"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

março 24, 2015

‘Eu era o dono do orçamento’, afirma Paulo Roberto Costa

Por Julia Affonso, Beatriz Bulla, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, primeiro delator da Operação Lava Jato, disse à força-tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal que chegou à unidade estratégica da estatal para substituir um diretor indicado pelo PSDB no cargo. De acordo com Costa, a primeira reunião que teve com o ex-deputado José Janene (PP) – morto em 2010 – , foi em 2004 no Aeroporto Santos Dumont. Desse encontro, afirmou o delator, teria participado também o ex-deputado federal Pedro Correa (PP-PE).

O relato foi gravado em vídeo pela força-tarefa da Lava Jato em 11 de fevereiro deste ano. O ex-diretor é o primeiro delator do esquema de corrupção e propina instalado na estatal petrolífera e desbaratado 

Segundo Costa, o processo de cartelização das empreiteiras no setor de Abastecimento começou em 2006. Isto porque não havia obras sendo feitas por sua diretoria.

“Esse processo de cartelização começou não foi na minha área, porque eu não tinha obra. Esse processo de cartelização começou na área de plataformas, navios, sondas de perfuração, que tinham os recursos. Eu não ia fazer processo de cartelização de uma obra de R$ 20 milhões. O cara ia fazer processo de cartelização numa obra que custava R$ 500 milhões, R$ 1 bilhão”, disse.

O delator afirmou que entre 2004 e 2006, a interação entre ele e os ex-parlamentares foi ‘mínima’. Sem obras, não haveria como receber propina. O PP, com PT e PMDB, são suspeitos de lotear diretorias da Petrobrás para arrecadar entre 1% e 3% de propina em grandes contratos, mediante fraudes em licitações e conluio de agentes públicos com empreiteiras organizadas em cartel.

“Fiquei lá esse período, pouca coisa a ser feita. Obviamente que os políticos chegavam: ‘E aí, Paulo, quando vai ter (obra)?’. (Ele dizia) ‘Está fazendo projetos, deve ter licitação, possivelmente em 2006 pode começar a ter os projetos maiores e tal’”, afirmou. “Nesse meio de tempo, estava ocorrendo Mensalão, então, tinha recursos de outras fontes. O Mensalão estava em vigor, tinha outros recursos. De 2006 para frente começaram a aparecer outros projetos na minha área.”

À força-tarefa da Lava Jato, Costa disse que nenhuma empreiteira o procurou até 2006 para falar de cartel. Segundo o delator, ele ‘não tinha importância’.

“Você faz o que na área de Abastecimento? Eu era o dono do orçamento. Eu sou o responsável pelo orçamento, mas eu não sou o responsável pela contratação, pela execução, pelos aditivos”, afirmou. “A importância que o cara tem é orçamento, é dinheiro. Eu não tinha dinheiro, por que eles iam me procurar?”

Costa decidiu firmar um acordo de delação premiada em agosto do ano passado. Ele considerou que não tinha a menor chance de sair da carceragem de Polícia Federal, em Curitiba, onde ficou detido, tão cedo. Após contar o que sabia, ele deixou a prisão em setembro. Hoje, cumpre prisão domiciliar.

Estadão

VEJA O DEPOIMENTO DE PAULO ROBERTO COSTA NA ÍNTEGRA

O OCASO DE UMA PRESIDENTE

Nunca antes na história, uma presidente da República teve seu desempenho pessoal à frente do cargo tão desaprovado pela população. Hoje Dilma não seria eleita nem síndica

Mais uma pesquisa de opinião mostra a erosão da popularidade de Dilma Rousseff. Nunca uma presidente da República teve sua atuação pessoal tão reprovada pela população. Como corolário deste purgatório, se a eleição fosse hoje talvez nem houvesse segundo turno, com fragorosa derrota da petista para Aécio Neves. Quase 60% dos brasileiros vão ainda mais longe e defendem o impeachment da petista.

O levantamento feito pelo instituto MDA sob encomenda da CNT indica que 64,8% dos brasileiros têm avaliação negativa do governo da presidente, percentual praticamente igual aos 62% aferidos pelo Datafolha na semana passada. 77,7% reprovam o desempenho pessoal de Dilma como presidente, a pior marca já medida pelo instituto neste quesito.

