"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

março 21, 2011

IMPRENSA E POLÍTICA. O QUE ELES TEMEM É A DESMISTIFICAÇÃO. QUEREM A OBSCURIDADE.


O governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Justiça de Lula, Tarso Genro, manifestou desconforto com o trabalho da imprensa.

Na contramão do discurso da presidente Dilma Rousseff, defensora dos jornais, "mesmo quando são irritantes, mesmo quando nos afetam, mesmo quando nos atingem", o governador gaúcho vislumbra riscos para a democracia subjacentes ao empenho investigativo dos jornais.

Em artigo na Folha de S.Paulo, Tarso Genro aponta o perigo representado pela imprensa:
"É visível que existe, em grande parte da mídia, também uma campanha contra a política e os políticos, o que, no fundo, é, independentemente do objetivo de alguns jornalistas, também uma campanha contra a democracia".

O comentário do governador, em sintonia com a linha mais autoritária de seu partido, o PT, é injusto e infeliz.
Não é o jornalismo investigativo que conspira contra a democracia.
É a corrupção endêmica e impune.
É o pragmatismo aético.

É a "governabilidade" que justifica alianças que fariam corar até mesmo representantes de facções.


O fisiologismo político é responsável por alianças que são monumentos erguidos à incoerência e ao cinismo. Quando víamos Lula, José Sarney, Fernando Collor e Renan Calheiros, só para citar exemplos mais vistosos, abraçados e congraçados, no mesmo palanque, pairava no ar a pergunta óbvia:
o que une firmemente aqueles que estiveram em campos tão opostos? A "governabilidade", dirão alguns.
Na verdade, interesse. Só interesse.

Os fisiologistas têm carta-branca para gozar as benesses do poder.
Os ideológicos, cúmplices ou lenientes com o apetite dos fisiológicos, recebem deles o passaporte parlamentar para avançar no seu projeto de poder.


Tarso escolheu um momento ruim para investir contra a imprensa, pois recentemente se tornou público um vídeo em que a deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF) aparece recebendo um maço de dinheiro das mãos do delator do mensalão do DEM, Durval Barbosa.

Barbosa, recorda o jornalista Fernão Mesquita, "é o pivô do "mensalão do DEM", aquele no qual tombou sob o fogo das lentes indiscretas da Polícia Federal lulista o governador José Roberto Arruda, em manobra arquitetada para mostrar que isto de "mensalões" não é exclusividade do PT e, assim, animar as "excelências" a aprovar, em unanimidade suprapartidária, uma saída de emergência para "mensaleiros" pegos em flagrante escaparem da cassação".

Foi rigorosamente o que aconteceu.
A nova legislação é uma bofetada na cidadania.
Diz pura e simplesmente:
quem roubar em cargo público só pode ser punido por malfeito flagrado no mandato em exercício.
Ficam impunes as roubalheiras praticadas em mandatos anteriores.

(...)
É isso que cabe à imprensa. Mostrar o que sonegam.
Desnudar o verdadeiro substrato dessa sucessão interminável de escândalos.


É um erro, um grave equívoco, minimizar a gravidade da corrupção.
O Brasil está bombando.
O desenvolvimento absolve todos os pecados.
O crescimento da economia é uma viseira que impede um olhar mais profundo sobre o País que queremos construir.
O custo humano e social da corrupção é assustador.
A dinheirama que desaparece no ralo da corrupção é uma tremenda injustiça e um câncer que, aos poucos e insidiosamente, vai minando a República.


A corrupção, independentemente do seu colorido partidário, precisa ser duramente combatida.
É ela que empurra a juventude desempregada para o consumo e o tráfico de drogas. É ela que abandona os idosos que são maltratados nas filas de uma saúde pública de baixíssimo nível.
Saúde para todos. Maravilha. Mas que tipo de saúde?
Educação para todos. Formidável. Mas que tipo de educação?
O Brasil é VIP na economia, mas é o único entre os emergentes sem universidades top de linha.
É o que mostra o novo ranking divulgado pela Times Higher Education (THE), a principal referência no campo das avaliações de universidades no mundo.


A um projeto autoritário de poder o que menos interessa é gente educada, gente que pense criticamente.
Multiplicam-se universidades, mas não se formam cidadãos:
homens e mulheres livres, bem formados, capazes de desenvolver seu próprio pensamento, conscientes de seus direitos e de seus deveres.


O Brasil pode morrer na praia de uma economia florescente, mas sem um projeto sério de educação. Só a educação de qualidade será capaz de preparar o Brasil para o grande salto. Deixarmos de ser um país exportador de commodities para entrar, efetivamente, no campo da produção de bens industrializados.

