"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

setembro 22, 2011

AS TAXAS DO P artido T orpe.

A recriação da CPMF foi ferida de morte ontem com a votação da regulamentação da Emenda Constitucional nº 29 pela Câmara.

Mas ainda não foi a bala de prata. O PT votou a favor da ressurreição do tributo e vai insistir em avançar no bolso do contribuinte. É o partido das taxas em ação.


A proposta de criação do novo tributo chegou ao Congresso em 2008, enviada pelo governo Lula. Um destaque apresentado pelo DEM inviabilizou-o:
o texto aprovado ontem retira a base de cálculo sobre a qual incidiria a Contribuição Social para a Saúde, a reencarnação da CPMF.
Sem ela, não há imposto novo.


Dos deputados, 355 votaram contra o novo tributo e 76 a favor - quase todos do PT. Derrotados na Câmara, os petistas vão tentar emplacar a nova CPMF no Senado, justamente onde o "imposto do cheque" foi derrubado pela oposição em dezembro de 2007. Não agem isoladamente; têm o aval do governo para isso.

A presidente da República não quer se expor ao desgaste da criação de um imposto, ainda mais um tão famigerado quanto a CPMF. Ao longo das últimas semanas, ela protagonizou um jogo de idas e vindas para despistar seu desejo de contar com mais recursos em caixa. Mas as reais intenções são cristalinas: impor nova carga ao contribuinte.

"Nesta novela, Dilma Rousseff tenta ficar apenas com um papel coadjuvante, de quem faz o diagnóstico sobre a situação da saúde brasileira e suas necessidades de mais recursos para se tornar um serviço de ponta. O fato é que Dilma quer novas fontes de recursos para a saúde", analisa Valdo Cruz na Folha de S.Paulo. Não restam dúvidas quanto a estas pretensões.

Nos últimos dias, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ocupou-se em divulgar seguidos "estudos" indicando a necessidade de mais recursos para financiar a saúde. Num deles, mostrava que a regulamentação da EC 29, tal como estava o texto, retira R$ 6 bilhões do setor, por excluir o Fundeb dos cálculos. O Senado deve corrigir isso.

Noutro, acusou parte dos estados de não cumprir o que estabelece a emenda, ou seja, a aplicação de 12% de suas receitas em saúde. E, anteontem, trouxe a público levantamento que sugere que o Brasil precisaria gastar mais R$ 45 bilhões - quase exatamente o que se arrecadava com a CPMF em 2007 - para equiparar-se aos investimentos de vizinhos como Chile e Argentina no setor.

Ou seja, o governo tenta disseminar na opinião pública a impressão de que não se melhora a saúde sem arrancar mais dinheiro dos cidadãos. Mas não mostra a menor disposição para fechar os ralos da corrupção, que drenaram pelo menos R$ 2,3 bilhões do setor nos últimos nove anos, nem para melhorar a eficiência dos gastos.

Dinheiro de impostos, convenhamos, há, e muito. Aumentos nas alíquotas de tributos como CSLL e IOF mais que compensaram a perda de arrecadação da CPMF desde 2007, mostrou a (Folha de S.Paulo) na segunda-feira. Pelas estimativas oficiais, a receita total da União deverá chegar perto de 20% do PIB até dezembro, já descontados repasses obrigatórios para estados e municípios. Um recorde absoluto.

A previsão de receita do governo federal para este ano é de R$ 997 bilhões. O valor da nova estimativa foi divulgado pelo Tesouro nesta semana e confirma todos os prognósticos de que o governo do PT, o partido das taxas, arrecada como nunca. Só em relação ao bimestre anterior (o terceiro), o aumento foi de R$ 25 bilhões.

Vejamos qual foi o comportamento da arrecadação ao longo da gestão petista. Ela só caiu em 2003 e 2009.

Nos demais exercícios, houve seguidos aumentos reais, ou seja, sempre acima da inflação:
10,6% em 2004;
5,65% em 2005;
4,48% em 2006;
11,09% em 2007;
7,68% em 2008;
e 9,85% em 2010.


Continua assim neste ano.
Entre janeiro e julho últimos, foram arrecadados R$ 67 bilhões a mais do que nos sete primeiros meses de 2010, já descontada a inflação do período.
O aumento real é de 14%. Vale lembrar que apenas cerca de 7% deste bolo vai para a saúde...


A despeito de tudo isso, a regulamentação da EC 29 é uma vitória da saúde pública. A proposta chegou ao Congresso em 2000, no bojo de uma mobilização suprapartidária liderada pelo então ministro da Saúde, José Serra.

Resta agora ao governo do PT, o partido das taxas, cumprir o que diz a lei, sem assaltar, mais uma vez, o bolso do contribuinte.


Fonte: Instituto Teotônio Vilela

setembro 21, 2011

BANCO CENTRAL EM XEQUE : VOOS, ROUPAS, MOTEL. ESTÁ TUDO MAIS CARO.


Os preços do dólar romperam ontem a barreira psicológica de R$ 1,80 ao longo do dia e deixaram o Banco Central em uma situação ainda mais desconfortável.

Apesar de, oficialmente, o governo mostrar simpatia pela recuperação da moeda norte-americana, já que as cotações atuais tendem a favorecer as exportações, há um temor generalizado quanto ao impacto dessa arrancada sobre a inflação, que, em 12 meses, atingiu 7,33% e se distanciou muito do teto de 6,5% definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

O dólar em alta contamina toda uma cadeia de preços: alimentos, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, viagens ao exterior, aluguéis e tarifas públicas, esses últimos por meio dos Índice Gerais de Preços (IGPs).

Ontem, a moeda dos Estados Unidos registrou a terceira alta consecutiva contra o real e avançou 0,81%, cotada a R$ 1,790 — o maior nível em 15 meses. Apenas em setembro, a divisa acumula valorização de 12,42%. No ano, a alta é de 7,48%.

Caso o dólar atinja R$ 2, como estimam alguns especialistas, ou se a crise mundial piorar e ele bater nos R$ 2,40 — a exemplo de 2008, quando o Lehman Brothers quebrou, espalhando caos pelo mundo —, a missão de manter os preços sob controle será algo quase impossível para um BC que já enfrenta dificuldades para conter os reajustes dos alimentos.

