"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

fevereiro 06, 2015

Partido dos Trambiques, 35 Anos‏

As novas revelações da Operação Lava Jato sugerem que o PT pode ter reincidido nos mesmos crimes confessados por Duda Mendonça quando flagrado na CPI dos Correios

O partido do mensalão e do petrolão comemora hoje seus 35 anos de fundação. Não será surpresa se a celebração de aniversário estiver sendo paga com parte do meio bilhão de reais recebidos como propina pelos petistas ao longo dos últimos dez anos. Assim é a festa do PT desde que chegou ao poder: bancada com dinheiro sujo.

A revelação de que US$ 200 milhões podem ter sido desviados de contratos da Petrobras para as contas do PT faz parte de uma espécie de linha evolutiva do partido. Tudo começou com licitações de ônibus e lixo quando os petistas só haviam conseguido governar municípios e, após a conquista do poder federal, foi ganhando proporção.

Desde a Land Rover de Silvio Pereira à dinheirama em profusão que a Polícia Federal e o Ministério Público desvendam agora, o que mudou foi a dimensão: o carro custava alguns milhares de reais e hoje só se fala em bilhões de dólares. Os negócios à sombra do poder prosperaram e os cofres do partido encheram.

As campanhas eleitorais petistas ilustram o enriquecimento. Quando Lula foi eleito, em 2002, o partido gastou R$ 21 milhões. Na reeleição dele, já com o poder à disposição, foram R$ 85 milhões, valor que chegou a R$ 350 milhões no ano passado, o dobro da primeira vitória de Dilma Rousseff. Parece bem claro o nexo causal entre as novas revelações da Operação Lava Jato e a escalada. Ou não?

Desde a chegada do PT ao poder, o pagamento de propinas dentro da maior empresa brasileira tornou-se "algo endêmico e institucionalizado", segundo a delação feita por Pedro José Barusco. No centro das operações estava João Vaccari Neto, o tesoureiro que substituiu o hoje presidiário Delúbio Soares na função de arrecadador do partido.

O mesmo Vaccari já se meteu em desvios que lesaram mais de 3 mil mutuários do Bancoop em até R$ 170 milhões, quando era presidente do sindicato dos bancários de São Paulo. O mesmo Vaccari esteve na coordenação da primeira campanha de Dilma e até 15 dias atrás tinha assento no conselho de administração de outra gigante estatal, a Itaipu Binacional. Que funções ele cumpria lá?

As novas revelações da nona fase da Operação Lava Jato sugerem que o PT pode ter sido reincidente nos mesmos crimes confessados por Duda Mendonça quando flagrado na CPI dos Correios, em 2005: lavagem de dinheiro, crimes de ordem tributária e, sobretudo, eleitoral, pela suspeita de terem financiado as últimas campanhas petistas.

Assombra que, diante de tamanho descalabro, a presidente da República tenha buscado uma solução para a Petrobras para "agradar e não ferir suscetibilidades do PT", enquanto os petistas hipotecam solidariedade e prometem desagravo a Vaccari, porque ele "nunca pôs dinheiro no bolso". Com tanta desfaçatez, o Partido dos Trabalhadores deveria aproveitar a festa de hoje e rebatizar-se. Fica uma sugestão: 
Partido dos Trambiques.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

GAMBÁ CHEIRA GAMBÁ ! Aldemir Bendine, do Banco do Brasil, vai assumir a presidência da Petrobrás


O atual presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, vai assumir o comando da Petrobrás no lugar de Graça Foster, que renunciou ao cargo em meio ao desgaste provocado pelas denúncias de corrupção investigada pela Operação Lava Jato. Segundo fontes do governo, esta foi a solução encontrada para tentar estancar a crise da empresa.

Após surgirem especulações sobre a indicação de Bendine, as ações da Petrobrás voltaram a registrar queda na manhã desta sexta-feira, 6. O Conselho de Administração da empresa está reunido nesta manhã em São Paulo para definir a composição da nova diretoria da estatal. A expectativa é que a Petrobrás anuncie oficialmente os nomes apenas no fim da tarde, após o fechamento dos mercados.

Bendine é presidente do BB desde abril de 2009, antes mesmo do início do governo Dilma e é nome de confiança do ex-presidente Lula. No fim de outubro, reportagem do jornal Folha de S. Paulo revelou que o Banco do Brasil aprovou concessão de crédito no empréstimo de R$ 2,7 milhões feito para a apresentadora de TV e socialite Val Marchiori. De acordo com a publicação, a empresária é amiga de Aldemir Bendine. Por meio de nota, o banco informou não haver ilegalidade na operação.

