"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

janeiro 01, 2010

UM ASSUNTO IMUNDO



 
...Como em qualquer lugar, a política abriga pessoas boas e más, imbecis e inteligentes, honestos e desonestos. Mas, mesmo as pessoas boas, honestas e inteligentes realizam e contribuem para a sujeira da política, só que de forma inconsciente e ingênua: as pessoas “boas” dão uma certa dignidade “a política”, e com isso contribuem para ofuscar ainda mais a imundície dos políticos.
 

Antes de qualquer coisa, para se entrar na política é preciso ser um comerciante, pois a política é um grande comércio de interesses, onde se barganham leis, poderes, domínios, divisões territoriais. Falem que buscam o consenso, mas o que ocorre são acordos, onde abrem mão dos princípios em nome das finalidades. 

É que o político é necessariamente um dissimulador, um forjador de realidades, um ator, representando um papel de mártir do povo, de uma vida voltada para os sacrifícios do povo. 

O político é necessariamente um mentiroso, que sempre diz estar defendendo no interesse da maioria (sem se preocupar se a maioria está certa, pois não poucas vezes está equivocada) ou de todos; só fala coisas justas publicamente, mas jamais sabemos o que é realmente verdade ou o que é efeito retórico de discurso.
 

Assim, vias de regra, os piores candidatos são sempre os escolhidos, ainda que de fato nunca haja candidatos bons. Só ruins têm condições e disposição para concorrerem às eleições. O princípio de escolha dos candidatos dentro dos partidos é bem simples: pega-se os mais canalhas e os mais ingênuos. 

Os primeiros lutam descaradamente pelos interesses mais mesquinhos; os segundos, além de darem uma certa dignidade à política, são facilmente manobráveis, fazendo-os crer que lutam por boas causas humanitárias, quando o que a humanidade precisa é que acabem com as lutas e não pessoas que se disponham a lutar por ela, seja lá por que for.
 

Alem disso, todo político parece um médico frustrado, pronto a passar um receituário para as patologias nacionais. Mas, se candidatam a médicos das doenças sociais e individuais, acabam se transformando em verdadeiros monstros que tripudiam sobre o pobre doente, receitando regime e sangria para todos. 

Se todos têm um pouco de médico e monstro, nos políticos isto ocorre em dois momentos distintos: 
é médico enquanto candidato, depois vira monstro quando eleitos.
 

Ainda que os políticos e a política coloquem-se como solução dos grandes problemas, são eles de fato o problema. Apropriando-se de legítimos interesses populares, acabam jogando uns contra os outros, e enquanto o povo se mata entre si, não consegue perceber as coisas ardilosas que os políticos fazem, eles fingem governar o desgoverno que eles próprios criaram.
(Velho Abade)