Para isso, no entanto, é preciso o acicate de uma imprensa independente e que vá além dos episódios pontuais.
Uma imprensa desmistificadora de relatórios oficiais.
Um jornalismo capaz de fazer a correta leitura de números, estatísticas e documentos.
Impõe-se a prática de um jornalismo que não se vista com as lantejoulas do último escândalo denunciado, mas que saiba o que está no fundo da impunidade.


O governador Tarso Genro está equivocado.
A imprensa não ameaça a democracia.
O que, de fato, compromete a democracia é a banda podre da política brasileira.

Carlos Alberto Di Franco O Estado de S. Paulo

“o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”(lord Acton).

A teoria do inglês lord Acton (1834-1902), segundo a qual “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente”, foi simplificada por José Saramago, em seu livro póstumo,

As palavras de Saramago:
“O poder não precisa ser absoluto para corromper absolutamente”.

Acton é o passado.
Saramago viveu 2009, ano de escândalos financeiros nos EUA, entre os quais, sem falar dos bancos, o do especulador trapaceiro que roubou bilhões de dólares dos investidores, prometendo-lhes que ficariam fantasticamente ricos, em pouco tempo.


Nesse entretempo, o trapaceiro foi condenado a dois séculos de prisão. A legislação penal americana — ao contrário da brasileira, mais leniente na punição do crime, cuja pena máxima é de 30 anos — não permite saídas natalinas da prisão, por bom comportamento, nem dá outras regalias aos prisioneiros. Eis uma diferença entre duas democracias: Brasil e EUA.

Dir-se-ia que nossa legislação penal foi feita por traficantes de drogas, criminosos de colarinho branco ou bandidos ricos. A ideia de que o crime não compensa, hoje, é mentirosa no país.
O número de criminosos soltos é espantoso.
O grupo de 40 pessoas, que o Ministério Público chamou de quadrilha do mensalão, até hoje não foi julgado.


Não se trata de promover uma raivosa caça às bruxas, nem de endurecer as leis penais especialmente para essa gente, mas de cumprir a legislação em vigor, sem truques que soltem a bandidagem facilmente.

Sob esse aspecto, é importante pôr o Brasil nos trilhos do direito, para que brasileiro algum, respeitador da lei penal, não se arrependa, um dia, de sê-lo.

O povo propôs e aprovou a Lei da Ficha Limpa na política. Por certo, ele faria o mesmo para acabar com o que lhe parece exagero de tolerância, nas violações cotidianas dos limites legais e não só da lei penal.
Da mesma forma, ele não hesitaria em fazer uma grande marcha nacional, rumo ao ponto em que o Brasil, no plano ético, passasse da barbárie à civilização.

Essa arrancada civilizatória é a meta que qualquer governo democrático busca alcançar ou se empenha em manter.
Tentar esses mares, antes que um tsunami os revolva, não é fantasia.

Rubem Azevedo Lima Correio Braziliense
Poder absoluto e tsunami

março 20, 2011

CRESCIMENTO ECONÔMICO CONFUSO OU SAMBA DO CRIOULO DOIDO?

Que os economistas nunca chegam a um consenso entre si, não há nenhuma novidade. Porém, os últimos números sobre o crescimento econômico do País têm deixado não apenas os economistas, como também o mercado financeiro e os investidores, em ritmo de bússola sem norte.

Na manhã da terça-feira, 15, por exemplo, mesmo com a divulgação de um novo bom resultado para o setor varejista em janeiro, os contratos de juros futuros iniciaram os negócios em queda generalizada na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), pressionados pelo aumento das tensões relacionadas ao terremoto no Japão. Ou seja, os investidores esperavam que o Banco Central baixasse os juros mais adiante por dificuldades na economia.

Apenas algumas horas depois, no fim da manhã da mesma terça-feira, com o mercado de trabalho brasileiro tendo gerado vagas muito acima do que o esperado em fevereiro, os juros futuros inverteram o comportamento e passaram a subir. A avaliação do mercado financeiro passou a ser, então, a de que com novas vagas, o consumo seguirá aquecido e o Banco Central terá de fazer novas altas na taxa de juros para trazer a inflação para um patamar mais próximo da meta de 4,5% ao ano.

Os dados da balança comercial brasileira também reforçam esse cenário econômico conflitante. Mesmo com a economia interna aquecida e o real valorizado as exportações do País nos dois primeiros meses de 2011 cresceram 26% em comparação com o primeiro bimestre de 2010.

No acumulado deste ano, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio (MDIC), a balança comercial brasileira registrou superávit de US$ 1,622 bilhão, o que representa crescimento de 672% na comparação com o mesmo período do ano passado quando foi registrado um saldo positivo de US$ 210 milhões.

