"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

outubro 07, 2010

MANO A MANO - E POUCO ESPAÇO PARA O ME ENGANA QUE EU GOSTO.


Se o PT pode retirar o tema do aborto do programa aprovado pelo partido porque atrapalha a campanha eleitoral, com a mesma facilidade pode repor o assunto na agenda quando achar que não há mais obstáculos.

Esse tipo de gesto dificilmente convenceria alguém e poderia representar um grave risco para a candidata Dilma Rousseff: os grupos religiosos não ficariam satisfeitos, as pessoas que concordam com a descriminalização do aborto ficariam insatisfeitas e a campanha deixaria a impressão geral de que quis fazer todo mundo de bobo.

Conforme ficou demonstrado pelo resultado do primeiro turno, o brasileiro não está naquele estado de idiotia que se imaginou.
Ainda sabe fazer umas contas, discerne razoavelmente umas coisas das outras e não se deixa levar pelo cabresto.

Por isso mesmo a maquiagem tem limite e, principalmente agora no segundo turno, os poderes do marketing também.
Há controvérsia sobre o velho dito segundo o qual eleição do segundo turno é outra eleição.

Quem discorda fala da quase impossibilidade de primeiro e segundo colocados inverterem as posições.
De fato, a virada não é a regra.
Mas é um outro tipo de processo.

Nele, há muito pouco espaço para enganação:
o mano a mano põe os candidatos face a face numa luta sem segunda chance.

O horário eleitoral deve prender atenção do eleitorado muito mais:
porque é mais curto - dez minutos para cada lado - e porque não tem mais aquele desfile de candidatos aos parlamentos.

São vinte e poucos dias de adrenalina.
Nesse período conta muito menos a propaganda e muito mais a estratégia.
Ou seja, a política, tudo o que faltou no primeiro turno.

Ambos os grupos adversários estarão com suas figuras de ponta eleitas e liberadas para cair na batalha.
vantagens e desvantagens para Dilma Rousseff e José Serra.

Ela continua com duas imensas vantagens:
o presidente Lula na chefia dos trabalhos e a dianteira de muitos milhões de votos.

Ele tem em seu favor o espaço de conquista de eleitores nos dois maiores colégios eleitorais, cujos governadores eleitos são do PSDB, e o ânimo renovado de militantes e eleitores pela possibilidade real de vitória, sentimento que tinha sido arquivado havia uns dois meses.

Dilma carrega passivos importantes:
os ecos do escândalo Erenice Guerra, os temas polêmicos (aborto, imprensa, casamento gay, direito de propriedade) que o partido abraça e que o governo incorporou no Plano Nacional de Direitos Humanos 3, achando que a concessão à esquerda não renderia problemas e poderia dar até certo charme à candidata.

Serra vem de uma campanha horrível em que ele errou mais que todos, mas não errou sozinho.
Achou que ganharia a eleição por gravidade, por sua bela formação, sua excelente trajetória.
Esqueceu-se apenas de compartilhar essa maravilha com o País e de dar a ela uma forma política que pudesse construir na cabeça das pessoas uma representação de alternativa de poder.

O PSDB tem as próximas semanas para mostrar se tem unidade, vontade e inteligência para falar direito com o eleitor.

A grande vantagem do tucano é que a campanha não pode piorar.

Já os petistas que achavam que a campanha não precisava mudar nada, tiveram de se deparar com a dura realidade relatada pelos governadores na primeira reunião pós-primeiro turno.
Aliás, realizada no Palácio da Alvorada, sob a égide da ilegalidade - para não perder o hábito.

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, puxou o assunto e vários concordaram:
Lula errou ao ser tão agressivo e o PT inteiro, candidata inclusive, ao se comportar como se a eleição estivesse ganha.

Consta que Lula prometeu ser elegante nos modos, que Dilma falará com Deus em público quando necessário e que os petistas serão humildes como discípulos de Francisco, o santo.

Isso com a colaboração de Ciro Gomes, que agora passa a integrar a coordenação de campanha, onde se prometeu também lugar de destaque para o PMDB.

