"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

março 09, 2015

PANELA NELA

Uma primeira amostra da irritação dos brasileiros, a presidente ganhou ontem, em tempo real. As próximas virão nos próximos dias, bem mais visíveis, nas ruas do país
Foram 15 longos minutos. Seria tempo bastante para Dilma Rousseff apresentar à nação uma narrativa verdadeira e honesta sobre as dificuldades vivenciadas pelos brasileiros em seu dia a dia. Mas não foi nada disso o que se viu. Como a presidente enveredou pela ficção, a resposta veio rápida: panela nela!

Em seu pronunciamento neste domingo, novamente a presidente da República buscou bodes expiatórios para uma crise cuja única culpada é ela mesma. Novamente tentou socializar as responsabilidades. Novamente ludibriou a boa fé dos brasileiros que anseiam por um líder que indique um bom caminho para o país.

Numa crise tão grave quanto a atual - que de econômica passou a política e caminha agora para tornar-se institucional - Dilma não pode ficar desperdiçando oportunidades de aglutinar a nação em torno de uma solução razoável para o país. Não há mais tempo a perder, mas ela insiste em jogá-lo fora.

O povo não tem mais paciência para engolir as empulhações do PT. A culpa pela carestia não está no exterior. A responsabilidade pelo arrocho recessivo não é senão da presidente e de sua equipe econômica. Os retrocessos e fracassos dos últimos anos são resultado direto de escolhas mal feitas de Dilma.

O maior vilão da inflação atual não tem nada a ver com a seca. São as tarifas públicas, que o governo da presidente reajusta sem dó desde que a eleição acabou. Só a energia já subiu 32% neste ano e deve subir mais. Já a gasolina ficou 8,3% mais cara em fevereiro.

Dizer que é a "segunda etapa" da crise internacional que empurra o Brasil para a recessão é escarnecer da inteligência dos brasileiros. A maior parte do mundo - inclusive as economias mais afetadas pela crise - já voltou a crescer, em alguns casos com intensidade, como os EUA.

O apelo da presidente em favor de "união", com "sacrifícios temporários" para "dividir o esforço entre todos" equivale a um abraço de afogados. Como quer apoio se nunca, jamais, admite que é responsável por boa parte dos problemas atuais? Quem não reconhece onde estão os erros não é capaz de corrigi-los.

Novamente, o discurso oficial petista promete um futuro venturoso, que está logo ali, "no final do segundo semestre", mas nunca chega. Tem sido assim desde o início do governo da presidente. Ela sempre acenou com maior crescimento, mais desenvolvimento. Mas jamais entregou. Como ter mais "paciência e compreensão", como ele pede?

Dilma Rousseff sabe da irritação dos brasileiros com ela - tanto que registrou isso em seu discurso de ontem. Mas talvez esteja longe de perceber até onde esta indignação alcança. Uma primeira amostra a presidente ganhou ontem, em tempo real. As próximas virão nos próximos dias, bem mais visíveis, nas ruas do país.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

O Caçador de Mitos : Quatro afirmações do pronunciamento DA DESAVERGONHADA que o próprio governo desmente

Dilma disse em seu pronunciamento na TV que “as conversas em casa e no trabalho precisam ser completadas por dados que nem sempre estão ao alcance de todas e de todos”. É verdade – o problema é que dados e estatísticas do próprio governo derrubam boa parte das afirmações da presidente. Veja aqui quatro exemplos: 

1) “Realizamos elevadas reduções de impostos para estimular a economia e garantir empregos.”
Dilma anunciou desonerações e redução temporária de impostos em seu primeiro mandato. Mas a arrecadação total aumentou durante seu primeiro mandato. Segundo a própria Receita Federal, a carga tributária de 2014 o Brasil foi a maior da história – 35,95% do PIB. O recorde anterior era a de 2012 (35,86% do PIB).

2) “Ampliamos os investimentos públicos para dinamizar setores econômicos estratégicos.”
Segundo o próprio Ministério da Fazenda, a taxa de investimento público entre 2010 e 2013 ficou estável em 2,7% do PIB (somando investimentos do governo federal e das estatais).