Outro índice, o IBC-Br calculado pelo Banco Central, divulgado na quarta-feira apresentou alta de 0,7% em janeiro, na série com ajuste sazonal, registrando o ritmo mais forte de crescimento desde abril do ano passado, quando o indicador avançou 1%. Na comparação com janeiro de 2010 houve alta de 5,1%, com uma aceleração sobre o ritmo apresentado em dezembro que havia sido de 3,7%. Para os economistas, o índice sinaliza um ritmo ainda forte de expansão, embora distante das altas observadas no início do ano passado.
Ou seja, mais um sinal conflitante sobre a economia brasileira.


Em outro caso, diversos especialistas ouvidos pelo iG afirmaram que o Banco Central não agiu errado ao não aumentar os juros no fim de 2010, o que teria gerado pressão inflacionária em janeiro e fevereiro.
Para eles, o BC tomou as medidas cabíveis e manteve a taxa de juros Selic (taxa básica de juros) inalterada nos dois últimos encontros do Comitê de Política Monetária (Copom) do ano passado, com base no cenário e nas informações disponíveis naquele momento.


Em setembro, por exemplo, o mercado financeiro acreditava numa inflação de 5% no fim de 2010. A média das projeções da pesquisa Focus em setembro apontava que o IPCA fecharia 2010 em 5% e em 4,8% em 2011. “Diante disso, não tinha porque aumentar os juros”, afirma o economista-chefe da consultoria LCA, Braulio Borges.
Outra justificativa da autoridade monetária para manter o juro num patamar inalterado foi o rombo de R$ 4,5 bilhões no banco Panamericano, que poderia ter afetado todo o sistema bancário. “Mas o que se viu depois foi um avanço forte dos alimentos no fim de 2010 e o reflexo disso foi que o IPCA encerrou o ano em 5,9% e iniciou 2011 pressionado”, diz Borges.


Luiz Rabi, gerente de indicadores de mercado da consultoria Serasa Experian, concorda com o acerto do BC. “Hoje, olhando o passado, é fácil fazer essa análise”, disse. “Mas o governo não fez sua parte de controlar os gastos e os incentivos adotados durante a crise para evitar a retração da economia foram mantidos, mesmo após o período mais turbulento, o que incentivou muito o crescimento da demanda.”

Porém, o clima na primeira reunião entre a diretoria do BC com economistas do mercado financeiro, na segunda-feira, 14, não foi dos mais amenos.
Os diretores do banco sofreram várias críticas, inclusive de estarem subestimando a ameaça da inflação.
Um dos economistas presentes chegou a afirmar que o BC pode estar dando um peso maior à eficácia das chamadas medidas macroprudenciais no combate à inflação.


Agência Brasil

março 19, 2011

INTERESSE NACIONAL EM JOGO.


Grande parte dos brasileiros tem conhecimento dos enormes desafios de gestão territorial enfrentados pelo País e suas consequências.
Trágicas em muitos casos, como na ocupação urbana irregular em áreas de risco ou nas dificuldades de controle das fronteiras, por onde são introduzidas ilegalmente desde drogas e armas até enfermidades, como a febre aftosa, que podem abalar setores da economia nacional.


O que poucos sabem é que, há mais de 20 anos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) criou uma equipe técnica altamente qualificada para monitorar por satélite todo o território nacional. Instalada em Campinas, dispondo de equipamentos sofisticados e com atuação competente e discreta, a área de Gestão Territorial Estratégica (GTE) da Embrapa Monitoramento por Satélite permitiu o fornecimento constante de dados exclusivos, inéditos e fundamentais aos órgãos da Presidência da República e ao gabinete do ministro da Agricultura.

Dentre eles cabe destacar:
o monitoramento mensal por satélite de centenas de obras do PAC em todo o País; a qualificação de infraestruturas críticas nas áreas de comunicação, energia e logística; o mapeamento e a quantificação das áreas urbanizadas nos municípios e no entorno dos novos estádios onde ocorrerão os jogos da Copa do Mundo de 2014; o desenvolvimento de sistemas operacionais de detecção precoce de problemas na faixa de fronteira; a geração de informações estatísticas sobre a dinâmica da produção agrícola; e a expansão da agronergia e do etanol, entre outros.


A GTE apoia os trabalhos do contingente brasileiro na Missão de Pacificação da ONU no Haiti com imagens de satélite, essenciais para a ajuda após as inundações de 2004 e o terremoto de 2010. Suas imagens de alta resolução ainda serviram para apoiar as operações de pacificação nas favelas do Rio de Janeiro, como em Manguinhos e no Morro do Alemão.