"Entendemos que a recente alta do dólar, não compensada por uma redução na mesma magnitude dos preços internacionais das commodities, eleva o risco de a inflação ao consumidor se manter acima de 6,5% por um período mais prolongado", alertou Nilson Teixeira, economista-chefe do Banco Credit Suisse.

"O repasse dessa valorização (da moeda norte-americana) para os preços tende a ser verificado, em um primeiro momento, nos índices ao produtor", explicou. Em setembro, até a segunda semana, os preços à indústria avançaram 0,59% e os agropecuários, 1,33%.

Constantin Jancson, economista do HSBC, faz coro com Teixeira. "A desvalorização do real nas últimas semanas, caso se sustente, e sem um declínio correspondente nos preços das commodities, constitui um risco significativo para a inflação, especialmente se considerarmos a força da demanda doméstica e o aperto no mercado de trabalho", observou.

A despeito de toda a alta do dólar registrada até agora, analistas têm dificuldade de prever qual o limite para essa elevação. O consenso, entretanto, é de que a moeda continuará subindo enquanto a Grécia estiver sob o risco de decretar um calote na sua dívida e as condições fiscais na Europa se mantiverem em deterioração.

Mas se a disparada do dólar representa um abalo para o controle da inflação, traz também tranquilidade aos exportadores e para a parte do governo que os defendem. "É bom para nós. O dólar está recuperando o patamar que já teve e que é razoável para a economia brasileira.

Essa pequena desvalorização do real nos últimos dias é muito boa para as nossas exportações", defendeu, em Nova York, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Fernando Pimentel.

A seu ver, a economia brasileira tende a melhorar muito com o "pequeno ajuste" da moeda norte-americana.

No bolso
Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, a primeira consequência da escalada do dólar ao bolso do consumidor é o preço de viagens ao exterior. "É o único item que será afetado imediatamente", observou.

Ele prevê, entretanto, que produtos importados, como eletrônicos, fiquem mais salgados ao longo do tempo, já que os componentes importados vão encarecer esses produtos.

"Talvez essa alta não seja repassada a esses produtos, caso o dólar continue no patamar atual ou registre queda. Se o real continuar se desvalorizado, há um prazo mínimo de três meses para pressionar os preços, pelo menos até o fim dos estoques atuais", analisou.

Para Agostini, não há como prever o comportamento do mercado financeiro pelos próximos meses. "Vale lembrar que a crise do euro está puxando o dólar e, por isso, tudo pode acontecer até o fim do ano", observou.

Todo esse cenário de incerteza no exterior fez os investidores trocarem suas estratégias. Eles passaram a empreender uma corrida por ativos mais seguros, como a divisa norte-americana e os títulos do Tesouro dos EUA — situação que tem puxado a cotação do dólar para cima.

Perdas
Ontem, a Bolsa de Valores de São Paulo (BMF&Bovespa) amargou perdas de 1,27% e fechou aos 56.378 pontos. Apesar do volume de negócios de R$ 6,2 bilhões, a bolsa paulista não resistiu ao clima de incertezas que permaneceu elevado, principalmente em relação à Europa.

VICTOR MARTINS Correio Braziliense

setembro 20, 2011

FMI reduz previsão de crescimento para o Brasil em 2011



Em seu mais recente relatório sobre a economia mundial, divulgado nesta terça-feira em Washington, o FMI (Fundo Monetário Internacional) reduziu para 3,8% a projeção de crescimento para o Brasil neste ano.

As incertezas sobre a recuperação da economia mundial também provocaram uma rodada de revisões nas expectativas para a expansão global.

De acordo com as previsões reunidas no relatório World Economic Outlook ("Perspectivas da Economia Mundial", em tradução livre), o Brasil terá o segundo menor crescimento na América do Sul neste ano, ficando atrás somente da Venezuela (com previsão de 2,8%) e abaixo da média da região, de 4,9%.

Segundo o FMI, o avanço do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro também será menor que a média prevista para as economias emergentes e em desenvolvimento (6,4%) e para o crescimento global como um todo (4%), mas ainda ficará à frente da previsão para as economias avançadas, de apenas 1,6%

A nova estimativa representa uma queda de 0,3 ponto percentual em relação à previsão anterior do FMI, de 4,1%, divulgada em junho, e está abaixo da expectativa do governo brasileiro, mas ainda acima do esperado pelo mercado.

Apesar de, oficialmente, o governo brasileiro ainda manter a expectativa de crescimento de 4,5% para o PIB (Produto Interno Bruto) neste ano, a própria presidente Dilma Rousseff já declarou recentemente que o governo faria "um esforço para chegar a 4%, quatro e pouco (%)".

O mercado é menos otimista e, o mais recente Boletim Focus (levantamento semanal do Banco Central com base em consultas ao mercado), divulgado na segunda-feira, reduziu pela sétima semana consecutiva sua projeção de crescimento para a economia brasileira, passando de 3,56% para 3,52%.

Para 2012, o FMI manteve inalterada sua projeção para o crescimento da economia brasileira, em 3,6%, ligeiramente abaixo dos 3,7% previstos pelo mercado.

Inflação

O FMI afirma que, no geral, a perspectiva para as economias emergentes voltou a ser "incerta", em parte como reflexo de um cenário mundial menos favorável, especialmente nos Estados Unidos e na Europa.

No Brasil, economistas já vêm apontando a piora no cenário externo como um dos fatores para o crescimento menor, ao lado da desaceleração na indústria, provocada especialmente pela valorização do real frente ao dólar e das medidas adotadas pelo governo para conter a inflação.

O Banco Central do Brasil espera trazer a inflação para o centro da meta, de 4,5% (com margem de dois pontos percentuais para cima ou para baixo), até o fim de 2012.

A projeção do FMI, no entanto, é de que a inflação brasileira chegue a 6,6% em 2011 - acima dos 6,46% projetados pelo mercado e levemente acima do teto da meta, de 6,5% - para retroceder a 5,2% em 2012 (abaixo dos 5,5% previstos pelo mercado).