"Os resultados mostram queda expressiva da popularidade da presidente e da avaliação do governo, em consequência, principalmente, da piora da situação econômica, do aumento da inflação e do custo de vida, do risco de desemprego, da piora nos serviços públicos e da corrupção, que passa a ser relacionada fortemente ao governo e à presidente da República", sintetizam os pesquisadores.

O espírito geral é de desalento. Quando questionados se o governo do PT pode melhorar sua atuação em cinco diferentes áreas (emprego, renda, saúde, educação e segurança), nunca mais de 15% dos entrevistados concordam com a possibilidade.

Quando o assunto é corrupção, Dilma aparece de mãos dadas com seu tutor. Para 69%, ela é culpada pela roubalheira descoberta na Petrobras, quase o mesmo percentual (68%) dos que acham que Lula também tem responsabilidade no cartório. Para 90%, a debacle econômica atual é decorrência da corrupção e da má gestão pública no país.

É expressivo o pessimismo dos brasileiros em relação ao futuro do país. Para 88% dos entrevistados, a economia brasileira está em retrocesso ou, na melhor das hipóteses, parada. Uma das maiores ameaças é a inflação: 68,7% acham que o governo do PT não manterá o compromisso com o controle dos preços.

São minoria os que põem fé nas medidas anunciadas por Dilma para reverter a crise que ela mesma criou ao longo do primeiro mandato. Para 66,9% dos pesquisados, as medidas tomadas atualmente pelo governo petista não serão capazes de tirar o país do buraco em que se encontra; 82,9% acham que Dilma não está sabendo lidar com a difícil situação.

Diante destes resultados, deverá ser fugaz o alento produzido pela decisão anunciada ontem pela Standard & Poor's de não rebaixar, por ora, a nota de crédito do Brasil. A agência aposta no êxito do governo em aprovar no Congresso o pacote de medidas amargas do arrocho fiscal. Se isso acontecer, Dilma Rousseff possivelmente atrairá a ira de muito mais gente. Trata-se de caso de raro ocaso precoce de uma presidente.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

O lado bom da crise. " A crise também é útil porque nos dá uma porrada na cara para deixarmos de ser bestas."

A crise é boa. Nada melhor do que uma crise para nos dar a sensação de que a vida muda, que a História anda, que a barra pesa. A crise nos tira o sono e nos faz alertas.

A crise nos faz importantes, nós, a opinião pública, nós, o “povo”, nós, os ex-babacas que viviam na sombra, na modorra e que de repente saíram batendo panelas nas ruas. Na crise no Brasil, a política fica visível para a população. A crise nos lembra a maldição chinesa: “que você viva em tempos interessantes” — por “tempos interessantes” se entenderia uma época de calamidade, guerras e instabilidade. A crise é boa porque acabaram as antigas crises cegas, radiofônicas, anos 1950. 

Hoje as crises são on-line, na internet, nos celulares com todos as roubalheiras ao vivo, imediatas, na velocidade da luz. A crise é uma aula, quase um videogame. A crise é um thriller em nossas vidas. A crise nos permite ver a verdade. Mas como — se todos mentem o tempo todo? A crise nos ensina a ver a verdade de cabeça para baixo, nos ensina que a verdade é o contrário de tudo o que dizem os depoentes, testemunhas e réus. A verdade está em tudo o que os políticos negam

A crise é boa para conhecer tipos humanos. Temos de tudo — uma galeria de personas, de máscaras, de bonecos de engonço, temos um reality show sobre o Brasil, temos o desfile de caras, de bocas, de mãos trêmulas, temos as vaidades na fogueira, os clamores de honradez, os falsos testemunhos, a lama debaixo das dignidades, temos os intestinos, os nós nas tripas, os miasmas que nos envenenam, sujeiras escorrendo pelas frestas da lei. E tudo vai diplomando o povo em Ciência Política. 

A crise é boa para acabar com a crença de que um operário tem uma aura de santidade e mostra que para ser presidente tem, sim, que estudar e ter competência. E nos mostra também o mal que um sujeito egoísta e deslumbrado pode fazer a um país. A crise nos mostra que o crime político não é um defeito, mas uma instituição. 

