"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

fevereiro 13, 2013

Pega na mentira

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Quem vê as notícias hoje divulgadas no Brasil é informado de que Carlos Marighela, 
José Genoíno, 
Carlos Lamarca, 
Aloysio Nunes Ferreira Filho e tantos outros que, de armas na mão, lutaram contra a ditadura militar, queriam implantar a democracia no país 
(não, não queriam: seu objetivo era derrubar a ditadura existente, mas defendiam o comunismo e a ditadura do proletariado). 

São informados também de que a opinião pública e a imprensa resistiram bravamente à ditadura, contribuindo poderosamente para derrubá-la.

Quem lia as notícias divulgadas no Brasil de 1962 até recentemente era informado de que os comunistas, aliados ao presidente João Goulart, já estavam implantando seu regime por aqui, e que a opinião pública e a imprensa, unidas, uniram-se às Forças Armadas para, num movimento civil-militar, restabelecer a democracia no país (não, não era bem assim: ninguém pode acusar os civis Gama e Silva,Alfredo Buzaid, Carlos Medeiros da Silva, ou militares como o almirante Rademaker, o brigadeiro Burnier e o general Sylvio Frota de querer outro regime que não fosse uma ditadura em que toda e qualquer oposição fosse esmagada). 

Eram informados também de que no Brasil jamais houve uma ditadura: 
o regime, nas palavras imortais do general-presidente Ernesto Geisel, era uma democracia relativa. 

Falou-se também numa tal "democracia à brasileira", o que mereceu uma resposta notável de uma pessoa inatacável, o advogado Sobral Pinto: 
o que ele conhecia era peru à brasileira. 
Democracia era democracia, ponto.

Não deixa de ser notável como os meios de comunicação se adaptam rapidamente às novas modas, esquecendo as antigas, das quais participaram e que ajudaram a criar e consolidar. 

Boa parte dos atuais veículos apoiou entusiasticamente a deposição do Governo Goulart; alguns discordaram de determinadas posições dos governos militares; outros, em número menor, foram aos poucos rompendo com a ditadura e foram perseguidos por ela.

Isso faz parte do jogo político: 
pessoas e órgãos de comunicação podem evoluir para outras posições, à medida que a situação se modifica. O que não podem é fingir que nunca tiveram nada a ver com nada, e se alinhar às patrulhas dominantes. 
O que não podem é exigir que todos os acompanhem nas mudanças de posição. 

Como criticar quem chama o movimento de 1964 de "revolução", em vez de "golpe", quando os próprios veículos o chamaram de "revolução" por tantos anos?

E não era proibido usar a expressão "golpe". 
Jornais como Movimento, 
O Pasquim, 
Bondinho, 
Coojornal, 
Opinião, 
Versus, Ex, sempre chamaram de "golpe" o que ocorreu em 1964 (e, aliás, fizeram a mais dura oposição, dentro do que era possível, ao regime militar). 

Quem usava a expressão "revolução" a usava porque queria, não porque fosse obrigado. O cronista Stanislaw Ponte Preta, ironizando a expressão "revolução redentora", chavão nos discursos de apoio ao poder, passou a chamá-la apenas de "a Redentora". 

A Censura proibia publicações, proibia opiniões, proibia até mesmo notícias de fatos (como, por exemplo, a epidemia de meningite em São Paulo), mas este colunista não soube de caso algum em que um veículo fosse obrigado por ela a publicar alguma coisa.

O pior é que absurdos desse tipo não são novidade nos meios de comunicação. 

Na época de Elizabeth 1ª, a Rainha Virgem, o que havia de forte em comunicação era o teatro. O grande Shakespeare traçou então um retrato tenebroso de Ricardo 3º, o rei deposto pela família da rainha; e esse retrato, sabe-se agora, quando foi encontrado o esqueleto de Ricardo 3º, era tendencioso até na descrição física.

O episódio clássico da era da imprensa é do jornal parisiense Le Moniteur, noticiando a fuga de Napoleão Bonaparte da ilha de Elba, onde estava preso, e sua volta para a França (onde retomou o poder e governou por cem dias, até ser derrotado por uma aliança de Exércitos europeus, liderada pela Inglaterra, e exilado novamente, desta vez para a ilha de Santa Helena, de onde jamais conseguiu fugir).

A primeira manchete do Le Moniteur noticia a fuga, as manchetes seguintes os passos do retorno de Napoleão:

1 - O monstro fugiu do local do exílio

2 - O ogro desembarca em Cabo Juan

3 - O tigre está em Gap

4 - O monstro avança até Grenoble

5 - O usurpador está a 60 horas da Capital

6 - Bonaparte adianta-se em marcha acelerada mas é impossível que alcance Paris

7 - Napoleão chega amanhã às portas de Paris

8 - O Imperador Napoleão Bonaparte está em Fontainebleau

9 - Sua Majestade o Imperador entra solenemente em Paris


A primeira manchete do Le Moniteur é de 9 de março de 1815.
Faz quase 200 anos - e a postura oportunista não mudou. 

Carlos Brickmann

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