O Planalto teve menos de 48 horas para escolher o novo presidente da estatal, depois de Graça Foster e outros cinco diretores formalizarem o pedido de renúncia dos cargos, na quarta-feira, 4. A presidente Dilma Rousseff já havia sinalizado a troca atual diretoria, mas a troca só ocorreria após a aprovação do valor perdido em razão dos desvios na estatal. A companhia divulgou o último balanço financeiro sem essa informação.

Além de Bendine para a presidência, o governo decidiu também transferir para a diretoria Financeira da estatal o atual vice-presidente de Gestão Financeira e de Relações com Investidores do Banco do Brasil, Ivan de Souza Monteiro. Dilma dará a Bendine, que está neste momento em São Paulo, liberdade para escolher o restante da equipe. O vice-presidente de negócios de varejo do Banco do Brasil, Alexandre Corrêa Abreu, vai assumir a presidência da instituição.

Murilo Rodrigues Alves - O Estado de S. Paulo

fevereiro 05, 2015

O conjunto da obra‏



O PT e sua política equivocada para o setor do petróleo transformaram a Petrobras numa empresa à beira da bancarrota, sem credibilidade, sem crédito e agora até sem comando


Recomenda-se a quem for convidado para dirigir a Petrobras que se inteire antes sobre a visão que a presidente da República tem sobre a empresa e sobre a política que desenvolve para o setor de petróleo no país. Não precisa ir muito longe, porque há menos de dez dias ela a expôs em detalhes na Granja do Torto.

Se Dilma Rousseff acredita mesmo no que disse na reunião ministerial da semana passada, a nova diretoria da Petrobras terá poucas chances de êxito. Nada vai mudar, porque a petista crê que está fazendo tudo certo. O conjunto da obra é uma lástima.

Segundo a presidente, a empresa que ontem viu sua diretoria pedir demissão "vinha passando por um rigoroso processo de aprimoramento de gestão". Esta mesma empresa vale hoje um terço do que valia cinco meses atrás e produz o mesmo tanto que previa produzir há nove anos, segundo o primeiro plano de negócios feito pelos petistas no poder.

Na Granja do Torto, disse Dilma que a estatal tem "a mais eficiente estrutura de governança e controle que uma empresa estatal, ou privada já teve no Brasil". Esta mesma companhia reconheceu na semana passada ter se metido em maus negócios, corrupções e equívocos que podem ter lhe custado R$ 88,6 bilhões ou um terço do seu patrimônio.

A petista manifestou, ainda, profissão de fé no marco regulatório adotado no país desde 2010: "Temos de apostar num modelo de partilha para o pré-sal, temos de dar continuidade à vitoriosa política de conteúdo local".

Esta ruinosa política está levando a Petrobras a rever seu padrão de exploração de petróleo "ao mínimo necessário" e a cortar seus investimentos em 30%, conforme o plano de ação expresso por Graça Foster há apenas uma semana - agora demitida por falar a verdade.

Foi responsável, ainda, por duas quedas seguidas na produção da companhia (em 2012 e 2013) e por repetidos resultados financeiros negativos, ao mesmo tempo em que a estatal se transformava na empresa mais endividada do mundo. O setor de petróleo como um todo está parado no Brasil.

A Petrobras é um dos equívocos, o maior deles, do governo do PT na área de energia. Justamente o feudo de Dilma. Justamente aquele setor em que tudo, absolutamente tudo, está dando errado. Onde a presidente pôs a mão deu choque.

Nem Dilma, nem o PT sabem como sair desta enrascada e, assim, vemos repetir-se na Petrobras o padrão de solução petista: quando a situação aperta, recorre-se a gente de fora do partido, incapaz de resolver os problemas que cria. Foi assim com Joaquim Levy, agora responsável até por dar jeito no balanço da estatal; deverá ser assim com a nova diretoria.