A crise nos espanta: 
como um partido consegue esquecer qualquer resquício de grandeza e contaminar as instituições? A crise nos ensina o horror do narcisismo totalitário. A crise nos ensina que os velhos“revolucionários” ficaram iguais aos piores políticos oligárquicos — ambos trabalham na sombra, na dissimulação, no cabresto dos militantes. A crise nos lembra que a burrice é uma “força da natureza’, como os ciclones e terremotos. Crise também é cultura. A crise é Brecht, Shakespeare e revista “Caras”. 

A crise acabou com a mistificação de que o PT era o partido dos “puros”, como muitos intelectuais acreditaram e continuam acreditando, com a fé inquebrantável do“mesmo assim”— quebraram a Petrobras e o país, mas “mesmo assim”, continuam acreditando, como religiosos: 
“Credo quia absurdum”(Creio mesmo sendo absurdo). 

A crise nos mostra que o petismo maculou as ideias de uma verdadeira esquerda no país, sequestraram as palavras, a linguagem romântica d’antanho. A crise prova que a velha esquerda ancorada no petismo não tem programa, nem projeto; tem um sonho que vira pesadelo. A crise acaba com os fins justificando os meios. A crise acaba com o “futuro” e nos traz o doce, o essencial presente. 

A crise nos ensina que ninguém se define apenas como “companheiros”, “comandantes”,“aventureiros”, “guerreiros do povo brasileiro”, pois as pessoas são compulsivas, agressivas, invejosas, narcisistas, fracassadas e com problemas sexuais. A crise nos ensina mais Freud do que Marx. A crise ensina que revolução no país tem de ser administrativa e não de ruptura e utopia.

 A “contemporaneidade”, esse “faz-tudo” do novo vocabulário, inventou a“utopia da distopia”. Nada como uma boa distopia para saciar nossa fome de certezas. A crise ensina que não adianta mostrar apenas os horrores da miséria dos desvalidos; a verdadeira miséria está nos intestinos da própria política. A crise nos mostra que existem fascistas de direita e de esquerda, que a verdadeira esquerda está em tudo o que é profundo e que a direita está em tudo o que é superficial — logo, o PT é de direita. 

A crise nos revela que o país (e a vida) é mais complexo do que a divisão“opressores e oprimidos” e que o capitalismo não é uma pessoa malvada para conscientemente nos destruir; capitalismo não é um regime político — é um modo de produção. A crise nos ensinou que a corrupção de hoje não é um pecado contra a lei de Deus — é um sistema, uma ferramenta de trabalho. 

A crise nos mostra que não há mais inocentes em Brasília — todos são cúmplices. E aprendemos que mesmo com terríveis expectativas para 2015, as ruas provaram que a história é intempestiva (Nietzsche) e marcha no escuro, quando nós dormimos. 

A crise nos lembra a frase de Baudrillard tão citada por mim:
“O comunismo hoje desintegrado tornou-se viral, capaz de contaminar o mundo inteiro, não através da ideologia nem do seu modelo de funcionamento, mas através do seu modelo de disfuncionamento e de desestruturação da vida social”, vide o estrago do PT e o novo eixo do mal da América Latina. A crise está abrindo nossos olhos. 

Ouso dizer que por vielas escuras e mal frequentadas a crise fará bem ao Brasil. A crise também é útil porque nos dá uma porrada na cara para deixarmos de ser bestas.

Arnaldo Jabor
O lado bom da crise

março 21, 2015

Empreiteira fecha acordo e denuncia cartel de empresas ligadas à Petrobras.Foram 22 empreiteiras acusadas, entre elas as três maiores do setor de construção: Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade e Gutierrez. Ao contrário, 15 firmas não participavam do esquema, segundo a Setal

Veja a lista de 22 empresas denunciadas pela Setal Engenharia e Setal Óleo e Gás (SOG), além dos funcionários e executivos ligados a elas, como Augusto Mendonça. Eles fecharam nesta sexta-feira um acordo de leniência no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), indicando um cartel de empreiteiras que atuava na Petrobras. O cartel era formado por 23 empresas, incluindo o grupo Setal. Ao contrário, eram 15 firmas que não participavam do esquema, segundo o acordo firmado com o Cade.
 
