esquindô, esquindô de lado e trocou o sonso "Ah, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!" por slogans realistas. Foram necessários mais de seis anos para que milhares tirassem o véu dos olhos e enxergassem com nitidez o destino do dinheiro deles. 

Este caderno de Esportes já apontava, em 2007, abusos nas obras do Pan no Rio e, em seguida, cobrava transparência de autoridades nos projetos para Copa e Jogos de 16. Na época foi avacalhado por muitos.

As manifestações talvez tenham chegado tarde para o Mundial (mas não para a Olimpíada), porque a farra da grana corre solta e não há como interromper os trabalhos. Agora, se descobriu que quase R$ 30 bilhões estão espalhados Brasil afora, a maior parte nas "arenas", várias candidatas a elefantes brancos depois de julho de 2014. 

E as cifras vão crescer. 
 Faltam argumentos consistentes para explicar, por exemplo, por que um campo aqui custa até R$ 1 bilhão, enquanto na Itália a Juventus ergueu belíssima casa nova, em Turim, para 41 mil torcedores, por R$ 300 milhões.

Muita gente cansou de desfaçatez e deseja ser ouvida. No entanto, há quem viva num mundo de fantasia, em que tudo vai muito bem, obrigado. Como os alegres convidados para o Baile da Ilha Fiscal, em 1889, dias antes da queda do império, ou como a corte de Luis XVI e Maria Antonieta, que em 1789 não percebia a aproximação da Revolução Francesa. 
Quando se deram conta, os soberanos tinham perdido o poder e, anos depois, a cabeça... 
 
Nesse sentido foi emblemática a capa da edição de ontem do caderno Copa das Confederações, do Estado. Os repórteres Jamil Chade e Leonardo Maia fizeram retrato impecável do que pensam personagens importantes no momento. Não surpreendeu, e infelizmente nem chocou, a reação da dobradinha Joseph Blatter e Jerôme Valcke, os senhores que dão as cartas na Fifa. 

O presidente aposta na sedução do esporte, no poder que tem de desviar a atenção de problemas, ao afirmar que "o futebol é mais forte do que a insatisfação das pessoas" e ao prever que o fogo de palha passará. 
Seu secretário geral e fiel escudeiro foi além:
 "Tenho certeza de que, se o Brasil ganhar a Copa (de 2014), essas críticas vão desaparecer."

O discurso orquestrado (lembra?) contou com acordes do ministro Aldo Rebelo. O antigo presidente da União Nacional dos Estudantes e destaque do PCdoB, partido que sofreu na carne perseguição política e policial, foi duro ao garantir que o governo não vai "tolerar" atitudes que emperrem a realização das competições, com a ressalva de que são direito assegurado em democracia.

A dupla José Maria Marin/Marco Polo Del Nero não saiu do tom. "Seria preferível que a atenção estivesse no futebol e acho que é a preocupação de grande parte do povo brasileiro" (Marin). "Quantos foram?(nos protestos) Mil? Tem 199 milhões de brasileiros trabalhando e esses querem atrapalhar" (Del Nero).

Desce o pano, rápido.
Antero Greco O Estado de S. Paulo

"AUMENTO DE CONSUMO NÃO É REDUÇÃO DE DESIGUALDADE" ! "País não resiste à permanência da desigualdade"

 
A ebulição social a que o país assiste, com a escalada de protestos, reflete, na opinião do cientista político Jorge Almeida, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o preenchimento do vácuo dos movimentos sociais que se burocratizaram desde a chegada do PT ao poder, em 2003.

Para o professor, os distúrbios vêm num momento de aparente tranquilidade, quando, por meio do convencimento e do aumento do poder de consumo - mas não da redução da desigualdade social - o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva criou pela primeira vez uma situação de hegemonia estável para o grande capital no país.

A aparente "paz de cemitério", no entanto, não teria resistido à permanência da desigualdade. Por outro lado, Almeida lembra que o elemento novo da manifestação é a presença de jovens que, depois de dez anos dos petistas no poder, cresceram sem ter parâmetros de outros governos.

