"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

julho 17, 2014

Inglório campeonato

A manutenção da taxa básica de juros nos patamares atuais consolida o Brasil como a pátria dos juros altos, título que reconquistamos no fim do ano passado e parece que ainda vamos conservar por muito tempo. Esta ingrata condição enterra de vez mais uma promessa de Dilma Rousseff. Juro não cai à base de voluntarismo, ainda mais num país em que o governo não só não controla como aumenta seus gastos, como ocorre na gestão petista.

Sem surpresa, o Comitê de Política Monetária do Banco Central decidiu ontem manter a taxa básica de juros em 11% ao ano. É o suficiente para conservar o Brasil na inglória condição de país que pratica a mais alta taxa real entre todas as economias do planeta. Este campeonato ninguém gostaria de conquistar.

Foi a segunda vez consecutiva que a Selic foi mantida nos patamares atuais. O BC sinalizou, porém, que pode alterar seu comportamento na reunião prevista para o comecinho de setembro. A decisão de ontem, segundo comunicado oficial emitido após a reunião, limita-se apenas a “este momento”.

A próxima decisão acontecerá poucos dias depois de o IBGE divulgar os resultados do PIB no segundo trimestre, que muitos não descartam que poderá ser negativo – de acordo com a prévia do BC divulgada nesta manhã, o crescimento acumulado em abril e maio foi nulo. Segundo analistas, há duas hipóteses para quando setembro vier: 
aumento dos juros em função de novas altas da inflação ou redução da taxa em razão do esfriamento da economia.

De todo modo, a manutenção dos juros nos patamares atuais consolida o Brasil como a pátria dos juros altos, título que reconquistamos no fim do ano passado e parece que ainda vamos conservar por muito tempo. Segundo levantamento feito pela consultoria Moneyou, a taxa brasileira está em 4,2%, já descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses.

Curiosamente, as três posições seguintes são ocupadas por parceiros brasileiros nos Brics: 
China (3,4%),
 Índia (2,3%) e Rússia (1,5%). 
Para este clube, não há banco de fomento ou fundo de socorro que dê jeito... 
Das 40 economias acompanhadas pela Moneyou, o Brasil está entre as 16 que praticam taxas positivas. Nas demais, o juro nominal é mais baixo que a inflação projetada.

Esta ingrata condição joga por terra mais uma das promessas da presidente Dilma Rousseff. Em 30 de abril de 2012, ela ocupou cadeia nacional de rádio e televisão para prometer a redução dos juros. Jogou os bancos públicos na cruzada, apostando que forçaria o resto do sistema bancário a acompanhá-los.
Como Dilma é uma economista apenas bissexta, seus fundamentos não batem com a realidade. Juro não cai à base de voluntarismo, ainda mais num país em que o governo não só não controla como aumenta seus gastos, como ocorre na gestão petista.

O resultado é que, depois de nove altas consecutivas entre abril de 2013 e abril de 2014, tanto a Selic quanto as taxas das demais linhas de crédito estão hoje mais altas do que no início do mandato da presidente, como ilustrou a Folha de S.Paulo no sábado.

O juro alto é o remédio amargo que sobrou para os formuladores da nossa política monetária em função da inflação persistentemente alta no país – turbinada também pelo tarifaço previsto para a energia. Os prognósticos quanto aos índices de preços e ao aumento da carestia continuam sombrios, solapando a confiança de consumidores e empresários, de indústria e comércio.
O temor é disseminado. 

Pesquisa encomendada pela Fiesp e divulgada hoje por O Globo mostra que 69% da população brasileira considera que houve grandes aumentos de preços nos últimos seis meses. 73% das pessoas ouvidas avaliam que a política econômica do governo é a responsável pela elevação dos preços.

A realidade é que o Brasil vê-se hoje aprisionado na armadilha do baixo crescimento e da inflação elevada, temperada também pelos juros altos. Este coquetel indigesto só tem como ser superado por uma política econômica responsável que trate as contas públicas com zelo e transparência, empreenda firme esforço para reduzir a dívida pública e não transija no combate à carestia. Menos que isso é só pantomima ensaiada para pôr na propaganda de TV.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

MAIS SOBRE O JEITO PETRALHA DA DESAVERGONHADA MENTIROSA DE "GUVERNÁ" : QUEDA DE 83,9%. País tem menor geração de empregos formais para junho em 16 anos


A geração de vagas formais teve forte desaceleração em junho. 
Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, o saldo líquido (contratações menos demissões) de emprego com carteira assinada no País foi de 25.363..