Depois de hesitar por meses, Dilma tem agora poucas horas para achar uma saída. Difícil. O PT e sua política equivocada para o setor do petróleo transformaram a Petrobras numa empresa sem credibilidade, sem crédito, sem sequer um balanço para chamar de seu e agora até sem comando. Um monstrengo sem pé nem cabeça, à beira da bancarrota.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

fevereiro 04, 2015

Acabou a Graça

O buraco em que a Petrobras foi metida pelas escolhas do PT e as barbeiragens de Dilma obrigam a rediscussão do modelo de negócios adotado para o setor de petróleo desde 2007

A impropriedade de manter Maria das Graças Foster na presidência da Petrobras era flagrante há meses. Mas Dilma Rousseff, com sua peculiar inaptidão, a preservou no cargo, sangrando ainda mais a empresa. É mais uma das irresponsabilidades cometidas pela presidente da República contra a estatal, pelas quais ela terá logo, logo que responder.

A saída de Graça do comando da Petrobras - e, segundo algumas versões, também do resto da diretoria e de todo o conselho de administração - pode representar novo alento para a empresa. Mas a simples substituição da presidente e da direção não dará jeito no descalabro que levou a companhia a erigir uma dívida de R$ 331 bilhões e a perder, em apenas cinco meses, R$ 205 bilhões, ou 2/3, de seu valor de mercado.

A Petrobras está vergada sob o peso da corrupção, de um modelo de negócios falido e do fardo regulatório que lhe embaça os horizontes. Dona de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, não tem capacidade para extraí-lo - segundo Graça, com a crise em que a estatal se meteu, a exploração terá de ser reduzida "ao mínimo necessário".

Sob a direção de Graça e o controle direto de Dilma, a Petrobras tem desempenho sofrível perto de suas concorrentes. Desde que as cotações de petróleo mergulharam em todo o mundo, as petroleiras têm tido dificuldades, mas nada que se compare com a empresa brasileira.

Segundo o CBIE, entre setembro e o fim de janeiro, o barril havia caído 44% (nos últimos dias, ensaiou uma recuperação), enquanto a Petrobras perdera 55% de seu valor. Suas principais concorrentes globais resistiram: 
Exxon, Shell e Chevron encolheram, em média, apenas 13%. 
Ou seja, mais do que à crise global, a Petrobras sucumbe a seus próprios erros e aos equívocos da política local.

O fundo do fundo do poço em que a Petrobras foi metida pelas escolhas do PT e as barbeiragens de Dilma suscitam a necessidade de se rediscutir o modelo de negócios adotado para o setor de petróleo no Brasil desde 2007. Não basta apenas profissionalizar a gestão da companhia.

É preciso também acabar com a obrigatoriedade de a estatal participar de todos os consórcios de exploração do pré-sal e ser a operadora única dos poços de águas ultraprofundas. Menos recomendável ainda é perseverar no modelo de partilha e na política de conteúdo nacional que torna os negócios de petróleo no país ainda mais custosos.

Em seu discurso de posse, Dilma Rousseff disse que a Petrobras é vítima de "predadores internos" e "inimigos externos". 
A presidente não precisa dar sequência à sua teoria conspiratória.
 Basta que não faça com o resto do país o que tem feito com a estatal: 
esperar que ela chegue, degringolada, à beira do abismo antes de tomar alguma atitude.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

Recomeça a barganha

Ameaças, por um lado, e acenos com cargos no segundo escalão do governo, por outro, não foram suficientes para evitar a vexaminosa derrota do PT na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados. Mas os inquilinos do Palácio do Planalto só conhecem esse modo de fazer política e, agora, é a vez de exercer pressões e prometer benesses para recompor a tão famosa quanto frágil base de apoio no Parlamento.

A ironia dessa história é que, comprovada acima de qualquer dúvida a influência do deputado fluminense Eduardo Cunha sobre os outros membros da Casa disponíveis para um acordo com o governo, serão agora ele próprio e seu grupo dentro do PMDB que certamente mais se beneficiarão com a distribuição de prebendas com as quais a presidente Dilma Rousseff pretende amenizar as agruras de sua convivência com a Câmara dos Deputados. O PT e a presidente da República, definitivamente, não vivem seus melhores momentos.

Ao aparecer com cara de poucos amigos na solenidade de reabertura dos trabalhos do Congresso Nacional na segunda-feira, o principal arquiteto do desastrado plano de jogar toda a pressão do governo Dilma sobre os deputados para evitar a vitória de Eduardo Cunha, o ministro Aloizio Mercadante, da Casa Civil, anunciou: "A partir deste momento começam as negociações com os partidos para definir o segundo escalão e buscar combinar o critério técnico com o critério político do apoio parlamentar no Congresso".