"Talvez esta juventude não esteja mais raciocinando numa base comparativa", afirma.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:
 
Valor:
Qual é o pano de fundo deste movimento?


Jorge Almeida: 
No começo do governo Lula houve um enfraquecimento dos movimentos sociais, não há dúvida. Eles passaram por um processo de moderação, apoiaram o governo e deixaram de mobilizar as suas bases. 

Ao mesmo tempo, o governo Lula representou o fortalecimento da hegemonia do grande capital no Brasil.

Eu uso o conceito de hegemonia de Gramsci, o qual não se trata de uma simples dominação. Requer uma construção de consensos. 


A história do Brasil, desde a Colônia, é marcada por uma dominação muito grande, mas autoritária, que sempre se utilizou da força, mesmo no interregno democrático entre as ditaduras getulista e militar.


Isso mostra uma hegemonia fraca, ou instável, porque a força tem que estar na frente, não o convencimento. A instabilidade dessa hegemonia sempre esteve associada à desigualdade social e aos movimentos sociais e entidades que se opunham a ela, como a UNE, o PT, a CUT, o MST. Estas organizações dificultavam a hegemonia e dois fatos importantes ocorrem no pós-Lula.

Valor:
Quais foram?


Almeida:
O primeiro não é a redução da desigualdade - que não ocorreu - mas o aumento do poder de consumo da população. 


O segundo foram as grandes organizações sociais que eram contestadoras e passaram a defender a ordem social.
Estes dois fatores fizeram com que a hegemonia da ordem burguesa tenha ficado mais estável.


Como a desigualdade continua, vão ter que ser construídas outras organizações, porque estas, mesmo depois de saírem do poder, não serão as mesmas, não terão mais o mesmo caráter de radicalização.
O vácuo está sendo ocupado.

 

Valor:
É uma surpresa?

 

Almeida:
Já existia de uns dois ou três anos para cá um aumento da resistência popular a diversos aspectos de ordem econômica, social, política. 
2012 foi o ano que teve mais greves desde, salvo engano, 1995; em 2012 e 2013 foi quando houve mais conflitos envolvendo povos indígenas; tivemos também a movimentação contra a homofobia e a intolerância religiosa, com manifestações importantes em várias cidades do país; no ano passado, tivemos uma greve geral do funcionalismo e das universidades públicas, com mais de cem dias de duração, que mobilizou não só os professores como os estudantes também.

Tem havido uma série de sinais de que não estávamos vivendo uma paz de cemitério. Os 20 centavos são a ponta do iceberg e por trás dele temos um conjunto insatisfações sociais, políticas e culturais.

Valor:
Que outra insatisfação é relevante?

 

Almeida:
A Copa do Mundo aparece como uma verdadeira intervenção da Fifa nos grandes centros urbanos brasileiros. Há limitação da liberdade de expressão, do comércio, num raio de dois quilômetros nos estádios não pode ter manifestação.


Não pode ter mobilização, não pode venda de produtos que não sejam licenciados pela Fifa; os preços altos dos ingressos, do refrigerante, da água; o superfaturamento das obras; o entendimento claro de que alguns destes estádios vão virar elefantes brancos, como o de Brasília.
A Lei da Copa foi aprovada por quase todos os partidos, no Congresso Nacional.


Parece que todo mundo estava achando que podia fazer o que queria, de forma incólume, sem reação social. Isso coincide com outros elementos da conjuntura econômica e mostra que o Brasil não é uma ilha dentro da crise mundial. A inflação para as camadas de baixa renda atinge 11%, 12%.

Valor:
O que catalisou a insatisfação num movimento nacional?



Almeida:
A violência com que as manifestações foram reprimidas acho que foi um estímulo a uma resposta de dignidade social. Mas, mais cedo ou mais tarde, começaria por outro fato que seria o estopim.


Valor:
Até que ponto há um componente geracional, de uma juventude que quer se manifestar?


Almeida:
A juventude é mais permeável a manifestações de rebeldia e protesto. Não significa que seja a natureza dela. Ou que sempre fará isso numa perspectiva à esquerda, a história já mostrou circunstâncias diferentes. Mas a história mostra que a juventude é que muitas vezes toma a iniciativa.