Essas atividades de sensoriamento têm auxiliado os presidentes da República - de José Sarney a Dilma Rousseff - e os ministros da Agricultura em complicados processos de tomada de decisões.

Com o crescimento do País e de sua agricultura, e diante da constante necessidade de defender os interesses nacionais, aquelas autoridades não podem prescindir de dados e informações territoriais dessa natureza. Era de esperar o fortalecimento da equipe da GTE e de sua autonomia operacional, pelos resultados alcançados durante o governo do presidente Lula.
Mas não.
Dizem os espanhóis que a ignorância é audaciosa.


Talvez isso explique a recente decisão do chefe da Embrapa Monitoramento por Satélite de destituir a equipe e desmantelar o seu comando e retirar a autonomia da área de Gestão Territorial Estratégica, sob pretexto de implantar um novo regimento interno, com o apoio tácito do presidente da Embrapa.

Essa decisão estapafúrdia de desmontar o serviço de gestão territorial estratégica - com consequências desastrosas para a agricultura e o monitoramento territorial do Brasil - foi denunciada no artigo Perde a Embrapa, perde o Brasil , perde o Brasil, publicado neste jornal no último dia 15, pelo jornalista Rodrigo Lara Mesquita. A confirmação das informações divulgadas provocou forte reação dos usuários desse serviço no agronegócio, em organizações rurais, instituições governamentais e até do prefeito de Campinas, que se manifestaram junto ao Ministro da Agricultura e ao governo federal.

O Ministro Rossi interveio com diligência e avocou para si as decisões neste caso, embora a direção da Embrapa se mantenha em uma atitude de insubordinação.

O futuro dessa equipe de excelência, instrumento estratégico do Ministério da Agricultura, interessa ao País, que só pode planejar e monitorar o manejo de seu vasto território se dispuser de informações seguras e oportunas. Nesse sentido, a continuidade do serviço de gestão territorial estratégica interessa não só ao Ministério da Agricultura, mas também ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, à Casa Civil, aos Ministérios do Planejamento, das Cidades e da Defesa.
O interesse nacional está em jogo.

O Estado de S.Paulo

março 18, 2011

DILMA PISCOU PARA A INFLAÇÃO.

Dilma Rousseff caiu na lábia de Guido Mantega.
Assim como o ministro da Fazenda, ela diz acreditar que o problema da inflação no país está relacionado a fatores mundiais, mais especificamente à alta dos preços dos alimentos no mercado internacional.
Vê fumaça, mas não sabe onde está o incêndio.


Dilma abriu as portas do gabinete presidencial ao Valor Econômico para dizer ao mundo econômico que está atenta à escalada de preços.
Para usar um dos vocábulos de preferência dela, não "tergiversa" com o assunto.
Manifestou sua profissão de fé de que inflação e crescimento econômico não colidem. A entrevista foi publicada na edição de ontem do jornal.


"O que não é possível é falar que o Brasil está crescendo além da sua capacidade e que, portanto, tem um crescimento pressionando a inflação. O mundo inteiro, na área dos emergentes, está passando por isso. Houve um processo de pressão inflacionária que tem componente ligado às commodities e, no Brasil, tem o fator inercial", defendeu ela.

A presidente da República está chancelando uma visão equivocada da realidade. Desde o ano passado, a equipe econômica - dela e de Lula - tem defendido a tese de que a inflação é passageira, porque resultante de elevações temporárias nos preços das commodities agrícolas. Neste meio tempo, os preços só subiram:
quem mais acerta no mercado já vê a alta acima de 6% neste ano, mostra o mais recente
Boletim Focus.

Basta ter olhos para ver que a disparada dos preços não tem se concentrado apenas nos alimentos ou em aumentos sazonais, como os reajustes de mensalidades escolares e passagens de ônibus. Na realidade, dissemina-se por dois terços dos produtos da cesta usada pelos institutos de pesquisa para calcular o custo de vida.

No caso dos serviços, a escalada é evidente.
Em média, estes preços exibem alta de mais ou menos 11% nos últimos doze meses. Trata-se de setor que não tem nada a ver com mercados além-fronteiras ou em pregões em que se negociam commodities mundo afora.
Com seus reajustes, os prestadores - a manicure, o encanador, o dentista - simplesmente reagem à maior procura por seus serviços.


Tudo indica que há excesso de demanda, sim, na economia brasileira, principalmente em razão do aumento dos salários, que continuam expressivos. Ontem, o Dieese divulgou que em 89% dos acordos salariais feitos em 2010 os trabalhadores obtiveram aumento acima da inflação do período. É a maior proporção da série histórica iniciada em 1996.

