"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

janeiro 29, 2013

‘Os sinos de Santa Maria’

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Um grande poeta britânico, John Donne, escreveu no século 16 que nenhum homem é uma ilha. “A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano”.

As mortes de Santa Maria nos diminuem; e nos obrigam a agir para evitar novas tragédias, que nos diminuiriam ainda mais.

Punir os responsáveis, claro.

Mas sem esquecer que tirar um alvará é um procedimento que pode levar anos, e que empresário nenhum tem condições econômicas de aguardar.


E por que leva anos?

Porque há maneiras de contornar as dificuldades e comprar facilidades.
Alvará de botequim, por exemplo, sai mais rápido que o de restaurantes; por isso muitos restaurantes funcionam com alvarás de botequim.

Há materiais acústicos que retardam as chamas; mas são mais caros.
Bote-se um material parecidíssimo, porém muito mais inflamável, e parte da diferença de preço ajudará alguém a ajudá-lo. 

Superlotação? Nada que um agrado às pessoas certas não consiga transformar em coisa das mais normais.

Há um esquema (que não depende de partidos) para redistribuir a renda obtida com o desprezo à segurança.
Pode ser desmontado?
Pode:
imagine equipes (cujos integrantes se alternem, para evitar cumplicidades) que visitem um estabelecimento a inaugurar e decidam de uma vez se está tudo em ordem.

Por que não?

Porque, se houver problema, quem morre não é o dono, nem o fiscal, nem as autoridades. Somos nós, nossos irmãos, nossos filhos. 
Citando John Donne mais uma vez, não pergunte por quem os sinos dobram.

Eles dobram por nós.

Mata, esfola
A opinião pública quer cabeças ─ seria difícil esperar algo diferente. 
O delegado de Santa Maria prendeu alguns dos possíveis responsáveis pelo incêndio. Mas por que algemar o sócio da boate? 
Qual a necessidade das algemas? 

O risco foi alto: 
se houvesse tentativa de linchamento, as algemas impediriam o preso de se proteger. Aliás, diz um advogado, a prisão para interrogatório foi inadequada. 
Veja em www.conjur.com.br/2013-jan-28/justica-gaucha-bloqueia-bens-socios-boate-santa-maria.
Não briguem com este colunista: 
a opinião é do advogado.

Palavras, palavras…

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, anunciou a operação Prevenção Máxima, com 300 equipes fiscalizando boates. 
Ótimo: 
poderia começar com uma das mais requintadas casas paulistanas, a Número, que tem uma porta só, com acesso por uma passarela estreita, e já teve um bar no subsolo. 
Em frente, um estacionamento tem uma só porta, para entrada e saída, contra a lei. Ambos foram denunciados “n” vezes, sem resultado. 
 Ambos ficam em área elegante.

E o Rio? 
Também inseguro. 
O ex-deputado federal Milton Steinbruch lembra que as casas da Lapa são antigas, com janelas pequenas e só uma porta ─ lá estão as boates. 
Numa delas, aliás, é hábito soltar buscapés nos shows. 
Casas velhas, com madeira seca, espuma isolante, buscapés.

Depois, a culpa é do destino.

…e mais palavras

Frase do deputado federal (e ex-governador do Rio) Anthony Garotinho, sobre a posição de seu partido, o PR: 
“Não vamos fazer oposição, nem ser situação”.

Aliás, o PR não será oposição, nem situação, nem muito pelo contrário.

CARLOS BRICKMANN
 Íntegra/Original :
 

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