Talvez o elemento novo agora é que a juventude que tem até 20 anos não pegou o governo FHC. Eles tinham 6, 7 ou 8 anos.


Talvez esta juventude não esteja mais raciocinando numa base comparativa, considerando as melhoras que aconteceram no governo Lula. É possível que não estejam trabalhando com estes parâmetros.

Fazem avaliação a partir do que estão vendo. 


É uma geração que passou a tomar conhecimento da prática política a partir da chegada do PT ao poder. Talvez esteja mais aberta a uma postura crítica em relação ao próprio governo Dilma.


Valor:
O papel das redes sociais da internet é superestimado ou de fato é um fator importantes?


Almeida:
Sem dúvida foi um facilitador.
Da mesma forma que aconteceu em outros países, há uma mudança no que tem sido a prática do ativismo virtual, ou o ciberativismo.
Ele está servindo como um articulador do ativismo público, de rua.

Várias plaquinhas diziam:
"Saímos do Facebook".


O que está ocorrendo é um processo de consciência política.
E as grande entidades estudantis, como a UNE e a Ubes, estão muito burocratizadas, diferentemente dos centros acadêmicos e DCEs.
A UNE tem uma imagem negativa de parte grande dos estudantes, de ser muito burocratizada e governista, chapa-branca.


Cristian Klein | De São Paulo Valor Econômico 

E A GERENTONA 1,99 DE NADA E COISA NENHUMA DO PARLAPATÃO SEGUE "MUDANDO" O brasil : Fundos estrangeiros deixam Brasil para investir em outros emergentes

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Sinais mais fortes de retomada da economia americana e dúvidas sobre a recuperação brasileira têm levado investidores estrangeiros a tirar parte dos recursos aplicados no Brasil e transferi-la para outros países emergentes.

O percentual de investimento que o Brasil recebe de fundos de renda fixa voltados a esses mercados chegou ao menor nível histórico no fim de abril, ficando abaixo de 10% pela primeira vez. Os dados, computados desde 2002, são da consultoria EPFR.

O mau humor de investidores com o Brasil teve mais reflexos ontem. O Banco Central colocou US$ 4,5 bilhões no mercado para frear a queda do real e a Votorantim Cimentos desistiu do plano de lançar ações na Bolsa.

O Brasil tem sofrido mais que outros emergentes com a fuga de recursos, embora a perspectiva de recuperação dos EUA esteja favorecendo a venda generalizada de ativos desses mercados.

A desvalorização de 19,5% da Bolsa brasileira em 2013 supera a queda registrada pelos mercados da China, do México e da Turquia.

Apesar de pequena recuperação recente, a fatia de fundos de ações de países emergentes investida no Brasil está em 12,5%, menos que a média de 14,9% registrada entre o início de 2006 e meados de 2012, segundo a EPFR.

Roberto Padovani, economista-chefe da Votorantim Corretora, diz que o baixo crescimento do Brasil em 2011 e 2012 afugentou estrangeiros de maneira mais intensa que em outros emergentes.

"Essa perda relativa de interesse foi reforçada recentemente pela perspectiva de que a política monetária dos EUA possa mudar de maneira rápida", afirma.

Juros mais altos elevariam a atratividade de aplicações em renda fixa americana.

POLÍTICA FISCAL

Michael Gomez, diretor da Pimco, uma das maiores gestoras de recursos do mundo, diz que a recente retirada do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre investimentos estrangeiros em renda fixa foi um sinal positivo.

Mas, segundo ele, o mercado espera que o governo reduza gastos, contribuindo para o combate à inflação.

O principal fundo da Pimco dedicado a investimentos de renda fixa em países emergentes reduziu a parcela de recursos aplicados no Brasil de 12,1% no fim de 2010 para 6,8% em março de 2013.

Gomez ressalta, no entanto, que o país permanece oferecendo retornos elevados aos investidores.

"O Brasil continua sendo uma parte importante dos nossos investimentos." 
 
CAROLINA MATOS
ÉRICA FRAGA
DE SÃO PAULO
 
Folha