Custa acreditar em inflação sob controle quando crédito, salários e consumo crescem em ritmo muito acima do PIB. Nem o guardião da moeda comunga da visão de Dilma. Ontem, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, afirmou que ainda existem elementos na economia brasileira "que apontam para um descompasso entre as taxas de crescimento da oferta e da demanda", segundo o Valor.

Alguns exemplos de fatores que colaboram para este descompasso são a forte criação de empregos formais no primeiro bimestre e a surpreendente alta do Índice de Atividade Econômica do BC - que subiu 0,7% em janeiro sobre dezembro. Com o mercado de trabalho crescendo, mantém-se elevada a confiança do consumidor e a demanda não arrefece, como é preciso neste momento.

O que se vê é que a economia continua em ebulição, em temperatura muito além do que a própria presidente da República considerou prudente, conforme manifestou quando saíram os resultados do PIB de 2010. O BC já aumentou os juros, baixou suas medidas de restrição ao crédito, mas o corte nos gastos públicos até agora não passou de uma carta de intenções.

Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, foi direto ao ponto, em declaração publicada na edição de hoje de O Globo:
"Não há esforço real em trazer a inflação para 4,5% e pela primeira vez essa leniência parece ser integralmente aceita por todo o governo. O governo está sendo leniente. Não é culpa de uma ou outra parte. Mas no fundo a responsável final por isso é a presidente".


O que tem ocorrido é que, por mais que o governo diga que age, os prognósticos para a inflação só pioram.
Se Dilma considerou que ela própria tinha que vir a público defender a austeridade, é porque percebeu que seu governo vem perdendo a batalha das expectativas junto aos formadores de preço.
Com a entrevista dela ao Valor, os humores na economia deverão ficar ainda mais azedos.
E aí o fogo já terá se alastrado.


Fonte: ITV

O FUTURO A DEUS PERTENCE II : INSTRUMENTOS ADULTERADOS(NÚMEROS DO "GOVERNO").

Imagine um pequeno avião cujos instrumentos foram adulterados. O altímetro mostra altitude bem maior do que a verdadeira e o indicador de combustível subestima em muito o consumo efetivo.

Depois de anos de desleixo e uso inadequado, o avião já não funciona como deveria. Precisa de manutenção cara e prolongada.


Mas o piloto vem tentando esconder os problemas dos proprietários. Adulterou os instrumentos, temendo que, pelo painel de controle, os proprietários notassem a real extensão dos problemas.


Um voo nessas condições já seria bastante arriscado, mesmo se o piloto, ao ler cada instrumento, fosse capaz de levar em conta a medida exata em que a informação foi adulterada.

Muito mais arriscado ficará o voo, contudo, se o piloto se esquecer das adulterações e passar a acreditar piamente no que mostram os instrumentos.


Não obstante todas as ponderações em contrário, o governo confirmou que o Tesouro fará novo aporte de R$55 bilhões ao BNDES em 2011, na contramão do corte de gastos que havia sido anunciado. É bem sabido que nos últimos anos os indicadores de desempenho fiscal deixaram de indicar o que deveriam.

As deturpações por que vêm passando decorrem, em grande medida, da tentativa de dissimular o impacto sobre as contas públicas das gigantescas transferências do Tesouro ao BNDES:

mais de R$230 bilhões, entre 2008 e 2010.

Tivessem tais transferências configurado operações tradicionais de capitalização, com aumento do capital próprio do banco, teriam tido impacto adverso sobre as contas públicas, com redução do resultado primário e aumento da dívida líquida do governo.

Para dissimular tais efeitos, o governo apelou para o subterfúgio da capitalização velada. Em vez de reforçar o capital próprio do banco, o Tesouro agraciou-o com empréstimos de longuíssimo prazo a juros subsidiados, com recursos advindos da emissão de dívida pública.


Isso só apareceu nas estatísticas de dívida bruta. Nas de dívida líquida, o governo se permitiu neutralizar o impacto, abatendo como ativos os próprios empréstimos concedidos. No resultado primário, as transferências simplesmente não foram registradas. Uma omissão colossal, que até o FMI se viu obrigado a assinalar.

Se as transferências ao BNDES não tivessem sido omitidas, como teriam ficado as contas de resultado primário? As variações dos créditos do Tesouro junto ao BNDES mostram que tais transferências foram de R$28,8 bilhões em 2008, R$93,8 bilhões, em 2009 e R$107,5 bilhões, em 2010. Em porcentagem do PIB: 0,95%, 2,94% e, novamente, 2,94%.

De acordo com as contas oficiais (que omitem as transferências ao BNDES), o superávit primário do setor público, também em porcentagem do PIB, foi de 3,31% em 2007, 3,42% em 2008, 2,03% em 2009 e 2,79% em 2010.