O resultado é o menor para o mês desde 1998 e representa uma queda de 83,9% ante junho de 2013, na série com ajuste.

O dado de junho do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) ficou abaixo do piso das previsões do mercado financeiro, que variavam de 40 mil a 110 mil vagas, segundo o AE Projeções. No acumulado do ano até junho, houve criação líquida de 588.671 vagas, o que fez o governo rever as previsões para 2014. 

Segundo o ministro do Trabalho e Emprego, Manoel Dias, a meta agora é gerar 1 milhão de empregos este ano. O número é menor que o apresentado no início de 2014, quando o governo previa a criação de até 1,5 milhão de postos de trabalho até 31 de dezembro. Em 2013, foram gerados 1,1 milhão de vagas. 

Dias afirmou que o fraco desempenho do trabalho formal em junho frustrou as expectativas do governo. "Esperava mais, porque não havia nenhum indicativo dessa situação", disse. "O grande fato causador da diminuição foi a indústria, que no ano ainda continua positiva", disse. 

A indústria de transformação respondeu pela maior quantidade de demissões líquidas em junho, com o fechamento de 28.553 vagas. Foi o terceiro mês consecutivo de desligamentos. Os 12 segmentos industriais pesquisados demitiram. O pior resultado foi da indústria de material para transportes (-5.542), seguido por metalúrgica (-4.161) e mecânica (-3.957).

A agricultura foi o setor que respondeu em junho pela maior geração de vagas, com 40.818 vagas. Em seguida, ficou o setor de serviços, com 31.143 postos de trabalhados gerados. 

Desaceleração. 
Para o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Lima Gonçalves, a desaceleração da economia brasileira finalmente parece ter chegado ao mercado de trabalho. Segundo ele, o resultado poderia ter sido pior se não fosse um mês sazonalmente favorável às contratações no segmento da agricultura. 

"A geração de empregos na agricultura é sazonal, mas se compararmos com junho do ano passado, quando foram criados cerca de 59 mil vagas, vemos que a tendência é de leve desaceleração do emprego", disse o economista.

O lado bom de o mercado de trabalho entrar em desaceleração, segundo o economista do Fator, é que as expectativas de inflação tendem a se acomodar. "O lado ruim é que, quando isso acontece, o mercado de trabalho confirma a queda da economia", disse Lima Gonçalves, que antes da divulgação dos números do Caged esperava que o PIB fosse encerrar esse ano com crescimento de apenas 0,8%. 

O mercado de trabalho é sempre o segmento da economia a assimilar com maior morosidade os movimentos de melhora e piora da economia como um todo. Como os custos para contratação e demissão no Brasil são muito altos, as empresas demoram para abrir contratações quando a economia se aquece e demoram para demitir quando a economia entra em estágio de arrefecimento.

Recuperação. 
O ministro Dias, contudo, voltou a dizer que o mercado de trabalho vai se reaquecer ao longo do segundo semestre. "O mês que vem (julho, em relação a junho) já começam as encomendas para o Natal, e as contratações da indústria já visando o dia dos pais e o fim do ano", destacou.

Sobre o setor da construção civil, que demitiu 12.401 trabalhadores no mês, a terceira fase do programa Minha Casa, Minha Vida irá puxar contratações. "O novo Minha Casa, certamente, vai estimular a retomada da construção civil", confiou.

O ministro também observou que a demissão de 7.070 pessoas pelo setor do comércio deveu-se à Copa , em função do fechamento de lojas durante os jogos do Mundial.
O Estado de S. Paulo

ENQUANTO ISSO... NO JEITO PETRALHA DA DESAVERGONHADA MENTIROSA DE "GUVERNÁ" : Reajustes de energia podem ser ainda maiores

Enquanto o governo ainda decide se vai dar uma nova ajuda às distribuidoras, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já alerta que os reajustes tarifários a partir de agosto podem ficar ainda maiores do que os já concedidos desde o início do ano. Caso não haja uma solução para a parte do rombo que ainda atrapalha as finanças das empresas, os consumidores começarão a pagar antes do previsto o custo dos problemas do setor.