Riscos

Assim como em relatórios anteriores, o FMI voltou a apontar riscos do rápido aumento do crédito e de preços e da forte entrada de capital estrangeiro verificados no Brasil e em muitas economias da América Latina após a crise mundial de 2008.

"É necessário manter a vigilância para limitar os riscos à estabilidade financeira", diz o relatório.

Ao citar o Brasil ao lado de outros emergentes que enfrentam problemas semelhantes, o FMI afirma que "os riscos à estabilidade financeira em todas essas economias devem ser monitorados por algum tempo, devido ao grande volume de crescimento de crédito nos últimos cinco anos".

No caso do Brasil, medidas para restringir a concessão de crédito estão entre as ferramentas usadas pelo governo para tentar controlar a inflação.

Desde 2010, o governo também já adotou diversas medidas para tentar conter o fluxo excessivo de capital estrangeiro, que provoca a valorização do real frente ao dólar e acaba reduzindo a competitividade das exportações brasileiras.

O FMI reconhece essas medidas adotadas pelo governo, mas recomenda que o Brasil e outros países também tenham como uma de suas prioridades a reversão do deficit público.

Estadão

NA REPÚBLICA MAMBEMBE : Feriado para o planejamento

É com o famoso "jeitinho brasileiro" que o
governo Dilma Rousseff pretende enfrentar os problemas e desafios advindos do Mundial de 2014.

A divulgação da Lei Geral da Copa, ontem, cinco meses após o prazo inicialmente previsto, indica que o improviso mantém-se como a principal marca dos preparativos oficiais para o torneio de futebol.


O governo petista arrumou uma forma de driblar os contratempos que a realização dos jogos deve causar a metrópoles insuficientemente preparadas para grandes eventos: decretar feriados nas datas dos jogos.

A medida visa compensar o atraso nas obras de mobilidade urbana previstas para a Copa e que, ao que tudo indica, não sairão do papel a tempo. Será uma forma de esvaziar as ruas e tentar evitar o caos no trânsito.

É assim, na base de remendos, que o Brasil do PT vai se aprontando para um evento para o qual teve quase oito anos para se preparar, mas, passados quatro anos, quase nada fez até agora. É a cultura da improvisação.

Encarregada de "planejar" os investimentos com vistas à Copa, a ministra Miriam Belchior não vê problema algum em as obras relacionadas à melhoria e expansão de linhas de trens, monotrilhos, metrôs, corredores de ônibus e vias urbanas não estarem prontas a tempo para o torneio.

"As obras de mobilidade são importantes, mas como legado. Não são essenciais para o funcionamento da Copa do Mundo. Se eu der feriado no dia do jogo, a cidade vai estar em condições de não ter trânsito para a locomoção dos torcedores", justificou ela, em sua peculiar visão do que é fazer planejamento.

Belchior diz que o importante é garantir os estádios e os hotéis, bem como os aeroportos e os portos (onde as obras hoje são também uma miragem). Ela só não explica como um visitante que eventualmente desembarque e se hospede sem problemas no país vai se locomover aos estádios sem as obras de mobilidade. Só dando feriado para o planejamento.

Conforme balanço oficial divulgado na semana passada, de um total de 49 obras de mobilidade urbana, só nove foram iniciadas até agora, o que dá menos de 20%. Das 40 restantes, três estão em fase de projeto, 27 por licitar e três encontram-se em licitação. Ou seja, o que a Copa de 2014 poderia trazer de herança bendita para os brasileiros provavelmente ficará para as calendas.

Em seus 46 artigos, a Lei Geral da Copa também traz outros pontos polêmicos.
A meia entrada para idosos foi assegurada, mas para estudantes não.

A venda de bebidas alcóolicas - cujos efeitos benéficos em termos de diminuição da violência em estádios são evidentes - será permitida nos jogos do torneio.

A atividade de ambulantes nas proximidades das arenas será proibida.
Tudo no intuito de satisfazer a Fifa.


Não é só na parte legal que os organizadores oficiais da Copa exibem improviso. Na financeira a situação é muito pior. Ninguém no governo federal sabe ao certo quanto a realização do evento vai custar ao país: as estimativas variam de R$ 23,4 bilhões a R$ 112 bilhões. Disse ontem a ministra do Planejamento a respeito: "Eu desconheço qual é o valor que vai custar a Copa do Mundo no Brasil. Não há nenhum estudo que diga isso."

A justificativa oficial para o alto grau de improvisação é que apenas em 2009 as cidades-sede da Copa foram definidas. Sim, mas era pule de dez que metrópoles como São Paulo,
Rio,
Belo Horizonte,
Porto Alegre,
Salvador,
Recife,
Fortaleza
e Brasília não teriam como ficar fora da lista.
Havia, portanto, margem suficiente para a ação preventiva do governo.


Se para a Copa, que está logo ali, a menos de mil dias, já há um rosário de demonstrações de má gestão, para as Olimpíadas de 2016 não é diferente.

Mostra
( O Globo ) hoje que uma das empresas estatais criadas especialmente para o evento - a surreal "Empresa Brasileira de Legado Esportivo Brasil 2016" - será extinta antes mesmo de ver a luz do sol. Mas não sem antes pagar meses de jetons aos integrantes de seu conselho de administração, entre eles a notável planejadora Miriam Belchior.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

EFEITO CACHAÇA! DÁ-LHE GERENTONA/FRENÉTICA/EXTRAORDINÁRIA HOJE "PRESIDENTA" : Déficit comercial da indústria cresce 50% e chega a US$ 30 bi .

O aumento do déficit reflete não só o crescimento de importações em ritmo mais acelerado que as exportações, mas também uma dependência maior dos segmentos industriais que ainda contribuem com superávits para a balança comercial.

De janeiro a agosto de 2005, dos 22 setores analisados, 13 tinham saldo comercial positivo. No acumulado dos oito primeiros meses deste ano, apenas seis contribuíram com superávit.

Desses, somente três segmentos - produtos alimentícios, celulose e metalurgia básica - responderam por 92,5% desse superávit.


Rogério César de Souza, economista-chefe do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), diz que os segmentos industriais que ainda seguram o saldo positivo são de baixo valor agregado.