3) “Queremos e sabemos como fazer isso, distribuindo os esforços de maneira justa e suportável para todos. Como sempre, protegendo de forma especial as classes trabalhadoras, as classes médias e os setores mais vulneráveis.”
Dilma vetou a correção de 6,5% da tabela do Imposto de Renda e propôs uma correção menor, de 4,5%, que não cobre a inflação de 2014. Desde 1996, a defasagem da correção da tabela do IR já é de 64,33%. Isso significa que, a cada ano, o Imposto de Renda avança sobre classes trabalhadoras mais pobres (e vulneráveis).

4) “Nosso povo está protegido naquilo que é mais importante: sua capacidade de produzir, ganhar sua renda e de proteger sua família.”
Segundo o IBGE, o crescimento das despesas de consumo das famílias é o menor desde 2003. E a produtividade do trabalhador brasileiro – sua capacidade de produzir num determinado período – está travada há décadas. Entre 2002 e 2012, a produtividade do trabalhador brasileiro cresceu em média 0,67% ao ano, enquanto a da Coreia do Sul subiu 6,7% ao ano e a dos Estados Unidos, 4,4%.

Leandro Narloch/VEJA
O Caçador de Mitos
Quatro afirmações do pronunciamento de Dilma que o próprio governo desmente

março 07, 2015

Ex-diretor da Petrobrás diz que Renan ficava com parte da propina da Transpetro


O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa afirmou em sua delação premiada que sabia que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), recebia um porcentual de contratos da Transpetro - subsidiária da estatal que foi comandada por dez anos por um indicado pessoal do senador, Sérgio Machado.

Costa afirmou que “tem conhecimento de que um porcentual dos valores envolvidos nos contratos da Transpetro são canalizados para o senador Renan Calheiros, com quem José Sérgio de Oliveira Machado se reúne periodicamente em Brasília.”

O delator não apontou “qual seria esse porcentual”, mas apontou ter recebido das mãos do ex-presidente da Transpetro R$ 500 mil de propina por conta da “contratação de navios”. O dinheiro foi entregue “em espécie e diretamente” por Máchado no apartamento dele, no Rio. Esse pagamento, que ele já havia citado em audiência de uma das ações penais da Lava Jato, ocorreu entre 2007 ou 2008.

Em outro episódio, Costa afirma que o deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE), emissário de Renan, levou até ele uma reclamação do Sindicato dos Práticos “acerca do reajuste da remuneração da praticagem”. O emissário dizia falar em nome do senador.

“Esse assunto foi encaminhado para a área técnica da Petrobrás, sendo feita a avaliação respectiva e após uma longa negociação o pleito acabou sendo atendido”, explicou o ex-diretor, em sua delação.

“Foi dito por Aníbal que em sendo exitosa a negociação, ou seja, atendido o pleito dos práticos seria feito um pagamento”, sendo que “parte dos recursos destinados ao senador Renan”.

A parte de Paulo Roberto Costa seria algo em torno de R$ 800 mil.
COM A PALAVRA, RENAN CALHEIROS.

O presidente do Senado divulgou nota no site da Casa Legislativa após a divulgação dos políticos que serão investigados. Veja o que ele disse:

“Nas democracias, todos – especialmente os homens públicos – estão sujeitos a questionamentos, justos ou injustos. A diferença está nas respostas. Existem os que têm o que dizer e aqueles que não. Quanto a mim darei todas as explicações à luz do dia e prestarei as informações que a Justiça desejar.

Minhas relações junto ao poder público nunca ultrapassaram os limites institucionais. Jamais mandei, credenciei ou autorizei o deputado Aníbal Gomes, ou qualquer outro, a falar em meu nome, em qualquer lugar. O próprio deputado já negou tal imputação em duas oportunidades.

Como maior interessado no inquérito, apesar do atropelamento do Ministério Público, que poderia ter evitado equívocos me ouvindo preliminarmente, considero que este é único instrumento capaz de comprovar o que venho afirmando desde setembro do ano passado.

Renan Calheiros, presidente do Senado Federal”

Por Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso
BlogsFausto Macedo

PARA REGISTRO ! O 15 de Março: as cidades, o local e a hora dos protestos.