Explicou ainda o ministro-chefe da Casa Civil que essa nova etapa será realizada "sob o comando da presidente Dilma, ela que vai evidentemente decidir essa distribuição de cargos". Colocada nesses termos a coisa até parece normal. Mas não é.

A articulação política e a formação de alianças fazem parte do jogo democrático. E, embora sejam perfeitamente admissíveis acordos pontuais, a ideia implícita no princípio da aliança política é que ela se construa sobre programas e propostas de governo. Conquistar apoios na base da troca de favores, o chamado toma lá dá cá, como é o caso da distribuição de cargos que Mercadante anuncia, tem outro nome: fisiologismo.

O governo petista, de qualquer modo, já deixara explícita sua intenção, reiterada agora pelo chefe da Casa Civil, de reservar os cargos do segundo escalão para o toma lá dá cá, ao anunciar, em janeiro, que isso seria feito após eleitos os presidentes do Senado e da Câmara. Ou seja, o governo pretendia, como o fez, intervir em questões do Legislativo, tentando aliciar entre os deputados, em troca da promessa de nomeações para cargos públicos, eleitores para seu candidato à presidência da Câmara, o deputado paulista Arlindo Chinaglia.

O ministro Aloizio Mercadante vem agora, sem corar, com a conversa de que o segundo escalão do governo será montado mediante a combinação do "critério técnico da competência com o critério político do apoio parlamentar no Congresso". Como se o que menos tem interessado ao governo da sua chefe Dilma Rousseff - que preside um desastre econômico e administrativo iniciado há mais de quatro anos e parece continuar - não venha sendo a competência técnica dos funcionários que nomeia.

Com a intenção ainda de conferir uma aura de respeitabilidade ao troca-troca, Mercadante garantiu que a operação será realizada "sob a condução" de Dilma. Mais uma vez, não é bem assim. É claro que ela tem a palavra final sobre as nomeações. Mas trata-se de centenas de escolhas que, por mais centralizadora que seja, Dilma não conseguiria fazer sozinha. O que significa que terá de confiar nas indicações de ministros e assessores.

E da presidente em exercício não se deve esperar mais do que ela já demonstrou ser capaz de dar nos últimos quatro anos. Se tentou livrar-se de maus auxiliares no início do seu governo, logo desistiu da "faxina". O padrão administrativo da sua gestão é representado pelo desastre das contas públicas e dos índices econômicos. O padrão ético está sendo revelado no "petrolão".

O Estado de S.Paulo

A indústria arrasada


Devastada no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, a indústria produziu no ano passado menos do que em 2011, quando ela iniciou seu governo, e menos até do que em 2010, último ano de seu antecessor e inventor de sua candidatura. Com a produção deprimida nas fábricas, o setor de energia emperrado e a Petrobrás destroçada pela corrupção e pelos erros administrativos, a economia brasileira entra em 2015 muito enfraquecida e com baixíssimo potencial de crescimento. 

Só em março deverão ser conhecidos os números finais do Produto Interno Bruto (PIB) de 2014, mas os dados da produção industrial já proporcionam uma boa ideia do desastre. O setor ainda é a alavanca principal de dinamismo econômico do Brasil e a fonte mais importante de empregos decentes. Quando fraqueja, como nos últimos quatro anos, o ritmo geral dos negócios é afetado e a economia perde qualidade.

No ano passado, a produção geral da indústria diminuiu 3,2%, segundo informou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Houve recuo em todas as grandes categorias - bens de capital, bens intermediários e bens de consumo de todas as classes. O desempenho do setor oscilou ao longo do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, mas prevaleceu a tendência de enfraquecimento.

Em 2011, a produção foi 0,4% maior que em 2010. Recuou 2,3% em 2012, cresceu 2,1% em 2013 e voltou a diminuir em 2014. Feito o balanço dos avanços e recuos, a indústria produziu no ano passado 3,05% menos que em 2010. Não foi um acidente, mas o desdobramento normal de um processo de enfraquecimento.

Nesses quatro anos a indústria perdeu mais do que impulso. Perdeu também potencial de crescimento e capacidade de competir. Não foi apenas um período de conjuntura adversa, embora a presidente Dilma Rousseff tenha insistido, o tempo todo, em atribuir os problemas brasileiros à crise internacional. Entre 2011 e 2014, o setor se debilitou por insuficiência de investimento, como também mostram os números divulgados pelo IBGE.