"São setores que têm em básicos agrícolas ou metálicos alta representatividade na composição do preço dos produtos. Por isso, estão muito mais vulneráveis às oscilações de preços das commodities, o que torna seus saldos favoráveis ainda mais frágeis."


A concentração de superávits em poucos setores ocorreu porque segmentos que antes contribuíam para a balança comercial da indústria com saldos positivos acabaram trocando o sinal de seus resultados comerciais e hoje entram na conta apresentando déficits significativos.

O setor de produtos têxteis, por exemplo, fechou os oito primeiros meses de 2005 com superávit de US$ 413,6 milhões. No mesmo período deste ano, o segmento teve déficit de US$ 1,63 bilhão.

O setor de veículos automotores teve uma trajetória mais impressionante.
Na mesma base de comparação, o segmento passou de um superávit de US$ 4,44 bilhões em 2005 para um déficit de US$ 4,88 bilhões neste ano.


Fernando Ribeiro, economista-chefe da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), diz que o segmento de veículos teve seu saldo comercial deteriorado porque foi afetado nos últimos anos pela menor exportação de aeronaves e embarcações, que também entram no cômputo do setor.

Outros segmentos, como os setores têxtil e de confecção, que são de mão de obra intensiva, enfrentam um problema de competitividade. Essas indústrias, afirma Ribeiro, começaram a ter saldo comercial negativo porque passaram a enfrentar, tanto no mercado interno como no internacional, a concorrência de países que utilizam mão de obra barata, como Indonésia, Vietnã e Paquistão.

"Trata-se de uma questão estrutural difícil de resolver. Nos últimos anos praticamente todas as categorias têm conseguido aumentos reais. Ou seja, os salários médios reais têm crescido. Com a evolução do câmbio, os salários têm tido aumento ainda maior em dólares", diz Ribeiro.

"Também chama a atenção que alguns setores de média baixa e de baixa tecnologia, que sempre geraram algum superávit, embora pequeno, tenham passado a contribuir para a balança da indústria com saldo negativo", completa Souza. "Isso revela que o déficit não está mais restrito ao setores de maior intensidade tecnológica."


Outros segmentos que chamam a atenção são os que já tinham déficit e aprofundaram o saldo negativo. O setor de máquinas e equipamentos mostrava déficit de US$ 322,5 milhões no acumulado de janeiro a agosto de 2005. No mesmo período deste ano, o saldo negativo saltou para US$ 9,38 bilhões.

Na mesma comparação, o déficit da indústria eletrônica e de comunicações saiu de US$ 2,39 bilhões para US$ 9,88 bilhões. O saldo negativo do setor químico, de US$ 5,42 bilhões, chegou nos oito primeiros meses deste ano a US$ 17,98 bilhões.


A deterioração maior nos segmentos de máquinas e de eletrônicos, analisa Ribeiro, revela outro problema estrutural. "Esses setores são muito intensivos em inovação tecnológica, que é um ponto fraco do país."

Já na indústria química, diz, deixando à parte o segmento farmacêutico, o grande problema do Brasil é a escala de produção, que ainda traz falta de competitividade, principalmente ao setor petroquímico.


Em vários dos setores, lembra José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a indústria nacional tem enfrentado dificuldade em razão da pressão de custos em reais - como a dos salários - e da competição com o produto importado que ficou muito mais barato em razão do câmbio.

"Na verdade o câmbio deixou evidentes os problemas estruturais da indústria brasileira." Para ele, em vários segmentos o importado já ocupou espaço e não há a curto prazo possibilidade para reversão.


Para Ribeiro, a perspectiva da indústria é manter o quadro deficitário. Para este ano, o economista projeta déficit entre US$ 45 bilhões e US$ 50 bilhões. "A tendência de déficit comercial crescente da indústria de transformação não deve mudar pelo menos no horizonte dos próximos três anos", estima.

Esse é, segundo ele, o tempo mínimo para algumas iniciativas começarem a dar os primeiros resultados. Ele dá como exemplo o plano Brasil Maior, que tem entre seus objetivos a recomposição da verticalização das cadeias produtivas e o incentivo à inovação.

Hoje, lembra Ribeiro, a taxa de investimento industrial é baixa e o quadro atual impulsiona a importação.


O economista da Funcex leva em consideração a expectativa de crescimento da economia em níveis próximos a 4% ao ano. "Isso deve manter um ritmo razoável de crescimento da demanda doméstica por importados."

Ou seja, o Brasil manterá o quadro propício ao aumento de importações, mas ainda não terá ganho competitividade necessária na exportação.
Marta Watanabe / Valor Econômico

Memória :
Em 2010
DÉFICIT/ INDÚSTRIA TRIPLICA E CHEGA A US$ 18 BI .

A HORA E A VEZ DA VOZ DAS RUAS.

Milhares de pessoas foram às ruas no feriado de 7 de Setembro protestar contra a corrupção.

Ao contrário do que estamos acostumados a ver, não foi um evento com patrocínio de movimentos "sociais" mobilizados pela esquerda; estes aderiram ao constrangedor silêncio de quem parece satisfeito com as gordas verbas estatais.

Desta vez, os grupos se organizaram de forma espontânea e apartidária pelas redes sociais. Nas palavras de uma revista, tratou-se do "despertar das consciências".


A iniciativa merece apoio daqueles cansados de tanto descaso no uso do dinheiro público. Bilhões são desviados todo ano, políticos são pegos em flagrante, mas nada acontece.

O ex-presidente Lula ajudou muito a criar este clima de anestesia geral, utilizando sua popularidade para proteger aliados corruptos. Parece que as pessoas estão finalmente acordando para o fato de que a letargia de hoje será paga com mais abusos amanhã.


Já era hora de as pessoas honestas, saturadas de tanto abuso dos governantes, partirem para alguma ação efetiva.

A pressão popular é uma arma legítima em qualquer democracia. O ideal é que este movimento se mantenha blindado contra o oportunismo político.

Desta forma ele ganha mais legitimidade, até porque o combate à corrupção é uma bandeira da sociedade contra o corporativismo político, não contra um partido específico.