O alerta foi dado ontem pelo diretor-geral da Aneel, Romeu Rufino, que já vinha destacando a falta de capacidade financeira das distribuidoras para arcar com o descompasso remanescente entre a energia garantida em contratos de longo prazo com as geradoras e a eletricidade que elas precisam comprar a preços mais elevados no mercado à vista. Mesmo com o leilão emergencial realizado no fim de abril, o empréstimo bancário de R$ 11,2 bilhões viabilizado pelo governo só foi suficiente para cobrir o buraco das empresas até o fim daquele mês.

Segundo Rufino, se os valores eventualmente não forem cobertos por um novo financiamento ao setor, a diferença terá de ser repassada à tarifa para o consumidor na conta de luz. "(O empréstimo) é uma das alternativas. Não necessariamente será uma única alternativa", disse, sem revelar as outras medidas em estudo. "O papel da Aneel é o realismo tarifário. Se não tiver outra cobertura por outro canal, a tarifa tem de garantir esse repasse."

Impacto. 
Rufino destacou que várias empresas vão passar por processos de reajuste tarifário em agosto, como Celesc (Santa Catarina), CEB (Distrito Federal) e Celpa (Pará), entre outras. Se não houver uma saída até lá, a alternativa será transferir esse impacto às tarifas. "Aquilo que não tiver uma solução via empréstimo ou qualquer outra fonte de recursos será refletido nos processos tarifários." 

Ainda segundo ele, as empresas que já passaram por processos de reajuste neste ano poderão solicitar revisão tarifária extraordinária, ou seja, um aumento adicional, além do que é autorizado uma vez por ano.

Para Rufino, a expectativa é encontrar uma solução até o fim do mês. 
Essa medida, segundo ele, tem como objetivo resolver o problema das concessionárias de forma definitiva, ou seja, até dezembro. Ele não revelou o valor de que as empresas precisam até o fim do ano.

O presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Nelson Leite, disse estar confiante de que o governo vai elaborar um plano para o setor a tempo da liquidação adiada para o fim deste mês. Marcada inicialmente para o começo de julho, parte do pagamento das distribuidoras para as geradoras - que soma R$ 1,32 bilhão e não tem cobertura tarifária - foi postergada para a última semana do mês.

Anne Warth e Eduardo Rodrigues - O Estado de S.Paulo

julho 16, 2014

O Brasil deu certo (?) E agora?


Na época que foi lançado o filme, Brasil deu Certo? E agora? (2013), estava com filho pequeno em casa e não consegui ir ao cinema. Este filme, organizado pelo economista Maílson da Nóbrega, é muito bom e faz um breve retrospecto da história econômica do Brasil e conta com depoimentos de 3 ex-presidentes da República, 12 ex-ministros de Estado, 7 ex-presidentes do Banco Central e especialistas em finanças.

Os entrevistados conseguem, de uma forma didática, dar uma boa aula sobre a história econômica do Brasil, com destaque para o período pós-1964 e das maluquices que fizemos na década de 1970 com a conta movimento entre o Banco do Brasil e Banco Central, que constituía um orçamento paralelo e a origem de enormes desequilíbrios econômico-financeiros.

Por que vale a pena assistir este filme? Primeiro porque é importante olhar para o passado para entender o que é o Brasil hoje. Segundo, apesar de nosso fortalecimento institucional, precisamos sempre revisitar o passado para evitar erros do presente e no futuro. E passamos recentemente a insistir em erros do passado como o populismo tarifário da conta de energia e o controle no preço da gasolina.

Uma das coisas que me incomoda hoje, no Brasil, é a que algumas pessoas perderam a noção de restrição orçamentária e muitos acham que não há problema algum de o país ter uma inflação de 6,5% ao ano, aumento da divida pública para financiar novos projetos com juros subsidiados (alguns justificáveis e outros não), e o uso de truques contábeis para mostrar uma economia fiscal que não é verdadeira.