1. Construtora Norberto Odebrecht
2. Construções e Comércio Camargo Corrêa
3. Construtora Andrade Gutierrez
4. Construtora OAS
5. Engevix Construções
6. Galvão Engenharia
7. GDK
8. Iesa Óleo e Gás
9. Mendes Júnior Trading Engenharia
10. MPE Montagens e Projetos Especiais
11. Promon
12. Queiroz Galvão Óleo e Gás
13. Skanska Brasil Ltda
14. Techint Engenharia Construção
15. UTC Engenharia
16. Alusa Engenharia (atual Almini Engenharia)
17. Carioca Christiani Nielsen
18. Construcap CCPS Engenharia e Comércio
19. Fidens Engenharia
20. Jaraguá Engenharia e Instalações Industriais
21. Schahin Engenharia
22. Tomé Engenharia

A Setal e seus funcionários disseram que outras firmas “não participaram do cartel”:
Empresas não denunciadas

1. Niplan Construções e Engenharia 2. Egesa Engenharia
3. Sinopec
4. Usimec
5. Tenace
6. Potencial Engenharia e Construções
7. Enesa Engenharia
8. Confab Industrial
9. Encalso Construções
10. Technip Brasil Engenharia Instalações e Apoio Marítimo
11. Contreras Empreendimentos e Construções
12. MCE Engenharia
13. TKK Enegnharia
14. Serveng – Civilsan S/A Empresas Associada de Engenharia
15. Toyo Engeneering Co.


A Andrade Gutierrez negou participação no cartel da Petrobras.
Em nota enviada ao Correio na noite de hoje, a assessoria da empresa disse que as acusações da Setal perante o Cade são “ilações indevidas”. A Andrade Gutierrez repudia as ilações indevidas que vêm sendo feitas sobre a suposta participação em cartel e reitera, como tem feito desde o início da Operação Lava Jato, que não tem ou teve qualquer envolvimento com os fatos relacionados com as investigações em curso”, afirma a empreiteira.
 
É importante ressaltar que não há qualquer tipo de prova sobre a participação da AG nesse suposto cartel e que todas as acusações equivocadas vem sendo feitas em cima de ilações e especulações.” A Odebrecht veem negando “veementemente” qualquer participação em ilícitos. “A empresa reafirma que todos os contratos que mantém, há décadas, com a Petrobras, foram obtidos por meio de processos de seleção e concorrência que seguiram o estabelecido na legislação vigente”, afirmou em uma das ocasiões.

 “A Odebrecht não participa e nunca participou de nenhum tipo de cartel.” Dois executivos da Camargo Corrêa prestam delação premiada ao Ministério Público. Em nota, a empreiteira disse que irá colaborar com as investigações e “sanar eventuais irregularidades”.
Correio Braziliense

março 19, 2015

LATIFÚNDIO DE NULIDADES

Num ministério de 39 pastas, é significativo que um quarto delas possa ser objeto de mudança com menos de três meses de gestão.

 É um governo que só serve a si mesmo
A fugaz passagem de Cid Gomes pelo Ministério da Educação diz muito sobre a qualidade das escolhas e sobre os critérios que orientam a montagem da equipe de governo de Dilma Rousseff.

Na "pátria educadora", o ministro ontem demitido fez tudo menos o bem para a área que deveria comandar. Mas Gomes não destoa do resto do time. Sob o comando da presidente petista, a Esplanada é um latifúndio de nulidades.

Nos 76 dias em que chefiou o MEC, Cid Gomes conseguiu instalar a balbúrdia no Fies, o programa que financia cursos universitários; paralisar o Pronatec, antes vitrine das propagandas dilmistas; e levar boa parte das universidades federais à penúria.

A pasta da Educação também perdeu R$ 7 bilhões no orçamento deste ano e tornou-se a mais prejudicada pela tesoura do ajuste fiscal. Não se ouviu de Dilma uma palavra de reprovação a estes descaminhos.

A presidente terá agora de escolher o quinto ministro da Educação a ocupar o cargo em pouco mais de quatro anos. Não há política educadora que resista. Não surpreende que a gestão de Cid "parecia uma transição que não terminava nunca", como resumiu O Globo.

A saída do ministro da Educação deve precipitar a reforma ministerial de um governo que sequer completou 80 dias. Se todas as peças que estão sendo cogitadas no xadrez político neste momento forem mexidas, nada menos que dez pastas mudarão de mãos.

Estão na dança desde nulidades absolutas, como a Secretaria da Pesca, até a mais importante pasta da Esplanada, a Casa Civil. Podem mudar também os titulares da Defesa, das Relações Institucionais, da Integração Nacional, do Turismo, da Comunicação Social, da Aviação Civil, da Ciência e Tecnologia e dos Portos.

Num ministério mastodôntico de 39 pastas, é muito significativo que um quarto delas já possa ser objeto de alteração decorridos menos de três meses de gestão. A constatação óbvia é: Afinal, para que servem tantos ministérios, tantos cargos, tantos partidos a compor a instável base de sustentação no Congresso? As possíveis respostas são as mais desabonadoras possíveis.

Mas uma delas pode ser encontrada nas pregações que Rui Falcão fez ontem em reunião fechada com a bancada de deputados petistas. O presidente do PT deu sua receita para aplacar a pressão sobre o governo: cortar as verbas publicitárias de veículos que "apoiaram" e "convocaram" as manifestações de domingo.

O "caos político" e a nulidade da equipe de governo são traduzidos à perfeição quando se vê o presidente do partido do governo sugerir que dinheiro público seja usado na mesma "guerrilha política" que a Secretaria de Comunicação defendera em documento vazado anteontem. Não restam dúvidas: estamos diante de um governo que só serve a si mesmo.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

“Fiz vários depósitos para Fernando Collor”, disse Youssef

Em delação premiada complementar, feita em fevereiro deste ano, o doleiro Alberto Youssef, personagem central da Lava Jato, afirmou ao Ministério Público Federal que entregou diversas vezes dinheiro para o senador e ex-presidente (1990/1992) Fernando Collor (PTB-AL). A delação, dividida em vários depoimentos, foi gravada em vídeo. O arquivo com as imagens de Youssef depondo foi incluído nos autos da Lava

O senador e ex-presidente Fernando Collor nega ‘qualquer relação’ com Youssef. O doleiro disse que funcionários seus entregaram quantias em espécie na casa do parlamentar em Alagoas e em um apartamento em São Paulo. Segundo Youssef, um emissário de Collor teria ido a seu escritório receber dinheiro. O ex-presidente é investigado pelo Supremo Tribunal Federal.

“Eu fiz vários depósitos para o Fernando Collor e isso já faz algum tempo. Creio que 2010, 2011, não me lembro. Não sei precisar a data”, disse Youssef. “Não sei especificar exatamente os valores. Mas teve vez que foi R$ 200 mil, R$ 300 mil. Sempre mais ou menos nesses valores.”
O procurador-geral da República Rodrigo Janot aponta “indícios veementes” de crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo Collor. Ele pediu que o senador seja ouvido para que “apresente sua versão sobre os fatos”.

Na petição encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), em que pede investigação sobre o envolvimento de Collor com o doleiro Alberto Youssef, o chefe do Ministério Público apontou a existência de comprovantes de depósitos bancários apreendidos com o doleiro.

Youssef afirmou que um emissário seu foi a Alagoas ‘umas 4 ou 5 vezes’ entregar dinheiro a Collor e que um emissário do senador foi a seu escritório buscar dinheiro ‘umas 4 ou 5 vezes ou mais’. O doleiro disse que nunca teve contato diretamente com o parlamentar, apenas com o funcionário dele.

Segundo ele, um ex-ministro de Collor, que chama de PP, pediu para que desse dinheiro ao senador. Youssef afirma que o ex-ministro foi seu cliente de 2008 até sua prisão (em março de 2014) e tinha uma conta com ele. O doleiro está preso na carceragem da PF em Curitiba, base das investigações da Lava Jato.

“O meu relacionamento com o Collor nessa questão de valores sempre foi por intermédio do PP. Nunca teve outra pessoa que tivesse pedido pra eu entregar alguma coisa ao Collor”, disse. “(PP) tinha conta corrente comigo e pediu que eu fizesse um depósito nessa conta, que era do Fernando Collor. Como também pediu que eu entregasse dinheiro em espécie na casa do Fernando Collor”, afirmou.

Youssef falou ainda que ‘neste meio de políticos que eu frequentava, se dizia que o Collor tinha uma diretoria na BR”. “Qual diretoria era e qual diretor indicado por ele eu não posso dizer, porque eu não sei.”

Blogs Fausto Macedo
Por Julia Affonso, Beatriz Bula e Talita Fernandes

março 18, 2015

PAULO ROBERTO DA COSTA : Renan e Jucá sabiam do cartel e defendiam empreiteiras


Em vídeo gravado pela PGR (Procuradoria Geral da República) no último dia 11 de fevereiro no Rio de Janeiro, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto da Costa afirmou que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e o senador Romero Jucá (PMDB-RR) sabiam da cartelização das empreiteiras na Petrobras e defendiam que elas continuassem ganhando obras na estatal do petróleo.

"Qual era o interesse desses políticos? Que as empresas do cartel ganhassem. Porque se elas ganhassem, revertia uma parte para eles. Outra coisa que eu falei lá nos depoimentos, essas empresas do cartel não trabalham só para a Petrobras. Essas empresas do cartel trabalham para portos, aeroportos, hidrovias, ferrovias. O interesse deles é tudo, não é só Petrobras", disse Costa.

"[...] A minha área de abastecimento era a ponta do iceberg", afirmou o ex-diretor, que fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público e a Polícia Federal. Ele contou que mantinha reuniões mensais com os senadores Renan e Jucá. Esses encontros teriam ocorrido nas casas e nos gabinetes dos dois parlamentares em Brasília.

Um dos procuradores responsáveis pelo depoimento quis saber "qual seria a contrapartida" dos senadores Renan e Jucá para o apoio que deram para que Costa permanecesse em seu cargo na Petrobras, no primeiro trimestre de 2007. "Ajudar no que fosse possível o partido", respondeu o delator. "Ajudar o partido, igual a abordagem do PP?", inquiriu o procurador. "Mesma coisa", respondeu Costa.

No depoimento, porém, Costa disse que não recebeu um pedido direto dos parlamentares por recursos desviados da Petrobras.

Costa contou que foi indicado ao cargo pelo PP (Partido Progressista), mas o apoio do PMDB surgiu depois que ele ficou entre a vida e a morte em dezembro de 2006, após ter contraído malária, acrescida a uma crise de pneumonia, e três gerentes da Petrobras começarem a cobiçar o seu cargo.

O ex-diretor começou a sentir os sintomas da malária logo após voltar de uma viagem à Índia, num voo entre Brasília e o Rio. Ele chegou à sede da Petrobras "tremendo, febril" e de lá foi encaminhado ao hospital Barra d'Or.

"Isso foi numa quinta-feira. [Na] sexta-feira, final do dia, eu tinha entrado em coma. No sábado, a Petrobras mandou chamar um dos maiores infectologistas do Brasil, que é lá de São Paulo, hoje é secretário de Estado de São Paulo, David Uip. Ele me examinou, eu estava em coma, entubado, ele me examinou na CTI, chamou os médicos e depois chamou minha mulher de lado e falou: 'Olha, a chance de ele sobreviver é de 5%'. Falou na lata para a minha mulher. 'Cinco por cento. Só se Deus quiser. Porque a medicação que ele está tomando é correta, está tudo certo, mas a chance dele é mínima'."

Costa disse que ficou cerca de três meses fora do trabalho. Nesse período, os três gerentes –dentre os quais Venina Velosa e, mais fortemente, Alan Kardec– "fizeram 'n' contatos políticos", segundo o então diretor.

"Porque se não for politicamente, não chega lá. Politicamente, para ficar no meu lugar", contou Costa. Nesse momento, disse o ex-diretor, uma parte do PMDB apareceu para lhe ajudar, com conhecimento do PP. "Nesse meio tempo, o PMDB do Senado resolveu me apoiar. Porque tem o PMDB do Senado e o da Câmara", explicou Costa.

O primeiro contato, segundo o ex-diretor, foi por meio do deputado federal Aníbal Gomes (PMDB-CE), que lhe procurou na Petrobras, dizendo falar em nome do senador Renan. A partir daí, Costa disse ter se reunido inúmeras vezes com os parlamentares.

"Então eu tive muitos contatos com Romero Jucá e muitos contatos com Renan Calheiros. Foram na casa do senador Renan e muitos contatos no gabinete, tanto dele quanto do Romero. Lá no Senado", rememorou o ex-diretor.

Costa disse que a ação do PMDB ocorreu para que fosse contida a expansão do PT nos cargos mais altos da Petrobras. "Porque se eles me tirassem naquele momento [do Abastecimento], ia assumir outro PT. Aí era PT na Gás e Energia, PT na Exploração e Produção, PT na Área de Serviço e PT na área de Abastecimento. Ia ficar PT de ponta a ponta. E obviamente que o PMDB também não queria isso", disse Costa.