A corrupção tem muitas causas, mas creio que duas merecem destaque: impunidade e concentração de poder. Quanto à impunidade, a arma mais eficaz talvez seja justamente a pressão popular, com passeatas de protesto.

Lembremos que o "mensalão" ainda nem foi julgado e corre o risco de prescrever. Os brasileiros decentes não podem aceitar tanto escárnio!


Já quanto à concentração de poder, será preciso atuar no campo das ideias, com foco no longo prazo. A mentalidade predominante no país, que desconfia do livre mercado e deposita fé quase religiosa no governo, terá que mudar.

Mas isso não ocorre num piscar de olhos. É preciso investir nas ideias, apostar no poder dos bons argumentos. Esta mudança cultural será crucial para a sustentabilidade de um modelo com menos corrupção.


A ONG Transparência Internacional possui um ranking com os países percebidos como menos corruptos por seus cidadãos. Já o The Heritage Foundation publica anualmente o Índice de Liberdade Econômica.

Não será surpresa alguma para quem compreende a teoria econômica saber que há enorme correlação entre ambos, ou seja, os países menos corruptos são também os países com maior liberdade econômica.

Nada menos que 15 países estão entre os 20 primeiros colocados de ambos indicadores.

Já o Brasil está na rabeira dos dois. E ainda culpam os "neoliberais" por nossos males!


Quanto mais recursos da economia forem canalizados para o governo central, maior será a tentação de grandes empresas tentarem capturar tais recursos por meio de propinas.

Quando o destino de um setor inteiro depende da poderosa caneta de um burocrata, parece natural supor que o preço desta caneta vai às alturas no mercado negro. Subornar governantes passa a ser bem mais lucrativo do que investir na competitividade.


Milton Friedman destacava quatro formas de se gastar dinheiro. A primeira é quando gastamos nosso dinheiro conosco, com total foco no custo e no benefício.

A segunda é gastar nosso dinheiro com terceiros, como na compra de um presente. O benefício já perde alguma importância. Já as duas últimas são as piores: gastar dinheiro dos outros com os outros e com nós mesmos.

O famoso "dinheiro da viúva", sem dono e, portanto, sem grandes preocupações com o custo. Estas são as formas estatais de gasto. Alguém ainda fica surpreso com tanto desperdício?


A verdade é que ninguém cuida tão bem de um carro alugado.

A tendência natural é cuidar melhor daquilo que nos pertence. Por isso é tão comum o descaso com a coisa pública, especialmente quando tudo importante sobre ela é decidido lá longe, em Brasília.

Em nossos condomínios ainda investimos algum tempo, pois sabemos que temos maior poder de influência. Mas com tanto poder concentrado no governo central, quanto vale o meu único voto entre tantos milhões?


Estava mesmo na hora de os brasileiros saírem às ruas contra a impunidade. Talvez seja a melhor medida de curto prazo contra a corrupção. Mas também devemos investir em ideias, para reduzir a concentração de poder no governo central. Governo obeso é um convite à corrupção.

Até agora já pagamos este ano mais de R$1 trilhão em impostos, o grosso para o governo federal. Acorda, Brasil!

Rodrigo Constantino

setembro 19, 2011

BRASIL S.A : Os três ministros e as carroças.


Foi, no mínimo, constrangedor ver os ministros Guido Mantega (Fazenda), Fernando Pimentel (Desenvolvimento) e Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) anunciando o aumento de 30 pontos percentuais do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) cobrado dos carros importados.

Sem argumentos consistentes, forçaram a população a engolir a justificativa de que o governo estava protegendo os empregos no país.

Se não fosse fechada logo a porteira para os veículos de vêm de fora, o Brasil assistiria a uma onda de demissões nas montadoras que produzem em terras nacionais — todas elas, estrangeiras, ressalte-se.


Na verdade, o que o trio informou foi um golpe nos consumidores, impedidos de se beneficiarem de uma concorrência nunca vista no país no setor automotivo. Justamente por causa da chegada dos carros importados, os preços dos veículos caíram, em média, 2,41% neste ano, enquanto a inflação oficial, o IPCA, acumulou elevação de 4,42%.

Quem vai às concessionárias hoje consegue excelentes descontos só em apresentar o orçamento de um modelo de outra fabricante. Mais que isso:
é tratado com respeito, pois acabou o abuso das ditas montadoras nacionais de cobrarem até pelos tapetes dos veículos.

Como os importados são ofertados a preços acessíveis,
com todos os itens de conforto e segurança incluídos,
as empresas que o governo quer proteger tiveram de mudar a forma de atuar.

Para um país que, durante décadas, se acostumou a conviver com carroças motorizadas, a chegada dos importados se tornou um alento.

Mas, enquanto o dólar permaneceu caro e a concorrência beneficiando apenas os mais ricos, nenhuma das empresas aqui instaladas se preocupou em investir em pesquisa e tecnologia para oferecer veículos de qualidade, modernos, econômicos, comprometidos com o meio ambiente.


À medida, porém, que a moeda norte-americana foi perdendo valor, a classe média pôde driblar o descaso. Tão logo se deparou com a combinação de preços competitivos e qualidade, não pensou duas vezes em sair do cerco armado pelas tradicionais empresas.

Mas, independentemente de todo o apetite por importados, eles representam apenas 7% de todos os automóveis comercializados no país. Ou seja, nada.


O que torna a decisão do governo mais absurda é que, dos 40 principais veículos importados pelo Brasil, mais da metade não será afetada pelo aumento do IPI. Os carros são produzidos na Argentina e no México, países com os quais há acordos comerciais.

Não é só:
são justamente as montadoras que dobraram Brasília com um lobby fortíssimo as que trazem veículos dessas localidades, onde têm fábricas e geram empregos.

Quer dizer: elas continuarão importando e, com a concorrência restrita, poderão aumentar, sem constrangimento, os preços e empurrar a conta para os consumidores.


Caixa-preta
Sob o beneplácito do governo, o Brasil sempre foi um paraíso para as montadoras. Aqui, elas não prestam conta a ninguém.

