"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

junho 18, 2013

"O aplauso sempre passa, mas toda vaia é eterna. E inesquecível. " Entonces... Viva a vaia

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A vaia é absoluta.
Não existe vaia relativa, meia vaia, vaia e meia, apenas vaia, pequena ou grande, curta ou longa:
vaia.

A vaia é incontrastável, e não comporta argumento em sentido contrário.
 
Correção:
existe, sim, um único argumento contra a vaia:
a força.

Mas como força não é argumento, retornamos ao ponto inicial:
é impossível argumentar contra a vaia.

A vaia é a mais democrática ação coletiva.
Seu poder reside na fragilidade de quem vaia.
Os autores de uma vaia não querem bater, machucar nem matar: querem... Vaiar.

Axioma:
se toda vaia é contra e não existe vaia a favor, igualmente não existe antivaia. Apenas vaia.

A vaia é sempre dirigida a um núcleo de poder, corporificado no ente que o exerce. Por isso não existe vaia contra o fraco ou o oprimido. Detentores de poder nem opressores vaiam, mas são passíveis de serem vaiados.


Toda vaia é coletiva, não se tem notícia de vaia individual.

Portanto, toda vaia expressa uma inconformidade de natureza social, e assim precisa ser entendida e analisada. A vaia nunca pode ser debitada a um "pequeno grupo de agitadores".

Se assim fosse, qualquer pessoa no interior de uma multidão reunida sem motivação reinvindicante seria capaz de mobilizá-la e fazê-la voltar-se, em uníssono, contra algum núcleo de poder.
 Mas tal reação não é automática. 
 
Para eclodir e se converter no incêndio da vaia é preciso que o rastilho encontre condições favoráveis. Seu combustível é algum tipo de inconformidade, explícita ou latente. Sem isso, o "puxador de vaia" é sancionado pelo grupo, silenciado ou excluído.

A vaia é a expressão inconsciente de um mal-estar consciente ou inconsciente. Ela expressa, na forma de onomatopeia uníssona, um sentimento coletivo de impossível expressão verbal.
 


A propósito:
a vaia prescinde da palavra.
É comunicação em estado puro, energia galvanizada instintivamente.

A vaia só funciona em seu momento.
Não tem efeito quando gravada ou relatada.


Mas atenção:
a vaia reverbera.


E tem o incrível poder de se multiplicar em vaias maiores em intensidade e duração se os fatores que motivaram o apupo original não forem identificados e eliminados.

A vaia é universal, está presente em todas as culturas.

Como expressão primária e instintiva, é o mais genuíno produto do inconsciente coletivo. Traduz uma verdade que prescinde de suporte semântico. 

 
A vaia é uma reprovação cuja origem se situa no silêncio individual, mas que só consegue se expressar de forma coletiva.  


É como o galo do poema de João Cabral:
"Um galo sozinho não tece uma manhã / ele precisará sempre de outros galos. / De um que apanhe esse grito que ele / e o lance a outro; de um outro galo / que apanhe o grito que um galo antes / e o lance a outro; e de outros galos / que com muitos outros galos se cruzem / os fios de sol de seus gritos de galo (...)".


Paradoxalmente, a vaia é consagradora:
não há registro de vaias contra anônimos. 

 
A única exceção a essa assertiva ocorre quando anônimos assumem papéis de agentes de um poder opressor, injusto ou impopular (como o anônimo que tenta furar a fila ou o policial anônimo numa ação de repressão). 

 
O aplauso não neutraliza a vaia, apenas a emoldura.
Aliás, é bom deixar claro:
como a vaia é incontrastável e irreversível, o aplauso não é seu contraponto. Pois é possível vaiar um aplauso. 
Como é igualmente possível aplaudir uma vaia.

Mas é impossível vaiar uma vaia, neutralizá-la ou convertê-la em aplauso.

 
Por último:
o aplauso sempre passa, mas toda vaia é eterna. 
E inesquecível.
 
 Paulo José Cunha Correio Braziliense

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