A fabricação de bens de capital - máquinas e equipamentos - aumentou 5% em 2011, diminuiu 11,2% em 2012, cresceu 12,2% em 2013 e encolheu 9,6% no ano passado. Resultado da oscilação: em 2014, o segmento de bens de capital produziu 5,43% menos que em 2010, último ano do segundo mandato do presidente Lula.

Em todos os trimestres a produção de bens de capital para a indústria foi menor que a de um ano antes. Os recuos foram de 3,8%, 8,4%, 3,1% e 1,1%, na comparação de cada período com o trimestre correspondente do ano anterior. Ao longo do ano também diminuiu a fabricação de máquinas e equipamentos para agricultura, transporte, energia, construção e uso misto. Isso se reflete na redução geral do investimento, já indicada nos cálculos do PIB até o terceiro trimestre de 2014.

O quadro se completa com os dados de importação. No ano passado foram gastos US$ 47,71 bilhões com bens de capital importados. Esse valor foi 7,6% menor que o de 2013, pela média dos dias úteis.

O cenário geral da economia brasileira é, portanto, de enfraquecimento. Algum segmento poderá ter tido um desempenho melhor, mas o quadro mais amplo é negativo. O investimento tem sido baixo há muito tempo e a nova queda, em 2014, apenas agravou a tendência à perda de produtividade.

No ano passado, a exportação de manufaturados, no valor de US$ 80,21 bilhões, foi 13,7% menor que a do ano anterior. Parte dessa queda é explicável pela crise argentina, mas a excessiva dependência do mercado argentino também resulta de um erro político.

A balança comercial brasileira de certa forma resume dois conjuntos de erros. Os de estratégia comercial e de diplomacia econômica foram cometidos entre 2003 e 2014. Os de política industrial e de crescimento econômico ocorreram em todo o período petista, mas agravaram-se nos primeiros quatro anos da presidente Dilma Rousseff, com a insistência nos incentivos e nos favores a grupos selecionados. 

Os números da indústria são a prova mais visível do fracasso dessas políticas.

O Estado de São Paulo

fevereiro 03, 2015

Loucuras com o Dinheiro Público

Nunca antes na história o país gastou tanto recurso público para se endividar. O meu, o seu, o nosso dinheirinho foi usado e abusado para reeleger Dilma Rousseff

O governo petista promoveu uma verdadeira farra do boi no ano passado com recursos públicos. O meu, o seu, o nosso dinheirinho foi usado e abusado para reeleger a presidente Dilma Rousseff. O exame dos resultados fiscais revela o tamanho da loucura e da irresponsabilidade.

Comecemos pelo aumento astronômico da dívida bruta do governo, melhor parâmetro para indicar a saúde financeira de um país. Em apenas um ano, a alta foi de 6,7% do PIB. O percentual, porém, diz menos que a cifra correspondente: a dívida cresceu incríveis R$ 504,4 bilhões em apenas 12 meses. Não é assustador?

Considerando os quatro anos do primeiro mandato, a dívida bruta saiu de 53,4% para 63,4% do PIB. Em termos nominais, subiu R$ 1,24 trilhão. A questão que fica é: onde foi parar toda esta dinheirama?

A escalada não deve parar aí: 
segundo o próprio governo, a relação entre dívida bruta e PIB deve subir para 65,2% até o fim deste ano, em função de um monte de esqueletos fiscais que estão sendo tirados dos armários onde foram guardados pela contabilidade criativa de Dilma e seus economistas de segunda linha.

As contas públicas fecharam o ano passado no vermelho, pela primeira vez desde que o país passou a adotar regras mais rígidas de responsabilidade fiscal. Com isso, o déficit nominal atingiu 6,7% do PIB. A maior parte do rombo deve-se a dinheiro gasto para pagamento de juros: em apenas um ano, foram R$ 311,4 bilhões, o maior valor da história.

Só com desonerações tributárias, o governo abriu mão de R$ 104 bilhões. A medida seria até bem-vinda num país de carga tributária recorde. Mas ninguém sabe, ninguém viu aonde foram parar estes benefícios, já que nem mais emprego nem mais renda produziram.

Tudo no desempenho fiscal da petista nos últimos anos é de amargar. Há R$ 226 bilhões lançados em restos a pagar no Orçamento da União para este ano. Ou seja, é como se houvesse um orçamento para o ano e outro vagando paralelo na estratosfera. Contas assim não fecham nunca.