Apesar de, nos países de origem, terem ações negociadas em bolsa e serem obrigada a publicar balanços sistematicamente, informando aos acionistas e ao mercado de onde vem e para onde vai o dinheiro que faturam, aqui são companhias fechadas.

Nem mesmo ao governo abrem os números para justificar medidas protecionistas como a anunciada na última quinta-feira.


No país, por venderem os carros mais caros do mundo, as montadoras registram lucros tão espetaculares, que, desde 2008, quando o mundo ruiu com a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, tornaram-se a tábua de salvação de suas matrizes, sobretudo as dos Estados Unidos.

Desde então, têm sido as companhias que mais remetem lucros e dividendos para o exterior, em vez de reinvestirem os recursos no país para desenvolver novas tecnologias.

O que, por sinal o governo espera que elas façam a partir de agora, ao condicionar o aumento do IPI à aplicação de 0,5% do faturamento bruto em pesquisas.


Sindicato de pelegos
O que dá alento aos consumidores é que, mesmo com a barreira imposta pelo governo para proteger a ineficiência e o lucro fácil, as montadoras coreanas e chinesas, as mais afetadas pela alta do IPI, vão levar adiante os projetos de abrir fábricas no Brasil.

E, ao que tudo indica, continuarão a oferecer automóveis mais baratos, forçando a concorrência. O país oscila entre o quarto maior produtor de carros do mundo e um dos mais promissores mercados consumidores.

Todas as empresas que têm visão estratégica sabem da importância de fincar os pés por aqui.


Sendo assim, as companhias que se acostumaram a buscar proteção em Brasília verão que a guerra é para valer. Não adiantará usar sindicatos de pelegos para propagar o medo e anunciar férias coletivas fictícias, porque erraram no planejamento da produção, para impressionar as autoridades.

Os consumidores viram que têm muito a ganhar com a maior oferta de modelos e marcas no país.

Não será por meio de canetadas que os brasileiros serão obrigados a se locomover por meio de carroças motorizadas, das quais Mantega, Pimentel e Mercadante poderiam ser garotos-propaganda.

Você compraria um carro anunciado por eles?
Eu não!


Vicente Nunes é editor de Economia/Correio

AQUI : "Ela morreu em 15 dias, de septicemia." NA ONU "PRESIDENTA" elogia seus programas de Saúde.


Faz 26 anos que o Brasil criou a 1ª Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH), ligada ao Ministério da Saúde.


Passados quase 30 anos, o país ainda não tem dados sobre quantas pessoas morrem anualmente por conta dessas infecções ou o índice de infecção que seria, por exemplo, aceitável na UTI, no berçário ou para doentes que estejam com pneumonia.

No entanto, informações retiradas de estudos realizados por todo o país pela Associação Nacional de Biossegurança (Anbio) trazem números alarmantes: em média, 80% dos hospitais não fazem o controle adequado, o índice de infecção hospitalar varia entre 14% e 19%, podendo chegar, dependendo da unidade, a 88,3%, e cem mil pessoas morrem por ano por conta das infecções.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), por sua vez, estima que as infecções hospitalares atinjam 14% dos pacientes internados no país.


- Os números que temos são estimativas. E, sem números, não sabemos quantos morrem por infecção ou por outros fatores. No que se refere às comissões, cada hospital tem a sua, e a grande maioria funciona burocraticamente.

Então, o índice de infecção hospitalar depende da unidade onde o paciente estiver - diz Edmundo Machado Ferraz, fundador e presidente da comissão de controle de infecção hospitalar do Hospital das Clínicas da UFPE e consultor da OMS. - Esse problema só se resolve com transparência.

É preciso saber o que acontece nas unidades, com processos controlados por protocolos. Não pode ter segredo. Tem que saber se o profissional se esqueceu de lavar as mãos corretamente, se o paciente fez uso inadequado de antibiótico.


Presidente da Associação Nacional de Biossegurança (Anbio), Leila dos Santos Macedo diz que "o risco não pode ser eliminado nunca, mas é possível bloqueá-lo para que chegue perto de zero":

- O paciente internado está suscetível. E infelizmente o cumprimento das normas de higiene é aquém do esperado. A gente vê profissionais de jaleco no refeitório, e aí eles levam agentes de risco para fora e trazem outros para o hospital.

Outros não lavam as mãos corretamente ou não usam máscaras.
Em muitas unidades, a troca de filtro do ar-condicionado não é feita frequentemente ou existe alta rotatividade dos profissionais de limpeza, e aí o pano de chão é usado em mais de uma enfermaria.

O país tem mais de sete mil hospitais e eu diria que 1% tem um programa de biossegurança rotineiro.


Superlotação facilita contaminação

Um levantamento feito pelo Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), a pedido do Ministério Público Estadual de SP, em 2009, mostrou a necessidade de os programas serem mais seguros:
em mais de 90% das unidades, o controle da infecção hospitalar era deficiente.

Foram visitadas, ao todo, 158 instituições, na capital e no interior do estado. Dessas, 65 eram públicas e 93, privadas.
De acordo com o estudo, 92,4% dos programas deixaram de atender a pelo menos um dos itens verificados, e 82% das comissões de controle não funcionavam adequadamente em pelo menos um dos itens analisados.

Além disso, o Cremesp constatou que 28,1% das unidades não tinham "de forma adequada o conjunto para lavagem das mãos nas áreas críticas".


- É revoltante. Os dados mostram que no Brasil muita gente morre de problemas evitáveis. As comissões foram implementadas, mas não funcionam corretamente. Auditorias regulares nos hospitais podiam contribuir.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgCVJIfFAW0H-qR-VuzVsAI748x050YdAmwInYlBlTD9aT4BxSKukxJU-nY4Fsny_Nr5-kKB3hIwHLXlKB-G55XQduWnd31uueqeYL6Y5yGgS8PxQeku6UTydMZY5WS6kZjwRirkeDcfDi2/s1600/infec%C3%A7%C3%A3o.png
E o governo devia obrigar as unidades a criarem taxas máximas para infecções, por exemplo, nos berçários, em unidades de terapia intensiva e nos centros cirúrgicos, e para infecções urinárias e respiratórias.