Para quem?
Para o partido que segundo Ciro pode ser definido como um "ajuntamento de assaltantes".
Serão dias inesquecíveis.

Dora Kramer/O Estado de São Paulo

NA HISTÓRIA DESTE PAÍS ELE SERÁ ÚNICO : EBRIOSO,PARLAPATÃO E DISSIMULADO. ASSIM É O CRIADOR ! COMO SERÁ A CRIATURA?

Parece ter sido escrito pelo presidente Lula o Decálogo do Chefe, criação humorística que de há muito corre o mundo.

Reza o seu primeiro mandamento que “o chefe sempre tem razão”.

O segundo determina que, “na improvável hipótese de alguma vez o chefe não ter razão, vale o mandamento anterior”.

Foi rigorosamente isso que Lula quis transmitir nos encontros de segunda e terça-feira com ministros, governadores e parlamentares eleitos, aliados da candidata Dilma Rousseff.

As reuniões, a propósito, ocorreram no Palácio da Alvorada, residência oficial do presidente da República.

Mas, para quem se esmerou em transgredir a legislação antes e durante a campanha, não faz a menor diferença servir-se de novo de um bem público para fins eleitorais.

Tratava-se, na reunião do Alvorada, do que foi considerada uma derrota, apesar da ampla vitória de Dilma nas urnas de domingo: a necessidade de um segundo turno para a decisão final.

E entre os correligionários de Dilma ali presentes alguns dos mais importantes atribuíram ao comportamento agressivo de Lula na fase crítica da disputa a migração de uma parcela dos votos dilmistas para Marina Silva.

Os escândalos na Receita e na Casa Civil e a polêmica do aborto fizeram o resto.

Por sinal, foi a divulgação das violações do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao tucano José Serra e do balcão de negócios instalado no centro do governo o que levou Lula a voltar-se com esbugalhada hostilidade contra os meios de comunicação.

Quando, alertado, trocou a mordida pelo assopro, já no fim da campanha, o estrago estava feito.

A mídia não foi o único alvo da sua ira.

Num comício em Santa Catarina, concitou seus comandados à “extirpação” do DEM, aguçando a inquietação daqueles setores da sociedade para os quais nem os êxitos do governo nem a popularidade estelar do seu condutor podem absolvê-lo pelo surto autoritário de que foi acometido.

Eis que agora, numa das reuniões no Alvorada, ele invocou, para se justificar, um acerto de contas eleitorais.

Fui muito duro em alguns Estados por onde passei, mas precisava ajudar a eleger alguns senadores”, confessou, candidamente.

No íntimo, ele há de saber que a truculência o situou na contramão da sua absoluta prioridade - eleger Dilma.

Em público, porém, se conduz de acordo com o segundo mandamento do Decálogo: quando o chefe erra, prevalece a lei de que o chefe jamais erra.

Lula, como se sabe, não tolera más notícias, para as quais sempre encontrará um causador que não ele. Assim, tão logo se confirmou que a sucessão ia para o segundo turno, entrou na muda e saiu de cena.

Não teve nem sequer a dignidade de aparecer no domingo à noite ao lado da candidata de sua criação - e se manteve em silêncio decerto por mais tempo do que em qualquer outro momento de seu governo.

É do caráter de Lula jamais assumir parcela de responsabilidade pelos erros e fracassos das equipes que comanda - no governo e em campanha eleitoral -, e, por outro lado, assumir com exclusividade os louros por seus êxitos e vitórias.

Por isso, quando recobrou a voz, tratou de avisar que não tinha nada a ver com o que havia acontecido.

Teve sapato alto e clima de já ganhou, no primeiro turno”, criticou, cobrando do PT “mais humildade”.

Logo ele que, no palanque que comandou, foi o único que proclamou a certeza de tal vitória.

Não foi apenas para eleitor ver.

Muitos dos companheiros a quem se dirigia no Alvorada já tinham ouvido uma vez e outra de sua boca que a sucessão era assunto liquidado.

Se, ao fim e ao cabo, der tudo errado, não faltarão culpados - a começar da própria Dilma, que não soube ser simpática com o eleitor.

Se der tudo certo, o mérito, naturalmente, será todo dele.