LISTA DAS CIDADES EM QUE AS MANIFESTAÇÕES ESTÃO CONFIRMADAS

Aracaju/SE – 9h30 – Arcos da Orla

Araraquara/SP – 15h00 – Parque Infantil até a Prefeitura

Belo Horizonte/MG – 9h30 – Praça da Liberdade

Botucatu/SP – 15h00 – Largo da Catedral Metropolitana de Botucatu

Brasília/DF – 9h30 – Museu da República (rumo ao Congresso Nacional)

Curitiba/PR – 14h00 – Praça Santos Andrade

Curvelo/MG – 10h00 – Praça Central do Brasil

Florianópolia/SC – 16h00 – TICEN (Av. Paulo Fontes, 701)

Fortaleza/CE – 10h00 – Praça Portugal

Goiânia/GO – 14h00 – Praça Tamandaré

João Pessoa/PB – 15h00 – Busto de Tamandaré

Juiz de Fora/MG – 10h00 – Parque Halfeld

Jundiaí/SP – 9h30 – Av. 9 de Julho

Porto Alegre/RS – 14h00 – Parcão

Presidente Prudente/SP – 9h00 – Praça 9 de Julho (em frente ao Chick Center)

Recife/PE – 9h00 – Av. Boa Viagem (em frente a Padaria Boa Viagem)

Rio de Janeiro/RJ – 9h30 – Copacabana, posto 5

Salvador/BA – 16h00 – Farol da Barra

São Carlos/SP – 10h00 – Praça do Mercado (Av. Com. Alfredo Maffei, 2.542)

São Paulo/SP – 14h00 – Masp (Av. Paulista, 1.578)

Sete Lagoas/MG – 10h00 – Lagoa Paulino

Teresina/PI – 16h00 – Av. Marechal Castelo Branco (em frente a Alepi)

Uberaba/MG – 16h00 – Calçadão de Uberaba

Uberlândia/MG – 9h30 – Praça Tubal Vilela


LISTA DAS CIDADES QUE AGUARDAM CONFIRMAÇÃO

Joinville/SC – a confirmar

São Luís MA – 15h00 – Av. Litorânea


LISTA DAS CIDADES QUE NOS ENVIARAM E-MAIL AO MOVIMENTO, MAS QUE NÃO CONTAM COM REPRESENTANTES DO “VEM PRA RUA”

Anápolis/GO – 14h – Praça Dom Emanuel

Arapiraca/AL - Praça da Prefeitura até o Parque Ceci Cunha

Ariquemes/RO – 15h – Praça da Vitória (Av. Jamari)

Artur Nogueira/SP – 16h – Praça do Coreto – Av. Fernando Arena, esquina com a Rua Duque de Caxias.

Barreirinhas/MA – 15h – Praça do Trabalhador

Belém/PA – 9H – Praça da República

Bento Gonçalves/RS – 16h – Na frente da Prefeitura

Birigui/SP – 9H – Praça Central da cidade: Doutor Gama

Bragança Paulista/SP – 16h – Praça Raul Leme

Cachoeira do Sul/RS – 16h – Praça da Matriz

Caldas Novas/GO – 14h – Praça Central

Capinópolis/MG – 9h30 – UTC-03

Capivari/SP – 16h – Praça Central

Cascavel/PR – 15h – Em frente à Igreja Matriz

Cianorte/PR – 15h – Prefeitura de Cianorte

Cidade de Goiás/GO – 14h – Praça dos Eventos

Criciúma/SC – 9h – Parque das Nações

Cáceres/MT – 15h – Serraria Cáceres até a Praça Barão do Rio Branco

Dois Vizinhos/PR – 14h – Praça da Igreja Santo Antonio

Dourados/MS – 14h – Praça Antônio João

Fernandópolis/SP – 9h – Praça da Matriz

Fortaleza/CE – 10h – Praça Portugal

Goiânia/GO – 14h – Praça dos Bandeirantes

Governador Valadares/MG – 16h – Praça dos Pioneiros

Guarapuava/PR – 14h – Praça Cleve

Itatiba/SP – 14h – Praça das Bandeiras

Jataí/GO – 14h – Câmara dos Vereadores

Jundiaí/SP – 9h30 – Av. 9 de Julho

Lages/SC – 10h – Estatua Correia Pinto

Limeira/SP – 9h30 – Praça Toledo Barros (Rua Doutor Trajano Barros de Camargo, 13480 )

Linhares/ES – 16h – Atrás da TV Norte

Londrina/PR – 13h – Zerão

Londrina/PR – 15H – Em frente ao colégio Vicente Rijo (Av. Jk com Av. Higienópolis)

Macaé/RJ – 16h – Paróquia Nossa Senhora da Glória, Cavaleiros

Manaus/AM – 14h – POSTO 300 (Av. Djama Batista)