Hoje, a pessoa morre por estar no hospital. Em casa, não pegaria bactérias adversas - diz Ferraz.


É a sensação que X. tem depois de ter levado uma parente, de 41 anos, para ser internada no Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio:

- Ela ficou num ambiente infecto. A emergência parecia um depósito de gente e fedia a xixi. No primeiro dia, estava numa maca de metal, sem roupa de cama. De lá, foi para uma enfermaria com três leitos.

No dia da visita, nós a encontramos suja. Estava com diarreia, e a enfermeira disse que já a tinha limpado três vezes. Ao lado, as outras pacientes comiam. Nenhuma higiene.

Ela implorava para ir embora.
A gente leva para o hospital para tentar aliviar o sofrimento, e fica arrasada com essas cenas. Ela morreu em 15 dias, de septicemia.


- Com superlotação, o risco de infecção hospitalar é maior. Quando se deixa macas umas ao lado das outras, por mais que haja vigilância, não se consegue controlar isso.

É quase impossível manter o paciente numa situação adequada se ele está amontoado. Começam a surgir bactérias mais resistentes - diz Julio Noronha, chefe da emergência do Hospital Geral de Bonsucesso, no Rio.


Enquanto isso, em NY...

Na mesma semana em que a Câmara dos Deputados discute a questão do financiamento da Saúde e deve votar a regulamentação da Emenda 29, a presidente Dilma Rousseff falará hoje sobre programas brasileiros de sucesso no setor, durante debate promovido no âmbito das Nações Unidas (ONU).

A presidente reclamou, ainda no Brasil, semana passada, da falta de recursos para a Saúde. Dilma vai discursar na reunião sobre doenças crônicas não transmissíveis, seu primeiro compromisso oficial numa agenda pesada de cinco dias em Nova York.


Carolina Benevides O Globo

setembro 18, 2011

A BURACA "DAZ OBRA" DO CACHACEIRO E A SUA GERENTONA DE NADA E COISA NENHUMA NA FALÁCIA DO : "PARA O BRASIL CONTINUAR MUDANDO".


Maria José e os outros 105,4 milhões de brasileiros, mais da metade da população nacional com renda familiar entre R$ 1,2 mil e R$ 5,1 mil, sentem no bolso o mal da inflação.

A escalada dos preços, principalmente de alimentos e serviços, está corroendo o orçamento dessa gente.

Nos últimos 12 meses, o custo da alimentação e das bebidas saltou 10,41%, bem acima da inflação média do período, de 7,23%.

O vestuário e o transporte também subiram:
9,37% e 5,67%, respectivamente.

No caso da moradia, a elevação foi de 6,42%.
Diante dessa realidade, as famílias da classe média — que se tornaram mais exigentes nos últimos tempos, lotaram supermercados, passaram a viajar de avião e a comprar computadores, carros e imóveis — terão de rever os hábitos.


Maria José já está sentindo o baque da mudança.
Em sua casa, são cinco pessoas sustentadas por uma renda total de R$ 4 mil por mês.

Para se adequar a um cenário que preocupa o Brasil e ameaça empurrar milhões de pessoas de volta para a pobreza, ela passou a controlar as despesas na ponta do lápis.

"Estamos gastando mais com alimentação. Não posso cortar, por exemplo, as frutas da minha neta. O jeito foi diminuir as viagens a deixar faltar produtos na mesa", diz.


Motivos não faltam para tamanha cautela.
Dados do Data Popular revelam que os compromissos mais pesados da classe média estão relacionados justamente às categorias mais impactadas pela inflação.

Alimentação, habitação e transportes consomem, juntos, 62% do orçamento dos lares.

O impacto final da inflação, contudo, varia bastante. Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), explica que a alta dos serviços, que incluem viagens, hotelaria e restaurantes, prejudica, sobretudo, os menos abastados.

"Cada 10% de aumento na inflação implicam queda de 6% no poder de compra da população que está no topo da pirâmide, nas classes A e B. Nas demais, com esse mesmo aumento nos preços, o poder de consumo cai 8%", calcula.


Tendência
Até para ficar bela está mais caro.
Nos últimos 12 meses, serviços pessoais, que incluem cabeleireiro,
manicure
e costureira dispararam 11% —
os serviços, em geral, subiram 9%.

Os números já pesam no bolso das mulheres da classe média. Estima-se que 60% delas frequentem salões de beleza regularmente. Entre 2002 e 2011, o gasto desse público com beleza saltou 228%, de R$ 6 bilhões para R$ 19,7 bilhões.


As perspectivas não são boas. Para Elson Teles, economista-chefe da Máxima Asset Management, a alta nos serviços tende a se manter. "As elevações devem continuar acima da inflação", prevê.

Ele observa, ainda, que o reajuste do salário mínimo aguardado para o início de 2012, de 13,6%, pressionará mais os preços, pois os prestadores tendem a repassar tal correção à clientela.

"Pessoas que ascenderam à classe média e passaram a consumir com vigor devem sofrer. A remuneração aumenta e, consequentemente, cresce também a procura por bens. Mas a oferta não acompanha", diz.

Na economia, o resultado dessa equação é óbvio:
mais inflação.


Menos luxo
Ninguém, contudo, assiste ao aumento de preços parado.

A reação dos consumidores às turbulências no mercado costuma ser imediata, explica Renato Meirelles, sócio-diretor do Instituto Data Popular.

Primeiro, em vez de abrir mão de uma certa categoria de artigos, o brasileiro opta por itens mais baratos.

"Em todas as classes sociais, antes de excluir algo do carrinho de compras, a opção é trocar a marca. Mas isso também é diferente em cada camada da população", diz.


Para driblar os aumentos dos preços, as famílias da classe média trocam os produtos mais caros pelos mais em conta no caso dos produtos supérfluos — entram na lista requeijão, iogurte, sobremesas, leite, congelados, biscoitos, sorvetes e geleias.

As da classe A, por sua vez, fazem a migração, mas apenas dos produtos de limpeza e da cesta básica, como arroz, feijão e macarrão.

Elas preferem manter a qualidade nas categorias que lhes dão status social. "No caso da classe D, o impacto é maior. Em vez de comprar dois quilos de carne, leva-se apenas um para casa", observa Meirelles.