Falta combinar com o eleitorado.

A tática petista para o segundo turno terá a volta, de um lado, do Lulinha, paz e amor.

De outro, da cantilena de que a ascensão de um tucano ao Planalto abrirá as portas para novas privatizações.

A fórmula funcionou no segundo turno de 2006, mas, à parte qualquer outra consideração, não é fácil impingir ao público a visão de um Serra privatista.

Afinal, o resultado do primeiro turno mostrou que pelo menos 51,9% do eleitorado conserva sua capacidade de discernimento.

Editorial do Estadão

outubro 06, 2010

DENTRO DA "MARGEM DE ERRO" PRODUÇÃO DE PETRÓLEO DA PETROBRÁS FICARÁ ABAIXO DA META DE 2010.


A produção média de petróleo da Petrobras em 2010, no Brasil, deverá ficar 2% ou 3% abaixo da meta de 2,1 milhões de barris/dia, afirmou nesta quarta-feira José Antônio de Figueiredo, gerente executivo de Exploração no Sul-Sudeste.

Segundo o técnico da estatal, a diferença para baixo em relação à meta estipulada para o ano é pouco significativa, considerando a quantidade de variáveis na atividade.

"Quem lida com atividade de petróleo, perfuração de poços, construção de plataformas, condições ambientais, necessidade de fazer paradas programadas... para chegar a 2,1 milhões de barris, ficar com uma margem de erro de 2% a 3%, nós consideramos uma margem de erro muito boa", afirmou a jornalistas durante evento para apresentar o navio-plataforma P-57.

"A gente poderia até falar pra vocês uma coisa (meta) menor e sempre ultrapassar, mas a gente bota uma meta maior pra ter um desafio", acrescentou Figueiredo.

Reuters

PETROBRÁS : AÇÕES CAEM MAIS DE 4%.

As ações da Petrobrás mais uma vez catalisam as ordens de vendas nesta quarta-feira, 6.

Às 16h32, os papéis PN da estatal recuavam 4,56% e os ON cediam 4,57%, liderando a lista de maiores baixas do Ibovespa.

A pressão deve-se à divulgação de novos relatórios de bancos reduzindo a recomendação para papéis da estatal.
Hoje foi a vez do Barclays.

A instituição rebaixou a recomendação para a ADR2 (PBRA) da estatal de "overweight" para "equalweight" e reduziu o preço-alvo para US$ 34,00, ante US$ 39,00 mantido anteriormente.

Para a ADR (PBRN), o banco manteve a recomendação em "equalweight" e reduziu o preço-alvo de US$ 40,00 para US$ 35,00.

O relatório, assinado pelos analistas Paul Y. Cheng, Christina Cheng e Danielle Diamond, explica que a redução dos preços reflete os efeitos da diluição da oferta de ações da estatal.

Pressionada pela queda dos papéis da Petrobrás, a Bovespa opera em queda desde o início da sessão.

A divulgação de indicadores econômicos mistos na Europa e Estados Unidos também deixa investidores mais cautelosos na jornada desta quarta-feira.

A alta de ações da Vale, empresas de varejo e telefonia ajuda a impedir uma baixa maior do principal índice da Bolsa paulista, mas não evitou a perda dos 71 mil pontos.

No mesmo horário, o Ibovespa operava com desvalorização de 1,18%, aos 70.443 pontos, após alcançar a mínima de 70.343 pontos. O giro financeiro era de R$ 7,39 bilhões, com previsão de R$ 9,77 bilhões para o fechamento.

No mesmo momento, o Dow Jones operava em leve alta de 0,04%, enquanto o S&P 500 recuava 0,35%.

Já a Vale, outro peso pesada na Bolsa, opera em alta, beneficiada mais uma vez pela alta das commodities no mercado internacional.

O papel PNA sobe 0,30% e ON avança 0,60%.

Mais cedo os contratos futuros dos metais básicos negociados na London Metal Exchange (LME) ampliaram o rali desta semana, impulsionados pela alta das bolsas e a queda do dólar em relação ao euro.