Se, desses percentuais, forem abatidas, nos três últimos anos, as transferências ao BNDES mencionadas acima, a série de resultado primário do setor público passa a mostrar evolução bastante distinta: superávit de 2,47% em 2008, déficit de 0,91% em 2009 e novo déficit de 0,15% em 2010.


A leitura correta dos instrumentos permite agora percepção muito mais nítida dos impulsos fiscais observados nos últimos anos. Quem ainda estava à cata de uma boa explicação para a brutal expansão de 10,3% na demanda interna em 2010, pode interromper a busca.

É dessa perspectiva que se deve indagar se faz sentido novo aporte ao BNDES de R$55 bilhões - mais de 1,3% do PIB - em 2011. Mesmo que o governo consiga cumprir a meta oficial de superávit primário para este ano, de 2,9% do PIB, o superávit efetivo, tendo em conta o novo aporte, não passará de 1,6% do PIB.

Ou seja, menos da metade do superávit observado antes da crise, em 2007. Não há nada que justifique tal impulso fiscal a esta altura, quando, pelo contrário, se esperava que a política fiscal fosse capaz de reduzir a sobrecarga que tem recaído sobre a política monetária no combate à inflação.

Até quando a condução da política macroeconômica continuará a ser feita com base em indicadores fiscais tão deturpados?
Rogério Furquim Werneck O Globo

março 17, 2011

O BRASIL, O HIV , E A "IMUNODEFICIÊNCIA ADMINISTRATIVA" DA SAÚDE SOB A "GESTÃO" DO (P)artido (T)orpe.


O Brasil já foi reconhecido por ter o mais avançado sistema de prevenção e combate à aids do mundo. Isso, infelizmente, está se tornando coisa do passado. Novamente às voltas com falta de medicamentos para tratamento de pacientes com HIV, o programa brasileiro flerta hoje perigosamente com a má gestão e o amadorismo, à mercê da ausência de planejamento.


Em sua edição de hoje, O Estado de S.Paulo revela que estão em falta nas unidades públicas de saúde, que distribuem gratuitamente o coquetel de antirretrovirais, pelo menos três medicamentos: atazanavir, saquinavir e didadosina. Ano após ano, o problema se repete.

Milhares de pacientes serão obrigados a se virar como podem para continuar seus tratamentos. "O atazanavir, droga da Bristol usada por 33 mil pessoas, está em falta em pontos localizados do país. Também foram registradas queixas de falhas na entrega do saquinavir, adotado na terapia de 800 pacientes, e da didadosina, droga usada por 3,7 mil pessoas", informa o jornal.

Ante mais um desabastecimento, anteontem o Ministério da Saúde orientou médicos a substituir os medicamentos em falta por outras drogas ou a diminuir a quantidade entregue aos pacientes com HIV. Tudo em desacordo com o que estipulam as melhores práticas médicas.

Uma das características mais importantes da profilaxia da aids é a não-descontinuidade do tratamento. A substituição muitas vezes significa mais reações adversas, incômodos e, sobretudo, aumento de risco de abandono do tratamento pelo paciente. Junte-se também o desgaste emocional de quem está sob tratamento e se vê, de uma hora para outra, sem acesso às drogas. Mas parece que os gestores do PT não se dão conta de nada disso.

Não é a primeira vez que faltam drogas para tratamento de aids no sistema público brasileiro. No ano passado, os pacientes conviveram por até cinco meses com carência de quatro medicamentos: abacavir, lamivudina, nevirapina e a associação entre lamivudina e zidovudina. 176 mil pessoas foram afetadas, incluindo crianças. Em 2005, o fornecimento do abacavir também apresentara problemas.

Segundo o Ministério da Saúde, o que está acontecendo agora é uma "junção de atrasos, problemas que foram se somando". O governo promete solução para "a próxima semana". No ano passado, a culpada foi a distribuição, e o problema só foi equacionado cinco meses depois que surgiram os primeiros sinais de desabastecimento.

O vírus da aids não espera burocrata se organizar para agir. A cada dia, 30 brasileiros morrem em consequência da doença, cuja incidência atualmente cresce sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país.

A cada ano, em torno de 20 mil novos pacientes recorrem aos postos de saúde para receber o coquetel antiaids. E é justamente aí que repousa a força da outrora impecável política adotada no país: a distribuição gratuita de medicamentos a todos os pacientes com HIV, garantida por lei (nº 9.313) sancionada em 1996 pelo presidente Fernando Henrique Cardoso.