Troca de marcas
Na visão de especialistas, os brasileiros precisam se preparar. Se os preços continuarem a subir, para fechar as contas no fim do mês, em vez de apenas trocar as marcas, a classe média terá que suprimir itens da lista de compras.

Para não tirar o alimento da mesa, primeiro deverá cortar o lazer, que responde por apenas 2% do orçamento, conforme números do Data Popular. É justamente o que a família de Maria José já está fazendo.

"Eu e meu irmão íamos todo fim de semana a shoppings e a barzinhos. Gastávamos sem nos preocupar. Mas, agora, a diversão teve de ser sacrificada. Estamos saindo só uma vez por mês", diz Andrezza Lopes Faria, 24 anos, filha mais nova da dona de casa.


Nesse novo contexto econômico, o comércio também já sabe que venderá menos para a classe média.
"Bens de maior valor agregado, como automóveis e eletroeletrônicos de última geração, já não estão saindo tanto", reconhece o presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro Junior.

Ele explica que a redução do prazo dos financiamentos faz com que a prestação se eleve acima da capacidade de pagamento de parte expressiva dos consumidores.


O professor de finanças da FGV e da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP) Fábio Gallo Garcia, ressalta que os brasileiros não imaginam o que vem pela frente. A dica, diz, é colocar as contas no lugar: "As despesas contornáveis devem ser revistas, como a academia de ginástica e as idas ao cinema", ressalta.

O conselho de Cristina Helena Pinto de Mello, professora da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), é para que os brasileiros não façam novos compromissos no fim do ano.

O 13º salário, por exemplo, pode ser guardado para emergências. "O momento é de cuidado, de alerta. O brasileiro deve pensar mais antes de tomar decisões e deve gastar com consciência para não se colocar em situação difícil", analisa.


Riscos do retrocesso
O governo está preocupado com os problemas vividos pela nova classe média. O medo é de que a crise atual corroa a renda dessa camada da população, cuja ascensão foi um dos motes da campanha da presidente Dilma Rousseff em 2010.
De olho nas eleições municipais de 2012, a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência da República planeja lançar, até o fim do ano, um conjunto de medidas que impeçam o retorno do novo estrato social aos antigos padrões de pobreza.


Cristiane Bonfanti e Ana Carolina Dinardo Correio Braziliense
(Colaborou Vânia Cristino)


A REPÚBLICA DA VADIAGEM REMUNERADA : "Horinha" a mais que custa caro


A Câmara estava cheia e o painel registrava que 464 deputados apareceram em plenário na última terça-feira.

Às 19h, a deputada Rose de Freitas (PMDB-ES), que presidia a Mesa Diretora naquele momento, prorrogou a sessão por mais uma hora.
É a partir desse horário que se forma uma fila de servidores no térreo do Anexo IV, um prédio a 500m do plenário, afastado das dependências reservadas à rotina legislativa da Casa — ali, as luzes já estão apagadas e as salas fechadas.

Esses funcionários têm único objetivo:
faturar horas extras mesmo sem ter trabalhado.
Os servidores, que já encerraram o expediente e estão longe da Câmara, monitoram se a Presidência da Mesa vai prorrogar a sessão. Prorrogada, deslocam-se para o térreo do Anexo IV para registrar a presença nos dois pontos de controle biométrico próximos aos balcões das companhias aéreas — há outros desses pontos próximos ao plenário, esses sim utilizados por quem de fato está em atividade.

Eles têm até as 19h20 para concretizar a fraude.
Depois, precisam aguardar até as 20h30 para marcar a saída e garantir o pagamento no contracheque.

Alguns aguardam o relógio marcar 20h30 dentro do carro, acompanhados das famílias.


Uma hora extra custa entre R$ 90 e R$ 134, conforme o cargo. Apesar de a Câmara ter investido R$ 2,8 milhões no sistema biométrico de registro de ponto para acabar com as fraudes, o Correio esteve no térreo do Anexo IV na noite de terça-feira e flagrou o drible dos servidores na norma.

Eles chegam pela garagem — muitos com roupas informais, destoantes do vestuário habitual da Câmara —, registram o ponto e aguardam o horário da saída.

A Casa já desembolsou, somente neste ano, R$ 33 milhões com o pagamento de horas extras.


A assessoria de imprensa da Câmara diz que há dois tipos de adicionais:
as horas extras propriamente ditas, com um custo de R$ 2,3 milhões, e as sessões noturnas, principalmente às terças e às quartas, que já custaram R$ 31,1 milhões.

No primeiro grupo, estão seguranças e técnicos que estendem a jornada de trabalho, inclusive no fim de semana. No outro estão os servidores flagrados pelo Correio. "Historicamente, o valor registrado neste ano está na média dos dois anos anteriores", justifica a assessoria.


A irregularidade flagrada na Câmara é uma das razões para os gastos com horas extras no Legislativo serem tão altos. Mas o dispêndio com serviços extraordinários faz parte da rotina administrativa nos Três Poderes, independentemente das fraudes detectadas.

Um levantamento dos pagamentos extraordinários do Executivo,do Legislativo e do Judiciário mostra que a União tem desembolsado em acréscimos salariais valores semelhantes a todo o montante gasto em 2010 na erradicação do trabalho infantil.

Em 2011, as horas extras dos Três Poderes custaram R$ 270 milhões, segundo informações da execução orçamentária obtidas até a primeira quinzena de setembro.


O Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), do Ministério do Desenvolvimento Social, recebeu durante todo o ano passado R$ 290 milhões para a proteção de crianças.


A cifra das despesas com serviços extraordinários é uma prévia.
Histórico de gastos da União com horas extras mostra que o governo tem desembolsado uma média de R$ 500 milhões anuais com a rubrica.


O valor é duas vezes maior do que o orçamento do Ministério da Pesca e equivale aos recursos direcionados a grandes programas, como o assentamento de trabalhadores rurais, proteção aos povos indígenas e segurança de voo e controle do espaço aéreo.


Josie Jeronimo, Vinicius Sassine e Júnia Gama Correio Braziliense