Beth Moreira, da Agência Estado

CACHAÇA/PREVISÕES/PROFECIAS RESULTAM EM RESSACAS.

Previsões e profecias são o sal da terra e o cerne do humano, do demasiadamente humano, como disse um filósofo muito citado e pouco lido. Pois se não compreendemos o que ocorre conosco neste instante, como entender o futuro?

Aliás, se não sabemos nada das origens: de onde viemos, como foi que viramos gente com consciência do certo e do errado, quem inventou o beijo na boca, o cafezinho, penico, o cometa, o pôr do sol, a música, a mendacidade e o poder como prever o futuro?

Meu tio Amâncio apaixonou-se.

No meio de uma discussão política, quando os votos demoravam a ser apurados, acirrando acusações e atiçando suspeitas, na qual engalfinharamse tio Marcelino e tio Mario, ele apenas repetia: eu só sei que estou apaixonado e hei de sempre ser um eterno a p a i x o n a d o . . .

Mas Amâncio diziam uns tios o Lott é um general sem experiência política...


Nada disso negavam aos brados os outros o homem é o Jânio, que, com sua vassoura, vai ganhar a eleição e varrer os ladrões! Desses berros eu só guardei um Amâncio balbuciando com a fé de um santo milagreiro que estava apaixonado e que seria sempre um eterno apaixonado.

As previsões políticas dos meus tios falharam.

Jânio ganhou a Presidência mas a ela renunciou mergulhando o Brasil numa crise arrepiadora.

Mas a profecia de tio Amâncio continua, pois sem ela o mundo não existiria. A crença numa paixão imortal é o sinal mais claro da generosidade e do orgulho que ajudam a enfrentar a certeza do sofrimento e da culpa.

Essa dupla que constitui o centro da vida humana.

Todas as previsões se destinam ao fracasso. Elas falam mais dos seus pro-fetas do que de si mesmas. A crença no profetizar é um atributo da onipotência atribuída aos deuses, cujas vidas pensando bem são uma nulidade, já que nelas nada acontece.

Onde, querido leitor, você prefere estar?

Num diabólico colóquio amoroso com sua namorada (que você não pode jamais saber se te ama do mesmo modo que você é apaixonado por ela e vice-versa, daí a dureza do combate); ou no Olimpo, onde a eternidade liquidou passado, presente e futuro, e o sangue que anima a vida é se de fato existe verde, como me ensinaram os índios Apinayé, certos de que, após a morte, não há mais excitação, embora se possa pensar em alguma beatitude na forma de uma enorme pasmaceira.

O nada, como dizia Thomas Mann, não me interessa, pois, sem origem ou fim, o vazio que o constitui não tem as dúvidas que levam às profecias, às previsões e aos desejos.

Por isso nada ocorre no nada.

O nada, como acentuou Sartre, é impossível de ser entendido por quem vive na plenitude de uma vida feita de tantas dúvidas e projetos quanto as estrelas do céu.

Não tenho como conceber o eterno, como são capazes de fazer as pessoas politizadas que, tendo respostas para todos os problemas, preveem e profetizam a todo minuto.

Por que profetizamos?

Porque somos seres entregues a nossa própria consciência num mundo para o qual não fomos chamados. Um palco onde somos forçados a tomar parte num drama que estava sendo apresentado muito antes de nossa chegada, com o agradável agravante da certeza de que, um dia, iremos dele partir.

Shakespeare, de quem eu roubo esta lição, falou desse jogo de entradas e saídas que nos coloca em contato com o sucesso e o fracasso, e com a vida e a morte.

É justamente a certeza de que só há este mundo que nos obriga a honrá-lo e a gozá-lo.

(...)

Essa incrível capacidade para ser tudo ou nada obriga a inventar âncoras e freios. E, para os radicais (que sabem tudo), engendra as certezas que eles, como profetas, adoram manipular.

E, no entanto, e apesar das incertezas que fazem parte da vida, basta uma eleição, um populistazinho raivoso com alta popularidade, um novo modismo ou a perspectiva de uma vitória, para desenterrarmos a podridão autoritária ou cairmos numa gigantesca e irrecuperável frustração.

Tudo isso para dizer que a tal vitória no mínimo insofismável de Dilma no primeiro turno, prevista pelos profetas da mídia, não deu certo. Como não daria certo, leitor, se um marqueteiro nos dissesse que amanhã pela manhã tomaríamos café às 10 horas, porque foi assim que fizemos nas últimas quatro décadas.

Basta ler a profecia para contrariá-la. Moral da história: barbas de molho, companheiros e oportunistas. Agora, que o FHC ajuda, ajuda; embora o futuro, como dizia vovó Emerentina, inveterada jogadora de pôquer, a Deus pertença. Que o diga o Reich de mil anos!

Agencia o Globo/Roberto DaMatta O Globo

outubro 04, 2010

A LUTA CONTINUA E O AUTORITARISMO PERMANECE NO HORIZONTE.


Escrevo este artigo antes da abertura das urnas. Mas o quadro nacional, independentemente do resultado das eleições, desperta graves preocupações.

O presidente Lula começa a descer a rampa do poder.
Em janeiro, agasalhado por uma popularidade sem precedentes, cravará seu nome na história.

A caneta, no entanto, mudará de dono.

O Brasil melhorou.
Mudamos de patamar.
Tal desempenho, apropriado sem pudores pelo governo petista, decorreu de um cenário internacional muito favorável ao Brasil.

Mas, internamente, é, em parte, uma consequência das políticas sociais adotadas pelo governo.

O Bolsa Família foi um instrumento de promoção social.
Mas é preciso que essa ferramenta de inclusão seja a porta de entrada da cidadania.
E isso não aconteceu.

Os programas sociais renderam milhões de votos, mas não fizeram cidadãos.
Só a educação é capaz de transformar eleitores de cabresto em pessoas livres e conscientes.

A última fase do governo Lula, marcada por constantes episódios de corrupção, cumplicidade com oligarquias nefastas e manifestações de desprezo pelas liberdades públicas, vai ganhando contornos de um indesejável populismo autoritário.

O lulismo que se avizinha lembra muito o peronismo que empurrou a Argentina para o lusco-fusco do desenvolvimento.

Recente manifesto de juristas, intelectuais e artistas, divulgado em São Paulo, no Largo de São Francisco, acendeu a luz amarela no cenário da nossa democracia.

O país vive um caudilhismo que se impõe assustadoramente”, declarou José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de Lula. Na certeza da impunidade, (Lula) já não se preocupa mais nem mesmo em valorizar a honestidade”, disse Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT.

É o grito de lideranças insuspeitas.
Gente que lutou contra a ditadura denuncia o presidente da República como demolidor das instituições.

Na verdade, cabe à imprensa um papel fundamental na salvaguarda da democracia.

O presidente da República, seu partido e sua candidata, independentemente das declarações de ocasião em favor da liberdade de imprensa, resistem ao contraditório e manifestam desagrado com o exercício normal das liberdades públicas.

Não é de hoje a fina sintonia do petismo com governos autoritários.
O Foro de São Paulo, entidade fundada por Lula e Fidel Castro, entre outros, e cujas atas podem ser acessadas na internet, mostra que não há acasos.

Assiste-se, de fato, a um processo articulado de socialização do continente de matriz autoritária.
E o presidente da República é um dos líderes, talvez o mais expressivo, dessa progressiva estratégia de estrangulamento das liberdades públicas.

A fórmula Lulinha paz e amor acabou.

Agora, com o Estado aparelhado, o Congresso dominado (a aliança governista terá ampla maioria no Legislativo) e a imprensa fustigada, o lulismo mostra sua verdadeira cara: o rosto do caudilhismo.

Tentativas de controle dos meios de comunicação, flagrantemente inconstitucionais, serão repudiadas pela imprensa séria e ética, pelos formadores de opinião (que não vendem suas consciências em balcões de negócios) e pela sociedade.

CARLOS ALBERTO DI FRANCO, diretor do Master em Jornalismo (www.masteremjornalismo.org.br), professor de Ética e doutor em Comunicação pela Universidade de Navarra, é diretor da Di Franco — Consultoria em Estratégia de Mídia (www.consultoradifranco.com).

setembro 30, 2010

A RECEITA ANTECIPADA DA VENDA DE PETRÓLEO.


A divulgação das necessidades de financiamento do setor público mostra que, sem a receita antecipada da venda de petróleo pelo governo federal, se registraria até o final do ano a pior situação das contas públicas.

De fato, nos oito primeiros meses do ano o superávit primário ficou em R$ 47,787 bilhões, equivalente a 2,07% do PIB.
No mesmo período de 2008 esse superávit foi de 5,22% do PIB, e em 2009 foi de 2,14%.

Admitindo um crescimento de 7,5% do PIB neste ano, a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) prevê que o superávit primário deveria ser de 2,15%, com um valor de algo muito próximo de R$ 76 bilhões.

Para atingir esse resultado até o final do ano, seria necessário apresentar superávits mensais de R$ 7,2 bilhões, o que não se conseguiu até agora.

Com o aumento dos gastos em fim de ano, o superávit costuma diminuir: em 2008, de R$ 10 bilhões, em agosto, caiu para um déficit de R$ 20 bilhões, em dezembro; em 2009 o superávit de R$ 5 bilhões caiu para R$ 275 milhões.

Não se pode esperar, agora, uma grande modificação, mesmo admitindo que, passado o período das bondades eleitorais, as despesas sigam um rumo declinante.

Porém, como anunciou anteontem o secretário do Tesouro, o governo já resolvera a questão tendo preparado seu golpe fiscal há tempos, quando apresentou o esquema de capitalização da Petrobrás.

Na realidade, vai exibir o maior superávit primário nas contas públicas ao recorrer a um pagamento antecipado das receitas provenientes das reservas do petróleo, ainda no fundo dos poços, que vendeu à Petrobrás...

É um resultado que pode satisfazer os propósitos do presidente Lula, mas poderá custar caro à Nação.

De um lado, reduz as receitas da empresa estatal, que não poderá transferir dividendos tão generosos como agora, e, de outro, dará a impressão de que não é preciso se preocupar com o superávit primário.

Isso quando os juros pagos em agosto atingiram o maior valor desde que existe a série das necessidades do setor público.

Sendo o governo federal responsável por 80,2% desses juros, terá de aumentar sua dívida - interna ou externa -, isto é, pagará mais juros, que estão contribuindo para o aumento dela, porque o superávit primário não os cobre.

O crescimento da dívida será seguido por um aumento dos juros, num período em que a desvalorização do real irá contribuir para uma elevação de preços, assim como para um custo mais alto, em reais, dos empréstimos externos...

O Estado de S. Paulo

SUPERAVIT PRIMÁRIO CAI PELA 4ª VEZ.

Desempenho de 2,01% do PIB está abaixo inclusive dos 2,05% do PIB economizados em 2009, ano marcado pelos efeitos da crise global

Pelo quarto mês seguido, a economia para o pagamento de juros do setor público acumulada em 12 meses caiu, evidenciando o claro afrouxamento da política fiscal do governo neste ano.

Dados divulgados ontem pelo Banco Central mostram que a União, Estados, Municípios e empresas estatais juntas fizeram um superávit primário de 2,01% do Produto Interno Bruto (PIB) nos 12 meses encerrados em agosto.

Em abril, ponto mais alto antes que o saldo acumulado começasse a cair, o resultado em 12 meses era de 2,14% do PIB.

O desempenho está abaixo inclusive dos 2,05% do PIB economizados pelo setor público em 2009, ano marcado pelas políticas de enfrentamento da crise econômica.

Esse desempenho das contas do setor público ocorre a despeito de o governo federal já ter adotado algumas manobras para inflar suas receitas, como a antecipação de dividendos da Eletrobrás.

Só essa medida rendeu R$ 1,4 bilhão aos cofres do governo central (Tesouro Nacional, Previdência e Banco Central), cujo superávit primário em 12 meses está em 1,31% do PIB.

O comportamento da despesa do governo federal, que tem a responsabilidade maior pelo cumprimento da meta de superávit primário de 3,3% do PIB para o setor público, é a chave para entender o baixo esforço fiscal neste ano.

O governo tem mantido o pé no acelerador do gasto em 2010, com destaque para os investimentos, mas também nas despesas de custeio, como salário do funcionalismo público. Nos oito primeiros meses do ano, enquanto as receitas subiram 16,2%, as despesas aumentaram 17,2%.

(...)

Petrobrás.
De qualquer forma, o quadro em 12 meses deixa claro que o governo só vai conseguir cumprir sua meta fiscal de 3,3% de superávit para o setor público por conta da engenharia financeira envolvendo a capitalização da Petrobrás.

Essa operação deve engordar o caixa do governo federal em cerca de R$ 30 bilhões em setembro, elevando o superávit primário em 12 meses em quase 1 ponto porcentual do PIB.

Ou seja, o resultado fiscal que hoje está em 2% saltaria para em torno de 3% do PIB nos 12 meses encerrados em setembro.

Contribuições.
Considerando somente os números do mês de agosto divulgados ontem pelo Banco Central, o setor público registrou superávit primário de R$ 5,22 bilhões.
O governo central economizou R$ 3,46 bilhões, enquanto os governos regionais (estados e municípios) pouparam R$ 1,3 bilhão e o conjunto das empresas estatais, R$ 457 milhões.

"Foi um resultado fiscal bom. O importante é que ele teve contribuição de quase todas as esferas de governo", disse Altamir.

(...)

Para o fechamento do ano, o BC trabalha com a relação dívida/PIB de 39,6%, taxa que deve ser revista hoje, com a divulgação do relatório de inflação.

Fabio Graner, Fernando Nakagawa O Estado de S. Paulo

DESPESA COM JUROS VAI A R$15,69BI


Crescimento do valor nominal da dívida pública, inflação e maior parcela de títulos prefixados explicam alta, afirma BC

As despesas com juros do setor público em agosto atingiram a marca de R$ 15,69 bilhões, recorde para o mês desde o início da série divulgada pelo Banco Central, em 2001.
Também foram recordes os valores desembolsados aos credores da União, Estados, Municípios e empresas estatais no acumulado do ano (R$ 123,79 bilhões), e nos 12 meses encerrados em agosto (R$ 184,63 bilhões).


O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, explicou que o pagamento de juros aumentou por uma série de fatores. Um deles é o próprio crescimento do valor nominal da dívida pública.

Como o conjunto dos governos no Brasil não consegue fazer economia fiscal suficiente para pagar toda sua despesa com juros, o setor público tem que fazer dívida para honrar seus compromissos.

Com dívida crescente, a tendência do gasto com juros é crescente, mesmo com o País operando com níveis historicamente mais baixos para a taxa básica de juros (Selic).

A inflação, que remunera parte relevante dos títulos públicos, é outro fator. Com índices de preços mais salgados, o custo para o governo em seus títulos atrelados à inflação aumenta.

Conta de juros.
Também pesa neste ano na conta de juros o fim da rentabilidade gerada pelos contratos de swap cambial (operações equivalentes a venda de dólar no mercado futuro) em 2009.


Com a valorização do real, essas operações que geravam receitas de juros para o governo não estão repetindo o desempenho em 2010.
De janeiro a agosto de 2009, os contratos de swap geraram receita de R$ 3,2 bilhões aos cofres do Tesouro Nacional.


Outro fator que sustenta uma alta carga de juros é a maior participação de títulos prefixados (cuja rentabilidade é definida na venda do título) no estoque da dívida. Esses papéis, como têm taxa fixa, fazem com que o volume de despesas com juros se mantenha em determinado patamar por mais tempo mesmo que a taxa Selic caia, como ocorreu no ano passado.

Recordes.
O setor público também teve recordes nos números do resultado fiscal nominal (receitas menos despesas incluindo juros).


O déficit nominal em agosto somou R$ 10,48 bilhões, o pior para o mês na série.
Em oito meses, o rombo soma R$ 76,01 bilhões e no acumulado em 12 meses, R$ 115,80 bilhões.
Nos dois casos, novos recordes históricos.


Mesmo porcentual
A dívida líquida do setor público fechou o mês de agosto correspondendo a 41,4% do PIB, segundo dados divulgados pelo Banco Central.
O porcentual é idêntico ao verificado em julho
.

Fabio Graner, Fernando Nakagawa O Estado de S. Paulo

DO SALTO ALTO

Em 2006 o presidente Luiz Inácio da Silva errou ao faltar ao debate da TV Globo. João Santana, o conselheiro de marketing presidencial, logo depois da reeleição atribuiu a isso - mais que ao escândalo dos aloprados - a insuficiência de votos para a vitória no primeiro turno.

Agora Lula errou ao ter pesado a mão além dos limites do aceitável até para personalidades que tradicionalmente estiveram ao lado dele e que estão acima de qualquer querela partidária. D. Paulo Evaristo Arns, por exemplo, o primeiro signatário do manifesto em defesa da democracia, simbolicamente lido no Largo de São Francisco (SP) por Hélio Bicudo.

Lula achou que era preciso uma reação forte para tentar neutralizar os possíveis efeitos das notícias sobre as negociatas de Erenice Guerra e companhia a partir da Casa Civil.

Acabou exagerando na visão do público que se sensibiliza com roubalheiras e dando a ele, o público, a impressão de que ele, Lula, estava se achando o dono do mundo e da vontade alheia.

Comprou uma briga inglória e deu margem à manifestação de contrariedade de muita gente que estava politicamente inerte. Por vários motivos, entre eles ausência de entusiasmo em relação à candidatura de José Serra.

O resultado apareceu nos índices da candidata Dilma Rousseff. Haveria outra forma de o presidente administrar o problema que surgiu a 15 dias da eleição?

Seria muito arriscado fazer como de outras vezes e ignorar a história cabeludíssima. Mas era preciso, ao mesmo tempo, construir alguma justificativa para se contrapor aos fatos tão eloquentes.

O presidente convocou a culpada de sempre, a imprensa, e caprichou no contra-ataque. Esperto, não deu nomes a esses nem àqueles. Protestou genericamente contra entidades conspiratórias (ao molde das "forças ocultas", de Jânio Quadros) e achou que assim apagaria as evidências.

Uma pessoa menos autoconfiante, ou em crise menos aguda de exacerbação da autoconfiança, teria tomado as providências, demissões, pedido de investigações, condenação dos atos e daria por entregues os "lamentáveis fatos à polícia".

Não teria achado que pode tudo contra todos e se arriscado a, de novo, produzir um indesejado segundo turno. Que, aliás, se acontecer, fará o PT encerrar a primeira etapa da eleição na condição de vencedor, mas com jeito de derrotado.

Parado no ar. Os argumentos dos ministros do Supremo fazem sentido. A exigência de dois documentos para votar restringe mesmo o acesso às urnas. Mas, como o Congresso aprova algo assim, como o PT apoia (depois alega inconstitucionalidade) e Lula sanciona?

Falta de atenção institucional. No caso do presidente, falta de Casa Civil profissional e competente.

Uma ou outra. Não dá para o PSDB ao mesmo tempo defender a liberdade de expressão e pedir censura para pesquisas de intenção de votos, como fez o tucano Beto Richa no Paraná com o Datafolha.

Há "democratas" - no sentido adjetivo, não de nome próprio do partido - que justificam o pedido de interdição de pesquisas dizendo que elas muitas vezes são usadas indevidamente e que influenciam o eleitor.

Pois é, a liberdade é assim, irrestrita: por isso também dá margem a deformações, causa desconforto e contraria.

Para resolução de insatisfações como essa da divulgação de pesquisas às vésperas das eleições e até mesmo da dupla jornada de alguns institutos que trabalham para campanhas, a solução é via Congresso.

Quem tiver força política e argumentos convincentes que tente aprovar alguma regulação legal.

Ocorre que políticos não fazem isso porque nem sempre é uma questão de princípio, mas de circunstância. Têm receio de que amanhã ou depois possam ser favorecidos por aquilo que criticam hoje.

Só não dá para querer resolver os problemas na base da censura. É mais fácil, mas custa caríssimo.

Dora Kramer /O Estado de S. Paulo,