A experiência brasileira foi pioneira no mundo, com resultados bastante positivos em termos de controle da aids, maior qualidade de vida para os pacientes e redução de custos. (Esta trajetória foi analisada pelo Instituto Teotônio Vilela em maio do ano passado.)

Nos seis primeiros anos de vigência da lei, a política adotada pelo governo tucano reduziu pela metade a mortalidade causada pela aids no país. Estima-se que, apenas entre 1996 e 2002, 90 mil mortes tenham sido evitadas e as internações tenham decaído 80%.

Tudo graças à larga, perene e sistemática distribuição gratuita de antirretrovirais, que o PT põe agora novamente sob risco.


Fonte: ITV

OS BANCOS CENTRAIS E A ALTA NOS PREÇOS DAS COMMODITIES.

Antes da catástrofe japonesa, o preço das principais commodities havia disparado, pressionando a inflação no mundo todo. O petróleo foi um caso especial, por conta das tensões crescentes no Oriente Médio. Os bancos centrais poderão cair na tentação de culpar apenas este choque de oferta” pelo problema inflacionário.

Se fizerem isso, continuarão “atrás da curva” por algum tempo, mantendo as taxas de juros abaixo do patamar necessário para conter a alta dos preços. Seria uma atitude extremamente arriscada.

É verdade que as revoltas na Líbia e outros países da região produziram um choque no preço do petróleo, mas esta não é a causa principal da inflação no mundo atualmente.
A tendência do preço das commodities já era de alta desde meados do ano passado, quando ninguém sabia o que era “Revolução de Jasmim”.

Para ser mais exato, o CRB, índice das principais commodities, iniciou rápida trajetória de alta na época em que o Fed sinalizou seu segundo “quantitative easing”. O quadro de incertezas no Oriente Médio apenas jogou mais lenha na fogueira inflacionária.
Mas esta já havia sido acesa e estimulada antes.

A crise de 2008 trouxe à tona um modelo insustentável de crédito excessivo e gastos públicos explosivos. Após o estouro da bolha, os principais bancos centrais do mundo partiram para uma política monetária extremamente frouxa, na esperança de estimular novamente o crescimento econômico e reduzir o desemprego.

Mas a alquimia está fadada ao fracasso.
Não se produz riqueza verdadeira com a impressão de moeda de papel ou outras medidas heterodoxas de estímulo artificial. O que isso pode produzir é somente algum crescimento insustentável, postergando os ajustes necessários e criando novas bolhas. As commodities parecem ser a bola da vez.

Com governos gastadores que se recusam a realizar reformas estruturais mais sérias e bancos centrais que focam mais no crescimento do que na estabilidade geral de preços, o mundo se viu inundado por nova onda de liquidez.
A lógica dessa escola econômica funciona mais ou menos assim: o banco central cria liquidez do nada, consegue inflar o preço dos ativos novamente, isso acaba estimulando o consumo, as empresas resolvem investir para atender a demanda, e o desemprego finalmente cai. Todos ficam felizes. Seria fantástico se funcionasse de forma tão simples.


O Zimbábue aprendeu que pode custar muito caro brincar de alquimista.
Um dos resultados deste estímulo monetário foi justamente a tendência de alta das commodities. Com China, Índia e outros países emergentes crescendo de forma acelerada, bilhões de novos consumidores entraram nos mercados, disputando os produtos básicos, tais como alimentos.

Uma vez que não há contrapartida adequada no lado dos investimentos, a demanda supera a oferta, e o preço sobe. Ben Bernanke e Trichet, respectivamente do Fed e BCE, podem até ficar espantados com o “choque de oferta” do petróleo e tirar o corpo fora em relação à inflação. Mas o fato é que esta é fruto de uma política deliberada, e não do acaso ou da revolta de jovens árabes.

Os banqueiros centrais se encontram num dilema agora. Se aumentarem rapidamente as taxas de juros para conter a pressão inflacionária, podem ameaçar a retomada do crescimento, que tem pilares frágeis e artificiais. Mas se permanecerem “atrás da curva”, na esperança de que tudo não passa de um problema pontual no Oriente Médio, estarão jogando gasolina na fogueira.
Uma grande bolha poderá se formar, com efeitos catastróficos depois, quando seu estouro for inevitável. Os bancos centrais do mundo todo estão brincando com fogo.

Para os investidores, este é um cenário de extrema incerteza, pois o resultado depende muito da reação de poucas autoridades. Caso a opção seja pela negligência, então os ativos ligados às commodities podem seguir na tendência de alta por mais algum tempo. O ouro, que já está perto de seu patamar máximo histórico, poderá subir ainda mais.

As ações, neste cenário, podem subir também, ao menos em termos nominais. Mas se a inflação sair mesmo do controle, e os bancos centrais tiverem que puxar rapidamente os juros, então até uma nova recessão mundial não pode ser descartada. Neste caso, quem tiver apostas em bolsa perderá.