Manaus/AM – 9h30 – Av. Eduardo Ribeiro, em Frente à Feirinha

Monitividiu/GO – 14h – Praça das Mães

Montes Claros/MG - Em frente ao Shoping Center

Natal/RN – 15h – Avenida Roberto Freire

Paraisópolis/MG – 14h – Praça do Centro

Pelotas/RS - Largo do Mercado Público

Perdões/MG - Praça do Berimbau

Petrópolis/RJ – 16h – Praça D. Pedro II , Centro

Piracanjuba/GO – 14h – Praça do Relógio

Porto Velho/RO - Praça das 3 Caixas d’Água, Centro

Presidente Prudente/SP – 9h – Parque do Povo (em frente ao Colégio Poliedro)

Ribeirão Preto/SP – 9h30 – Teatro Pedro II (Rua Álvares Cabral, 370)

Rio Branco/AC – 14h – Palácio do Governo

Rio Verde/GO – 14h – Praça Matriz

Rondonópolis/MT – 16h – Em frente ao Rondon Plaza Shopping

Santo Antônio de Jesus/BA – 9h30 – Praça Dr. Renato Machado, Centro

Sertãozinho/SP – 9h – Praça 21 de Abril

São José dos Campos/SP – 14h – Praça Afonso Pena

São José dos Campos/SP – 15h – Praça Afonso Pena

São João Del Rei/MG – 16h30 – Praça da Estação Ferroviária – Centro

Torres/RS – 9h30 – Praça XV de Novembro, Centro

Ubá/MG – 14h – Praça São Januário

Uruguaiana/RS – 14h – Praça do Barão do Rio Branco

Vitória/ES – 15h – Em frente à UFES

Vitória/ES – 16h – Praça do Papa

Vitória/ES – 16h as 20h – Sede da Petrobras

Volta Redonda/RJ – 9h – Praça Brasil

Íntegra :

março 06, 2015

MENSALEIROS DO PT: TODOS SOLTOS


Genoino se livrou da pena e todos os demais petistas da turma da Papuda já estão em casa. O mensalão acabou em pizza e, perto dos bilhões do petrolão, virou piada

Bem tinha razão Delúbio Soares, quando, anos antes de ser condenado pela participação no mensalão, vaticinou: "Isso tudo vai acabar virando piada de salão". Os mensaleiros, que começaram a se livrar da prisão, devem mesmo estar rindo à toa.

José Genoino tornou-se o primeiro deles a se ver livre da Justiça. O ex-presidente do PT cumpriu apenas um ano, um mês e dez dias de cadeia e anteontem foi contemplado, por unanimidade, com extinção da pena pelo STF. Livrou-se de gramar mais 40 meses de cana.

O ex-presidente do PT foi beneficiado por induto de Natal concedido milimetricamente sob medida para ele por Dilma Rousseff no ano passado. Pode, agora, fazer o que bem entender, exceto candidatar-se a algum cargo público. Condenado pelo STF por corrupção ativa, Genoino deveria cumprir quatro anos e oito meses de reclusão, mas não passou mais que algumas semanas na Papuda.

Assim como ele, todos os demais condenados do núcleo político da turma de mensaleiros já estão em casa, incluindo José Dirceu e Delúbio. O último a passar a cumprir prisão domiciliar foi João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara, beneficiado na semana passada.

No fim do ano, se as regras do indulto forem mantidas, todos poderão ganhar a mesma liberdade de Genoino. Certamente serão saudados pelos amigos petistas - cujas vaquinhas pagaram suas multas à Justiça - como heróis, como "guerreiros do povo brasileiro".

Não eram poucos os brasileiros que sempre apostaram que o mensalão iria terminar em pizza. A suavidade com que a Justiça se abate sobre os mensaleiros dá razão ao ceticismo dos cidadãos quanto à aplicação da célebre máxima de que "quem deve tem que pagar". Diante do mal que impingiu ao país, a turma da Papuda saiu no lucro.

A liberdade conquistada pelos mensaleiros chega na mesma hora em que o país se convence de que, sim, Delúbio tinha razão: perto do petrolão, o mensalão é mesmo fichinha, uma piada sem graça. Toda a soma de dinheiro movimentada para sustentar a base de apoio ao governo Lula no Congresso no petrolão fez a festa de apenas um dos envolvidos.

O que há de mais relevante é que ambos, mensalão e petrolão, constituem atos de um mesmo enredo: o do assalto do PT ao Estado. Um poderoso esquema que começou assim que Lula pisou no Palácio do Planalto e chegou até os dias atuais, sempre ganhando maiores dimensões. Milhões viraram bilhões.

Durante os debates na TV, a candidata Dilma costumava recitar um jogral ensaiado em que listava acusações de corrupção no governo Fernando Henrique e afirmava que os supostos envolvidos estavam "todos soltos". A partir de agora ela pode - desta feita com carradas de razão - incluir os mensaleiros no seu teatrinho.


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março 05, 2015

DE VOLTA AO TOPO DO MUNDO

Alta de juros no Brasil tornou-se tão rotineira que nem ganha mais destaque no noticiário. Neste ano, 7% do PIB devem ser torrados com juros; equivale a 12 anos de Bolsa Família

Até pouco tempo atrás, a inflação não era considerada problema e, segundo o discurso oficial repetido pela presidente Dilma Rousseff, estava "sob controle". Desde que a eleição acabou, ficou claro que não era nada disso e o governo foi forçado a ministrar o remédio amargo dos juros altos para tentar aplacar os preços em disparada.

Ontem, o Banco Central determinou a quarta alta seguida na taxa de juros para conter a carestia. Desde o fim de outubro, a Selic passou de 11% para 12,75%. Está no mais alto patamar desde o de janeiro de 2009, época em que o mundo inteiro estava mergulhado na mais brava crise econômica em décadas.

Naquela ocasião, a taxa brasileira vinha caindo; agora sobe. O céu é o limite. A previsão, baseada no teor do comunicado emitido ontem pelo BC, é de pelo menos mais uma alta na próxima reunião do Copom, que acontece nos dias 28 e 29 de abril. A dose deve variar de 0,25 a 0,5 ponto percentual.

O país voltou ao topo do ranking de juros reais do mundo, posição que durante três meses perdera para a Rússia. Segundo a consultoria Moneyou, a taxa brasileira é agora de 5,28% acima da inflação, uma jabuticaba em meio ao resto do planeta, onde, na maioria dos casos, os juros estão no terreno negativo.

Neste ano, de 91 economias em todo o mundo só 10 subiram a taxa de juros. O Brasil está na má companhia de Namíbia, Trinidad e Tobago, Geórgia, Quirguistão, Mongólia, Armênia, Bielorrússia, Moldávia e Ucrânia.

Economias que, em tese, concorrem diretamente com o Brasil fazem o oposto do que estamos fazendo. Ontem, enquanto o Banco Central do PT aumentava a taxa básica brasileira, os da China e da Índia cortavam as suas.

Com mais esta alta, o Brasil caminha para torrar cerca de 7% do seu PIB com pagamento de juros. No ano passado, foram R$ 311,4 bilhões. Esta montanha de dinheiro equivale a 12 anos de Bolsa Família. A dívida pública, que cresceu dez pontos do PIB nos últimos quatro anos, vai ficar ainda mais cara.

No entanto, esta enormidade não tem surtido efeito para cumprir sua principal missão: aplacar a inflação. A despeito da forte alta dos juros, as projeções para os índices só aumentam e agora já se aproximam de 8% para este ano, quase o dobro da meta.

Juros altos são sintoma mais evidente de economia adoecida. Tendem a frear (ainda mais) a atividade produtiva e a esfriar (ainda mais) o mercado de trabalho. O remédio amargo busca, até agora sem sucesso, aplacar a carestia, que é maior sobre as famílias mais pobres, dado o tarifaço e a disparada dos preços dos alimentos. Não há nada sob controle.

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SACO ROXO? STF recebe novas provas contra Collor no petrolão

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O senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), apontado pelo doleiro Alberto Youssef como beneficiário de propina no valor de 3 milhões de reais, é um dos políticos contra os quais o procurador-geral da República Rodrigo Janot pediu investigações no âmbito da Operação Lava Jato. Desde julho do ano passado o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia registrado inquérito criminal contra o parlamentar, mas nesta quarta-feira as mais recentes evidências contra o senador, reunidas pela força-tarefa do Ministério Público, foram anexadas ao processo. O conteúdo completo das suspeitas contra Collor ainda permanece em sigilo.

Em acordo de delação premiada, o doleiro Alberto Youssef apontou Collor como beneficiário de propina em uma operação da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras. A distribuição do dinheiro sujo contava com a participação do ex-ministro de Collor Pedro Paulo Leoni Ramos, dono da GPI Investimentos e amigo de longa data do senador. Na triangulação do suborno, foi fechado um contrato com uma rede de postos de combustível de São Paulo e que previa a troca de bandeira da rede, para que o grupo se tornasse um revendedor da BR Distribuidora. O negócio totalizou 300 milhões de reais, e a cota de propina, equivalente a 1% do contrato, foi repassada a Leoni Ramos, que encaminhava finalmente a Collor.

Conforme revelou VEJA, há outras provas do envolvimento de Fernando Collor de Mello no esquema de fraude e corrupção na Petrobras. Os investigadores encontraram, por exemplo, um comprovante de depósito de 8.000 reais feito pelo doleiro Alberto Youssef na conta pessoal do senador do PTB e rastrearam o repasse de 17.000 reais para uma empresa dele em Alagoas. Na sequência, surgiram mais sete depósitos diretos para o parlamentar. O ex-ministro Pedro Paulo Leoni Ramos, que atuou no governo Collor, é apontado como um dos sócios de Youssef no laboratório fantasma Labogen, por meio do qual o doleiro atuava em fraudes no Ministério da Saúde. Em entrevista a VEJA, a contadora de Youssef Meire Poza afirmou que os depósitos foram feitos a pedido de Leoni Ramos.

Veja

E NO BRASIL ASSENHOREADO POR VELHACOS E ONDE GAMÁ CHEIRA GAMBÁ: Renan cobra blindagem do Planalto para ficar no cargo


Alvo da Procuradoria-Geral da República nas investigações sobre corrupção na Petrobras, Renan Calheiros (PMDB-AL) busca uma ''blindagem'' do Planalto para ter a garantia de que, se a crise se agravar, terá apoio para seguir presidindo o Senado. Segundo integrantes da cúpula peemedebista, o senador tem reagido ''acima do tom'' nas últimas semanas porque quer a sinalização de que será protegido pelo Planalto e que o PT não defenderá sua saída.

Em 2007, Renan foi alvo do "fogo amigo" petista quando sofreu processo de cassação acusado de usar um lobista para pagar a pensão de uma filha. À época, conseguiu ser absolvido com os votos de PSDB e DEM, mas foi fritado publicamente por aliados, caso do então senador Aloizio Mercadante, hoje chefe da Casa Civil. Se, desta vez, for preservado, voltará a ser um fiador da governabilidade no Legislativo.

Na terça, Renan deu demonstrações do quanto pode atrapalhar a vida da presidente Dilma Rousseff. Ele devolveu ao Executivo a medida provisória editada na semana passada que revisa as regras de desoneração da folha de pagamento de vários setores da economia.

Nesta quarta, a presidente enviou Pepe Vargas (Relações Institucionais) para uma conversa com ele para tratar do ajuste fiscal. O governo teme novas derrotas. Na próxima semana, Renan deve submeter à apreciação do Congresso um veto presidencial contra a correção de 6,5% da tabela do Imposto de Renda. A equipe econômica defende 4%.

Suspeito fez depósito em conta de Vaccari

Pela primeira vez na Operação Lava Jato, as autoridades que investigam o caso obtiveram comprovantes de transações bancárias que ligam o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, a suspeitos de operar no esquema de corrupção na Petrobras.

A força-tarefa da Lava Jato apura se duas operações de recebimento e envio de R$ 400 mil em 2008 e 2009 com o uso de uma conta da mulher de Vaccari tiveram ligação com o suposto pagamento de propina pela Toshiba em negócios com a Petrobras.

O dinheiro foi movimentado a partir de uma conta de uma empresa controlada pelo empresário Cláudio Mente, que, segundo o doleiro Alberto Youssef, operava o pagamento de subornos na estatal de petróleo. Vaccari afirma que as transações resultaram de um empréstimo concedido a ele por Mente, seu amigo, para a aquisição de uma casa (leia texto ao lado).

Os documentos fazem parte de um inquérito aberto em janeiro para investigar se a Toshiba repassou duas parcelas de propina a Vaccari, no valor de R$ 400 mil cada uma, entre 2009 e 2010, para o fechamento de um contrato no valor de R$ 117 milhões com a Petrobras para obras no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Essa suspeita surgiu após Youssef apontar a realização desse crime em um dos depoimentos de sua delação premiada na Lava Jato. Nessa investigação foi anexado o depoimento do advogado Carlos Alberto Pereira da Costa, apontado como laranja de Youssef e gestor da empresa de Mente, a Comércio de Produtos Agropecuários, que tem o nome fantasia de CRA (Centro de Reproduções das Américas).