Este verdadeiro descalabro administrativo e financeiro teve sua razão de ser: 
o governo abriu as torneiras dos gastos públicos para manter artificialmente políticas e programas destinados a gerar dividendos eleitorais na campanha pela reeleição de Dilma. A recessão de agora paga a gastança de outrora. 
É assim que governa o PT.

É preciso dar um basta a isso e começar a impor limites mais rígidos ao gasto público e ao endividamento do governo. A propaganda oficial pode até querer convencer a população de que ela sai ganhando quando a despesa aumenta. Mas no fim das contas é o contrário: 
o que sobra para o cidadão é a conta, e cada vez mais salgada.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

A trindade 'impossível' de 2015

O ano começou bem desafiador para a economia brasileira. Normalmente diríamos que estamos diante de uma tempestade perfeita. Mas isso literalmente seria bom se a tempestade viesse com chuvas que enchessem os nossos reservatórios. Digamos apenas que os vários riscos para a economia brasileira se estão materializando.

A economia deve enfrentar escassez de água, racionamento de luz, um legado pior nas contas externas e públicas, o impacto das investigações da Operação Lava Jato e dificuldades políticas. Não por coincidência, as perspectivas de crescimento para o primeiro trimestre e para o ano de 2015 já se encontram em terreno negativo. Com esse começo pior, o que muda nas perspectivas para o ano? 

Certamente torna mais difícil implementar simultaneamente os vários ajustes necessários na economia brasileira. E não são poucos: retomar a credibilidade da política fiscal, atingir o centro da meta de inflação, realinhar os preços administrados, diminuir o déficit externo, eliminar outras distorções existentes e conquistar a confiança para a retomada do crescimento.

Os ajustes são custosos no curto prazo. A retomada da credibilidade fiscal exige aumento da poupança pública, ou seja, corte de despesas ou aumento de impostos; o realinhamento em direção ao realismo tarifário deve elevar a inflação para acima do teto da meta; e a melhora nas contas externas requer uma taxa de câmbio mais depreciada, que afeta a inflação. Sem falar que direcionar a inflação para o centro da meta no ano que vem pode exigir juros maiores.

Nada que não deva (e possa) ser feito. Afinal, o custo no presente é mais do que compensado por ganhos futuros, com a recuperação da credibilidade, o aumento de investimento e a retomada do crescimento. Mas os ajustes econômicos precisam de convicção e apoio político. E quanto maior a dificuldade econômica no curto prazo, mais escassos eles se tornam.

Arrisco dizer que estamos diante de uma trindade impossível na economia brasileira este ano. Talvez não impossível, mas bem desafiadora. A trindade "impossível" consiste em 1) atingir plenamente a meta fiscal, 
2) apertar a política monetária para atingir o centro da meta de inflação no ano que vem e 3) manter o apoio político às medidas econômicas. 
A previsão é de que uma das três não venha a ser cumprida.

As trindades ditas impossíveis têm tradição em economia. São combinações de políticas que os economistas não acreditam que possam ocorrer simultaneamente. Um exemplo clássico é a ideia de que países não podem simultaneamente controlar sua taxa de juros, ter câmbio fixo e liberdade de movimentação de capitais. Quando o câmbio é fixo e o capital é livre para se movimentar entre países, a taxa de juros acaba sendo determinada pelas condições internacionais.

A trindade "impossível" brasileira decorre das condições iniciais piores do que o esperado. O déficit de 0,6% do produto interno bruto (PIB) no ano passado só foi divulgado bem depois de anunciado o compromisso com a meta de superávit primário de 1,2% para este ano. O duro ajuste fiscal de 1% do PIB agora precisa ser de 1,8% para atingir a mesma meta. E a alternativa de não cumpri-la é pior. 

Com a dívida pública bruta alcançando 63,4% do PIB e o déficit nominal em 6,7% (um dos maiores do mundo), é necessário recuperar a credibilidade fiscal e evitar a perda do grau de investimento determinado pelas agências de risco, com o consequente aumento substancial do custo de financiamento do Brasil.

Se o ajuste necessário é mais duro que o projetado, a economia está mais frágil do que era esperado. A fraqueza da economia em dezembro tem impacto no primeiro trimestre deste ano. Com a confiança dos empresários ainda em baixo patamar, a confiança dos consumidores em seu menor nível histórico e os estoques altos na indústria, não há sinais de recuperação no primeiro trimestre deste ano.