OUTRO LADO

Em nota divulgada no último dia 6, quando o ministro Teori Zavascki, relator dos casos derivados da Operação Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), mandou abrir inquérito para investigá-lo, Renan Calheiros negou qualquer envolvimento nas irregularidades investigadas pela força-tarefa da PF e do Ministério Público Federal.

"Nas democracias, todos –especialmente os homens públicos­– estão sujeitos a questionamentos, justos ou injustos. A diferença está nas respostas. Existem os que têm o que dizer e aqueles que não. Quanto a mim, darei todas as explicações à luz do dia e prestarei as informações que a Justiça desejar. Minhas relações junto ao poder público nunca ultrapassaram os limites institucionais. Jamais mandei, credenciei ou autorizei o deputado Aníbal Gomes, ou qualquer outro, a falar em meu nome, em qualquer lugar. O próprio deputado já negou tal imputação em duas oportunidades", afirmou Renan, na nota.

Procurado pela Folha, o deputado Aníbal disse que primeiro precisaria ter acesso a todos os documentos no STF para depois se manifestar. No início de março, em entrevista à Folha antes do pedido de inquérito protocolado pelo Ministério Público no STF, Aníbal disse que conhecia Paulo Costa, mas negou qualquer irregularidade.

Jucá, que ocupa o cargo de segundo vice-presidente do Senado, disse à imprensa no último dia 7 de março que primeiro analisaria todos os dados do inquérito no STF para depois se manifestar.

RUBENS VALENTE/GABRIEL MASCARENHAS
DE BRASÍLIA
Folha

Cid é demitido, afirma presidente da Câmara

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), acaba de anunciar a saída do ministro Cid Gomes (Educação) do governo da presidente Dilma Rousseff.

"Comunico à Casa o comunicado que recebi do chefe da Casa Civil comunicando a demissão do ministro da Educação, Cid Gomes", disse Eduardo Cunha na tarde desta quarta-feira (18). A decisão foi tomada após uma sessão conturbada no Congresso, onde Gomes foi convocado a prestar esclarecimentos sobre fala de que a Casa tem grande maioria de achacadores.

Folha

DILMA DERRETE


Collor que se cuide. 
Cada vez mais impopular, Dilma caminha para lhe fazer companhia como presidente que teve que deixar o Planalto pela porta dos fundos

Neste fim de verão, o sol já não brilha mais tão inclemente, mas Dilma Rousseff derrete a olhos vistos. A pesquisa do Datafolha publicada hoje a torna a presidente mais mal avaliada da história da República em época de normalidade democrática. Os brasileiros têm motivos de sobra para detestar a petista cada vez mais.

Segundo a pesquisa, 62% dos brasileiros consideram o governo Dilma ruim ou péssimo. Apenas Fernando Collor foi pior avaliado pela população, mas seu recorde de 68% só foi alcançado às vésperas do impeachment, em setembro de 1992. Seis meses antes, ele ainda tinha apenas 48% de desaprovação, o que é hoje uma miragem para Dilma.

A popularidade da presidente esvaiu-se em todas as faixas salariais e em todas as regiões do país. Qualquer que seja o nível de renda, Dilma é desaprovada por pelo menos 60% da população. Ao redor do Brasil, sua média de ruim ou péssimo é sempre superior aos 51% aferidos no Norte, chegando a 75% no Centro-Oeste.

Os números jogam definitivamente por terra a tese furada de petistas - sendo o mais patético deles o ministro Miguel Rosseto - de que só eleitores da oposição se sentem insatisfeitos com o desgoverno da presidente. A grita é ampla, geral e irrestrita, alimentada pelos sentimentos de frustração, de desalento e de revolta.

Mas o Datafolha mostra que, para os entrevistados, o que está ruim pode ficar ainda pior. Para 60% da população, a situação da economia ainda vai degringolar mais, com alta do desemprego (66%) e da inflação (77%). Não está mole para ninguém.