Em fevereiro, Costa afirmou à PF ter providenciado uma remessa de R$ 400 mil de uma conta da CRA para uma conta de Giselda Rousie de Lima, mulher de Vaccari, em novembro de 2008.

O advogado relatou que elaborou um contrato de empréstimo para justificar a transferência, mas que a CRA nunca emprestou dinheiro. De acordo com Costa, o contrato de novembro de 2008 e um termo de quitação do empréstimo, com data de 29 de dezembro de 2009, foram elaborados no mesmo dia, o que era comum na empresa para "esquentar" transações financeiras.

O advogado entregou à Polícia Federal o comprovante da transferência para Vaccari em 2008 e também um extrato que aponta uma remessa de R$ 400 mil da conta do atual tesoureiro do PT para a conta da CRA no dia 22 de dezembro de 2009. À época, Vaccari presidia a Bancoop (Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo). O Ministério Público move ação penal em que acusa Vaccari de ter desviado valores da entidade para o PT –o que ele nega. Vaccari assumiu a tesouraria do PT em 2010.

Em depoimentos prestados em fevereiro à força-tarefa da Operação Lava Jato, Costa e Youssef apontaram que Mente operava o pagamento de propinas para empreiteiras. A Polícia Federal agora vai buscar o depoimento de executivos da Toshiba para aprofundar as investigações.


FLÁVIO FERREIRA
DE SÃO PAULO

O ajuste "sujo" DA VIGARISTA


O governo Dilma tenta repassar rapidamente a conta de seu descontrole fiscal para a sociedade. Leniente com a inflação, também usa a corrosão do dinheiro no ajuste. É um expediente antigo, típico dos tempos de descontrole inflacionário.
Ministérios vêm atrasando pagamentos de bilhões a empreiteiras, obras do PAC e programas como o Pronatec. Com a inflação a 7,5% ao ano, os atrasos geram economia considerável. O dinheiro fica aplicado e rende ao governo até ser desembolsado ou chega desvalorizado ao credor, que fica com o prejuízo.

O déficit público nominal (que inclui gastos com juros) saltou, em apenas seis meses , do equivalente a 3,7% do PIB para 6,7% em dezembro. Algo brutal num período tão curto. Foi quando o governo pisou no acelerador dos gastos, já elevados, no período eleitoral.

Vencida a eleição, a conta veio forte e de uma vez. Via reajuste de tarifas de energia e gasolina, entre outros, aumento (ou eliminação de descontos) de impostos e cortes. Como para as 5 milhões de famílias que perderão a Tarifa Social de Energia.

A sanha e urgência tardia para equilibrar as contas têm duas faces: de um lado, procura evitar uma desconfiança ainda maior dos mercados sobre a capacidade do governo de pagar suas dívidas. De outro, pode ser letal para a economia neste ano e mais além, com forte impacto no emprego e retrocessos na melhora socioeconômica dos últimos anos.

A qualidade do ajuste que o governo Dilma faz entre receitas (em queda) e despesas é muito ruim, pois mantém intocada a "sujeira" da máquina estatal. O ajuste é muito menos focado no corte de gastos correntes (que se perpetuam indefinidamente) do que nos investimentos (como os do PAC).

Cortar investimento e aumentar impostos em um ambiente de queda da atividade e forte apreensão entre consumidores e empresários levará a economia ainda mais para baixo.

Em cima disso, pressão adicional dos gastos com juros altos para combater a inflação que saiu do controle. Só em janeiro, foram R$ 18 bilhões com juros, o que representa 2,5 vezes o corte do investimento em educação para todo o ano.

O primeiro governo Dilma foi incapaz de manter o relativamente próspero Brasil que Lula deixou ao adotar medidas, uma atrás da outra, sem muito planejamento e cuidado. "Grosseiras", como definiu o novo ministro Joaquim Levy (Fazenda) antes de levar um pito de Dilma.

No afogadilho, o início do segundo mandato não parece ser muito diferente.


O ajuste "sujo" de Dilma
Fernando Canzian é repórter especial da Folha.