"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

junho 18, 2013

Razões para o pessimismo, e para o otimismo

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Os brasileiros têm motivos de sobra para se indignar com o que o governo lhes oferece. A contrastar com o pessimismo quanto ao futuro do país sob a batuta do PT, está o despertar de milhões para uma epopeia de malfeitos e uma cronologia de descalabros. É, sem dúvida, neste caldo de insatisfação que se inspiram os que ontem foram às ruas das principais cidades do país. Eles, e não a gestão Dilma, nos dão razões de sobra para ser otimistas.

A presidente Dilma Rousseff acha que os brasileiros não têm motivos para se chatear com o governo dela. Tacha de agourentas e mal humoradas o número crescente de pessoas que consideram que o Brasil vai mal e que, a cada dia que passa, enchem mais as ruas para protestar, como aconteceu de novo ontem. Talvez ela mereça uma ajudinha para lembrar as muitas razões para sermos pessimistas quanto ao futuro do país sob a batuta do PT.

É possível que o pessoal esteja cansado da pasmaceira em que Dilma está afundando o Brasil. No mandato dela, a nossa média de crescimento é de módico 1,8% ao ano. Só Fernando Collor de Mello teve dois anos iniciais tão ruins assim; deu no que deu. A previsão dos analistas para este ano vem caindo há cinco semanas e agora já está abaixo de 2,5%, um vexame para quem começou o mandato prometendo média de 5%.

Em 2012, o Brasil ficou na vice-lanterna do ranking de crescimento no continente. A presidente e os petistas parecem ter gostado da situação: segundo prevê a Cepal, vamos figurar de novo na rabeira da lista, superando desta vez apenas a Venezuela – talvez por uma mórbida solidariedade ao chavismo, que agora até mamadeira quer proibir por lá...

O Brasil governado por Dilma também é uma jabuticaba no quesito inflação. Crescemos pouco, mas os preços que pagamos por bens e serviços não param de aumentar. Enquanto vizinhos como Chile, Paraguai e Peru têm índices de preços subindo ao redor de 2%, nossa inflação ronda o limite da meta de 6,5% – neste mês, possivelmente arrebentará o teto.

A carestia é especialmente dramática para famílias mais pobres. Como elas destinam cerca de um terço de sua renda para gastos com comida, são afetadas por aumentos maiores nos itens de alimentação, que sobem 14% em 12 meses. Com isso, apenas a alta de preços registrada desde meados de 2011 (12%) já foi capaz de fazer 22 milhões de brasileiros voltarem para a parte de baixo da linha da miséria.

O jeito tem sido cortar despesas e, com isso, as vendas em supermercados estão simplesmente despencando – o comércio teve, em abril, o pior desempenho para o mês desde 2003, quando a comparação é feita com os resultados de um ano antes. O motor do consumo está rateando e não deve mais embalar o crescimento da economia como um todo.

Com o dólar subindo como está, muita coisa vai ficar ainda mais cara no país. A moeda americana já escalou 11,2% desde o início de março, quando atingiu sua cotação mais baixa neste ano, e bateu ontem novo recorde em quatro anos. Num país que compra todo tipo de quinquilharia do exterior, a decolagem do dólar vai bater direto no bolso das pessoas. E vai doer ainda mais.

O Brasil governado por Dilma também é uma excentricidade em termos de juros. Desde que a Selic começou a aumentar, estamos entre os cinco únicos países do mundo que elevaram sua taxa básica neste ano. Nosso juro real (2,1%) agora só perde para o da China (2,7%) e o da Rússia (2,2%). Falta só um pouquinho para voltarmos à nada honrosa liderança em que estivemos durante anos, em mais um feito da presidente.
 
O governo petista aposta que este clima ruim se dissipará tão logo comecem as outrora demonizadas privatizações. Os leilões de concessão de aeroportos, ferrovias e rodovias tornaram-se a sonhada tábua de salvação do governo Dilma. Mas será que investidores, que hoje fogem do Brasil, irão se aventurar num cenário de tantas incertezas? Já o pré-sal virou a caixinha dourada de onde o governo pretende tirar os bilhões necessários para fechar suas contas neste ano. É o futuro pagando as faturas do presente.

Mas não é só na economia que os brasileiros encontram motivos de sobra para estar pessimistas e indignados com o Brasil. A educação segue sendo uma vergonha nacional. Temos 12,9 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais de idade e 31,5% da população não completou o ensino fundamental, de acordo com a
Pnad de 2011. Nossa média de estudos é tão ruim quanto a do Suriname, a pior de todo o continente.

País rico é país bem educado, menos para o PT. Não se veem razões para otimismo nas ações do governo Dilma nesta seara. O Plano Nacional de Educação em discussão no Congresso tem metas tímidas: por exemplo, alfabetizar, até 2020, as crianças até os oito anos de idade, época da vida em que, atualmente, meninos e meninas mais bem nascidos já estão noutra, lidando com laptops e computadores e balbuciando o inglês.

O descaso com nossos brasileirinhos também se manifesta na frustrada promessa de expandir a educação infantil, com construção de mais de 6 mil creches feita por Dilma em cima de palanques. Até hoje, só uns 10% disso foi feito, se tanto. Desta maneira, persiste um triste quadro: temos 11 milhões de crianças com idade entre 0 e 3 anos e, destes, 8 milhões jamais frequentaram uma creche.

Como se percebe, por onde quer que se olhe, os brasileiros têm motivos às pencas para se indignar com o que o governo petista lhes oferece. Ninguém deseja que mergulhemos numa maré insanável de pessimismo, mas o que se espera é que a gestão da presidente Dilma Rousseff se dê conta de que não conseguirá enganar mais ninguém com seu mundo de faz-de-conta.

A contrastar com tudo isso, está o despertar dos brasileiros para esta epopeia de malfeitos, esta cronologia de descalabros, este desmoronar de esperanças e expectativas. É, sem dúvida, neste caldo de insatisfação que se inspiram os cerca de 200 mil brasileiros que foram às ruas em 12 das principais cidades do país ontem. Eles, e não o governo petista, nos dão razões de sobra para ser otimistas.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

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