Mesmo os eleitores de Dilma têm percepção negativa do governo dela e comungam praticamente das mesmas expectativas negativas quanto ao futuro do país expressada pela média dos brasileiros. Numa pesquisa interna da Secretaria de Comunicação, desde as eleições 32% mudaram de opinião negativamente em relação ao governo. Pelo Datafolha, a desaprovação da presidente subiu 42 pontos desde outubro passado.

O documento oficial sugere qual deve ser a receita para tirar Dilma do corner: gastar mais dinheiro público com publicidade, especialmente para convencer os eleitores de São Paulo, e abastecer a "guerrilha política" e seus "soldados" com munição – entenda-se também verbas – distribuída pelo governo.

Como o que mais gostam é de desviar dinheiro pago pelo contribuinte, é fratricida no governo a briga para transferir para a mão de petistas a verba a ser despejada na publicidade oficial. Convenhamos: quem criou o mensalão e o petrolão entende do assunto...

Diante do quadro atual de descontrole e descalabro e da erosão de popularidade de Dilma, Fernando Collor que se cuide. A petista caminha para lhe fazer companhia como presidente da República que teve que deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos, execrada pelos brasileiros.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

TCU decide apurar atos dos conselhos de Administração e Fiscal da Petrobrás

O plenário do Tribunal de Contas da União (TCU) determinou nesta quarta-feira, 18, que a área técnica do tribunal analise a atuação dos conselhos de administração e fiscal em todos os casos que envolvam deliberações da Petrobrás analisados pela Corte de Contas. O ministro substituto André Luis de Carvalho justificou sua proposta ao afirmar que é preciso que o tribunal verifique "se os referidos conselhos praticaram atos de gestão ruinosa ou deixaram de atuar com cuidado."

O ministro André Luis afirmou que há no TCU 40 processos sobre a Petrobrás em análise na área técnica. Desses, 10 têm conexão com Pasadena e 15 com investigações da Operação Lava Jato, que desvendou esquema de corrupção na petroleira. Inicialmente, são nesses casos que a condução dos conselhos será analisada. "(A análise será) Em cada processo inerente a falhas na gestão da Petrobrás que a área técnica se manifeste sobre a responsabilidade dos conselhos de administração e fiscal", continuou o ministro.

O ministro pede ainda que os técnicos do tribunal "se manifestem conclusivamente nos pareceres sobre a responsabilidade de membros do conselho de administração e fiscal" da estatal. A sugestão foi acatada pelos demais ministros da corte de contas.

Presidido por Dilma em 2006, o conselho da Petrobrás contava com Silas Rondeau, Guido Mantega, Sérgio Gabrielli, Gleuber Vieira Arthur Sendas, Roger Agnelli, Fábio Barbosa e Jorge Gerdau. 
Carvalho vinha insistindo para que o conselho que aprovou a aquisição da refinaria americana de Pasadena, em 2006, fosse integralmente chamado para prestar esclarecimentos sobre o caso. Isso significaria chamar a presidente Dilma Rousseff para dar explicações. 

A presidente Dilma Rousseff presidiu o conselho de administração de 2003 a março de 2010, época em que a compra de Pasadena foi aprovada, entre outras ações. Em nota aoEstado, Dilma disse no ano passado que aprovou a compra bilionária com base num resumo que não continha cláusulas que se mostraram danosas à petroleira posteriormente. Delator do esquema de corrupção na Petrobrás, Paulo Roberto Costa, contou à Justiça que recebeu US$ 1,5 milhão de propina para não atrapalhar como diretor de Abastecimento a compra da refinaria.

A tentativa de convocar Dilma, no entanto, foi rejeitada pelo plenário. Nesta quarta o ministro apresentou uma nova proposta e conseguiu o apoio dos demais membros da corte. Um advogado da Petrobrás chegou a protestar contra a decisão, sob alegação de que as auditorias estariam apontando responsabilidades por irregularidades antes mesmo de o processo ser concluído. A defesa da estatal disse ainda, na tribuna, que a proposta do ministro André "sugestiona" que os conselhos de administração e fiscal tiveram responsabilidade, além de suas atribuições. O plenário, no entanto, manteve o apoio à sugestão.

André Luiz de Carvalho argumentou que não se trata de julgamento prévio, mas de apuração de fatos e eventuais responsáveis. Na prática, portanto, Dilma não será convocada para explicar o caso Pasadena.

Andreza Matais, André Borges e Murilo Rodrigues Alves - O Estado de S. Paulo