A inflação está aí e é basicamente o resultado de estímulos monetários. Ignorar isso é como jogar roleta-russa. Os investidores devem ter isso em mente, e aumentar a cautela no momento. A desgraça que se abateu sobre o Japão produz novas incertezas, mas, a princípio, não altera o quadro geral.

Rodrigo Constantino, jornal Valor Econômico

GOVERNO ESTUDA OPÇÃO PARA PREVIDÊNCIA SOCIAL.

Além de idade mínima, alternativa seria soma de anos e tempo de contribuição

O governo já começou a preparar as bases para uma minirreforma da Previdência Social. Ontem, o ministro da Previdência, Garibaldi Alves, afirmou que o governo prepara uma alternativa ao fator previdenciário, usado no cálculo dos benefícios dos trabalhadores do setor privado que reduz os ganhos de quem se aposenta mais cedo. A opção é estabelecer idade mínima para a aposentadoria.


Dos três pontos que a equipe econômica quer atacar, como antecipou O GLOBO na última segunda-feira, o mais polêmico é o que trata do fator previdenciário. Os demais são a criação do fundo de previdência complementar dos servidores públicos, há quatro anos no Congresso, e o regime de pensão por morte.

O fator já está desgastado: foi derrubado no Congresso e só está em vigor porque Lula vetou seu fim. Por isso, a Previdência estuda alternativas, embora a opção pela idade mínima também seja polêmica. A inspiração vem da reforma do serviço público em 2003.

Mas também está na mesa o chamado "fator do B", pelo qual a soma da idade da pessoa e do tempo de contribuição deve chegar a 95 (homens) e 85 (mulheres) para que ela tenha aposentadoria integral. A chamada "fórmula 95" é considerada mais palatável por parlamentares e integrantes do governo, tendo chegado a ser discutida em 2009.

Alves afirmou, no seminário "O futuro da Previdência no Brasil", que a questão da idade mínima está sendo analisada. O ministro, que votou pelo fim do fator previdenciário, disse que mudou de opinião ao chegar ao governo.
Para ele, não é possível acabar com o fator, que rendeu economia de R$10,1 bilhões de 1999, quando foi criado, a 2009.
- Estamos estudando uma proposta de idade mínima para confrontar com o fator.
Vamos apresentar as duas à presidente Dilma Rousseff para que ela decida - afirmou.

Martha Beck e Cristiane Jungblut O Globo

março 16, 2011

GRUPO ALIMENTAÇÃO CONTRIBUI PARA AVANÇO DO IPC-S PARA 0,64%.

A inflação apurada pelo Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) ganhou força, segundo informou a Fundação Getúlio Vargas (FGV). O índice subiu 0,64% até a quadrissemana encerrada em 15 de março, taxa maior do que a apurada no IPC-S anterior, até a primeira quadrissemana de março, quando avançou 0,59%.

Das sete classes de despesa pesquisadas para cálculo do indicador, quatro apresentaram acréscimos em suas taxas de variação de preços, do IPC-S de até 7 de março para o indicador de até 15 de março.

A aceleração de preços no grupo Alimentação (de 0,54% para 0,67%) foi a principal contribuição para a taxa maior do IPC-S, que saltou de 0,59% para 0,64% entre a primeira e a segunda quadrissemana de março. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), nesta classe de despesa houve acelerações e quedas mais fracas de preços em produtos importantes, como frutas (de 1,46% para 2,46%), carnes bovinas ( de -3,10% para -2,80%) e hortaliças e legumes (de 5,38% para 5,51%).

Além dos alimentos, mais três classes de despesa apresentaram acréscimos em sua taxa de variação de preços, entre os sete pesquisados no mesmo período. É o caso de Saúde e Cuidados Pessoais (de 0,54% para 0,62%); Vestuário (de -0,16% para 0,59%); e Transportes (de 1,08% para 1,17%).

Os outros grupos apresentaram desaceleração de preços. É o caso de Habitação (de 0,59% para 0,52%); Educação, Leitura e Recreação (de 0,26% para 0,15%); e Despesas Diversas (de 1,08% para 0,74%).

Entre os produtos pesquisados no varejo, a FGV informou que as altas mais expressivas apuradas pelo IPC-S de até 15 de março foram registradas em alcatra (14,45%); tarifa de metrô (7,71%); e batata-inglesa (9,65%).

Já as mais significativas queda de preço foram registradas em (-5,37%); contrafilé (-6,52%); e açúcar refinado (-3,80%).

Açessandra Saraiva, da Agência Estado