Outros fatores contribuem negativamente. No setor de petróleo, os cortes em investimento e a redução na projeção de crescimento da produção vão impactar a atividade econômica. As dificuldades envolvendo algumas construtoras impactarão o ritmo de execução de suas obras de infraestrutura no curto prazo.

Somando tudo, projeta-se uma queda do PIB este ano de pelo menos 0,5%.

E há ainda riscos de racionamento de água e energia para a frente. A fraqueza das chuvas durante janeiro pode levar à necessidade de cortes adicionais no uso de água em importantes centros do Sudeste. Além disso, há o risco de racionamento de energia elétrica. Um racionamento conjunto de água e energia elétrica teria um efeito adicional sobre o crescimento do PIB de pelo menos -0,5 ponto porcentual.

Nesse contexto de atividade fraca, o objetivo da política monetária é outro desafio. O compromisso de fazer o que for necessário para atingir o centro da meta de inflação de 4,5% já no ano que vem é louvável e desejável. Mas pode exigir um aumento ainda maior de juros este ano, enfraquecendo ainda mais a atividade.

A fraqueza da economia não sinaliza necessariamente uma perspectiva favorável na inflação, ao menos na parte da alta que decorre de choques de oferta e aumentos de preços regulados. É provável que a inflação de administrados ultrapasse 10% este ano, levando a inflação para acima do teto da meta. É claro que devemos observar uma desinflação de preços de serviços, mas talvez não na magnitude desejada.

Em condições iniciais piores, o desafio é ter apoio político aos ajustes necessários na economia tanto pelo lado fiscal quanto monetário. Faz todo o sentido o apoio a ajustes que levem a uma recuperação mais rápida. Mas não me surpreenderia se, ao longo do ano, algum ajuste fosse adiado, como o de atingir o centro da meta de inflação já no ano que vem. Aí não seria mais a trindade "impossível".

ILAN GOLDFAJN 

Ilan Goldfajno é economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco

Uma enxurrada de aumentos

Com o poder de compra já erodido pela inflação do ano passado, o consumidor teve de enfrentar no começo de 2015 uma enxurrada de aumentos de preços administrados. Represados por longo tempo, alguns por dois anos, esses preços começaram a ser liberados já em 2014, mas a abertura da comporta ainda se prolongará por algum tempo. O efeito da liberação, especialmente sensível no mês passado, está refletido nos primeiros indicadores de preços. O Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S), elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, subiu 1,73% no mês passado e 7,66% em 12 meses. 

O IPC-S cobre um período equivalente a quatro semanas e é atualizado semanalmente. Metade da variação, 0,85 ponto porcentual, foi produzida pelos aumentos de tarifas de ônibus, contas de eletricidade, cigarros e custos de escolas formais. Em 12 meses, a inflação dos administrados chegou a 17,49%, como observou o coordenador das pesquisas de preços da FGV, o economista Paulo Picchetti.

A presidente Dilma Rousseff recorreu amplamente ao represamento de preços administrados na metade final de seu primeiro mandato. Foi uma forma de disfarçar as pressões inflacionárias - truque semelhante ao usado na maquiagem das contas públicas, a chamada contabilidade criativa. A contenção política das tarifas de energia elétrica foi um dos truques mais notórios. Mas o represamento foi bem mais extenso. Já era usado - e continuou em vigor - para os preços dos combustíveis, causando sérios danos ao fluxo de caixa da Petrobrás. 

Além disso, foi estendido, por meio de pressão política, às tarifas de transporte público, administradas por prefeitos e governadores. Um aumento dessas tarifas deveria ter ocorrido em São Paulo em 2013, mas foi adiado depois de protestos e da intervenção da presidente da República. Só recentemente as passagens foram reajustadas.

Em janeiro, o custo da alimentação, o mais importante na formação do IPC-S, variou menos que outros componentes. Entre a primeira e a última quadrissemana do mês, a alta de preços dos alimentos passou de 1,41% para 1,64%. A da habitação, onde se inclui o custo da eletricidade, foi de 1,21% para 2,01%. A de transportes, de 0,8% para 2,39%. A de educação, leitura e recreação, de 0,79% para 4,15%, refletindo a forte correção de contratos sujeitos à indexação.

A inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), será divulgada na sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O IPCA subiu 0,78% em dezembro e 6,41% no ano passado. No mercado financeiro, a mediana das expectativas para o resultado de janeiro ficou em 0,97% na sexta-feira passada, segundo a pesquisa Focus, realizada semanalmente pelo Banco Central (BC). A pesquisa foi divulgada ontem.

A projeção do mercado é pouco pior que o aumento efetivo registrado nas duas primeiras semanas do mês e mostrado pelo IPCA-15, uma prévia do indicador oficial. A alta nas quatro semanas encerradas em 15 de janeiro ficou em 0,89%. O maior impacto foi provocado pelo aumento de 1,45% dos preços de alimentação e bebidas. O efeito dos preços administrados será provavelmente mais sensível na formação do número final do mês, como no caso do IPC-S.

Na pesquisa Focus, a mediana das projeções para a alta dos preços administrados ficou em 9% na última semana. Quatro semanas antes, estava em 7,85%. Também os dirigentes do BC projetam uma forte elevação desses preços nos próximos meses, como foi indicado na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável principal pelo combate à inflação.

Segundo a pesquisa Focus, o IPCA deve subir 7,01% neste ano, bem acima do limite de tolerância, de 6,5%. Essa expectativa poderá justificar novos aumentos de juros pelo Copom. Além disso, a evolução dos preços dependerá em parte da arrumação das contas do governo. Combinados, o aperto monetário e o ajuste fiscal poderão limitar o contágio dos aumentos de preços administrados e deixar a economia mais preparada para o retorno ao crescimento.

O Estado de S.Paulo

fevereiro 02, 2015

Uma cunha no poder do PT‏



Não bastassem as ameaças que veem da economia em recessão e dos temores das investigações sobre o petrolão, também falta a Dilma sólido apoio político no Congresso

A vitória de Eduardo Cunha na disputa pela presidência da Câmara dos Deputados é mais um fator de instabilidade para o governo Dilma Rousseff. Não bastassem as ameaças que veem da economia em recessão e dos temores das investigações na Justiça sobre o petrolão, falta-lhe também sólido apoio político no Congresso.

A derrota sofrida ontem na Câmara foi acachapante. Arlindo Chinaglia, o petista candidato do Planalto, recebeu apenas metade dos votos do pemedebista: 267 a 136. Parte dos deputados do bloco que o apoiou formalmente - que tem 180 parlamentares - sequer votaram nele.

Por pouco o candidato oficial não ficou atrás do nome do PSB, Julio Delgado, que obteve 100 votos, provando a coerência do apoio do PSDB ao socialista - praticamente toda a bancada dos quatro partidos que apoiavam o socialista, com 106 votos, votou nele. A disputa acabou em primeiro turno, com a vitória de Cunha.

A derrota petista revela-se ainda mais fragorosa em razão do empenho do entorno da presidente pela eleição de Chinaglia. Mais uma vez, métodos espúrios foram utilizados, com pressão de ministros, promessas de liberação de verbas orçamentárias e acenos de cargos. Como resposta, o candidato vitorioso prometeu aprovar o orçamento impositivo para emendas parlamentares.

O time de articuladores de Dilma, com Aloizio Mercadante à frente, padece dos mesmos males da presidente: a arrogância, a inabilidade, a inexperiência no trato político. Com o resultado colhido ontem na Câmara, parece claro que a petista terá dificuldades para fazer caminhar seus pleitos entre os parlamentares. No Senado, uma bancada de oposição fortalecida também não lhe dará refresco.

Dilma inicia este segundo mandato como uma presidente envelhecida. Não há vigor algum a impulsionar-lhe nos próximos quatro anos. Pelo contrário. O que há é o desgaste de uma administração que tem se mostrado inepta, corrupta e irresponsável. Os descalabros nas mais diversas áreas são reflexo disso.

O resultado da eleição na Câmara também permite alimentar a expectativa de uma relação mais equilibrada entre os poderes da República, sem a preponderância dos interesses do Executivo sobre o Legislativo, como tem sido a norma nos anos de poder petista. Para completar, da Justiça espera-se máximo rigor na apuração dos malfeitos que têm aflorado.

Há uma lista enorme de projetos de interesse da sociedade brasileira que precisam ser encaminhados e discutidos no Congresso, e que agora poderão ter tramitação mais desimpedida sem a ascendência excessiva do Planalto sobre a pauta legislativa. A começar por uma nova investigação sobre os descalabros na Petrobras.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela