"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

fevereiro 28, 2013

SERÁ SEMPRE FÁCIL OBEDECER A UM CANALHA... : O SOM DO SILÊNCIO


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A posse na presidência do Senado de Renan Calheiros, que já havia sido afastado do mesmo cargo por denúncias de corrupção em 2006, não é crível em um país que se orgulha de ter construído uma democracia sólida. Mais incrível ainda é o modo que usou para se esquivar dessas denúncias - apresentando notas fiscais "frias". 
 
O silêncio com o qual o Senado trata o movimento de 1,6 milhão de assinaturas articulado pela internet pelo impeachment de Renan é ensurdecedor. 
 
Já a festa de dez anos do PT no poder trouxe de presente ao país uma cartilha aparentemente saída da máquina de propaganda de Stalin - o que não é de assustar, a julgar pelos entorpecentes discursos de Rui Falcão. 
O teor fascista e de divisão do país entre o "nós" e o "eles", além da total incongruência de críticas à gestão tucana de FHC (imprescindível esta para os grandes avanços empreendidos desde 2003), demonstra um governo cuja preocupação é o projeto de poder, e não o país.

Em meio a tudo isso, a blogueira cubana Yoani Sánchez vem ao Brasil buscando espaço para fazer aquilo que não pode fazer em sua terra natal - exercer seus direitos e expressar sua opinião - e é impedida por manifestantes selvagens, que não aceitam ouvir críticas a um regime ditatorial apenas pelo fato de ser socialista.

Os três episódios podem parecer distintos e aparentemente isolados. 
Entretanto, existe entre eles um fio condutor que nos permite compreender - infelizmente - bem as tristes perspectivas do Brasil atual. 
 
Temos um Congresso alheio aos clamores populares pelo valor mais básico da democracia - a ética -, uma máquina governista montada para manter o status quo de seu partido, e um ex-presidente que se considera chefe de Estado e que lidera uma facção intolerante, atrasada e ideológica que dá as cartas no país - e que condecora, ainda por cima, criminosos condenados pelo STF.

Mas não temos ninguém para ir às ruas contra esse estado de calamidade ética. Quem vai às ruas hoje é para cercear a liberdade de expressão de uma cidadã cubana cujo único pecado foi ser contra uma ditadura. Onde estavam esses manifestantes quando da palestra de Zé Dirceu, chefe de quadrilha, na ABI? 
 
Onde estavam quando da entrega da petição pela renúncia de Renan no Congresso? Onde estavam, onde estão todos? 
 
Como estudante da Universidade Federal do Rio de Janeiro, me pergunto: 
onde está a UNE, que no passado era a primeira a se manifestar contra os descalabros? 
Também faz parte da máquina do governo?

Em meio às frequentes perversões morais e à subversão de valores no seio da nossa jovem democracia, os únicos protestos que ocorrem no país são de cidadãos que nem ao menos foram a Cuba, para calar uma voz contrária ao regime esquerdista da terra de Fidel. 
 
Com o seu barulho, deixaram o recado claro:
 o fato de ser de esquerda justifica a ditadura. 

Com seu silêncio, deixam outro: 
o fato de ser de esquerda justifica Renan, 
justifica o mensalão, 
justifica o PT.

Pedro Rychter O Globo

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