Assistam ao filme que agora está disponível on line de graça em uma livraria digital da internet – The Internet Archive. Cliquem aqui para assistir ao filme O Brasil Deu Certo? E Agora? (2013)

julho 14, 2014

A ‘Copa das Copas’ não aconteceu

Nem reduzindo sua participação na festa final da Copa do Mundo a três segundos de duração, Dilma Rousseff conseguiu se livrar das vaias e dos apupos no Maracanã. Com a mesma pressa, o governo petista tentar decretar o sucesso absoluto do torneio. Alto lá! A distância entre aquilo que o governo se comprometeu a fazer e o que efetivamente fez é tão grande quanto a que separa o futebol vencedor dos alemães da bolinha jogada pela seleção brasileira.
Dilma Rousseff praticamente se livrou da taça ontem na cerimônia de premiação da campeã Alemanha, na tentativa de evitar vaias e apupos. Mesmo levando três segundos para passá-la às mãos do capitão Philipp Lahm, não conseguiu. 
Com a mesma velocidade, o governo petista quer agora dar um jeito de virar a página da Copa do Mundo, decretando seu sucesso absoluto. 

Devagar com o andor: 
política, como futebol, não se ganha no grito. 
A “Copa das Copas” não aconteceu.

O Mundial realizado novamente no Brasil depois de 64 anos teve muito de positivo. Mas, principalmente, pelo que ocorreu dentro das quatro linhas dos gramados. O sucesso decorreu especialmente do futebol organizado, planejado e globalizado jogado pela maior parte das 24 seleções que vieram disputar a taça.

É deste futebol vencedor que o governo petista agora quer afastar nossos bons jogadores, com sua proposta de criar barreiras para impedir a exportação de talentos para o exterior. Seria uma maneira, segundo disse a presidente na semana passada, de encher estádios – os mesmos que estão fadados a se tornar uma manada de elefantes brancos em virtude da megalomania exibida pelos petistas na organização da Copa.

Trata-se de mesma visão isolacionista e intervencionista que marca muitos aspectos da atual gestão. Tal vezo colide com a constatação de que um dos motivos de a Copa ter tido futebol tão exuberante e equilibrado foi o fato de todas as seleções serem predominantemente formadas por jogadores que disputam alguns dos mais competitivos campeonatos nacionais e regionais na Europa. Já pensou se nossa seleção só pudesse contar com as estrelas do Brasileirão?

Bons resultados também foram notados em relação à organização do torneio, à realização das partidas e dos eventos paralelos. Neste caso, deve-se muito ao esforço de milhares de brasileiros, à simpatia e hospitalidade de outros tantos e à participação de diversas esferas de governo espalhadas em 12 cidades-sede. Querer atribuir-se senhor absoluto deste êxito, como tenta fazer o governo federal, é gol de mão.
Pior ainda é tentar, usando todos os seus poderosos instrumentos de propaganda, decretar no grito que tivemos a “Copa das Copas”. 
Entre uma bela Copa e uma Copa perfeita, vai distância tão grande quanto a que separa o futebol vencedor jogado pelos alemães da bolinha batida pela seleção do agora ex-técnico Luís Felipe Scolari.

O Brasil foi escolhido em outubro de 2007 para sediar o torneio. Nestes quase sete anos, teve todas as condições de transformar a oportunidade de abrigar uma Copa num motor de realizações, numa usina de produção de benefícios duradouros para a população brasileira. Os resultados não passam nem perto disso.

Os balanços da Copa devem se basear no cotejo entre aquilo que o governo se comprometeu a fazer e o que efetivamente fez até o torneio. O levantamento mais completo é o que foi feito pela Folha de S.Paulo no primeiro dia em que a bola rolou nos gramados brasileiros.

Dos 167 compromissos assumidos em 2010, apenas 53% foram finalizados a tempo do Mundial. Outros 41% estavam incompletos e seriam concluídos durante ou, na maior parte dos casos, depois da Copa. Um mês antes, também a Folha havia apontado que somente 10% das obras de mobilidade prometidas haviam sido concluídas.
A promoção do torneio custou mais caro que o previsto, chegando a R$ 26 bilhões, dos quais 84% saíram de cofres públicos via orçamentos ou linhas de crédito liberadas por instituições federais, segundo o Valor Econômico. Os gastos especificamente com estádios triplicaram em relação ao informado à Fifa.
Para garantir melhor desempenho durante o torneio, a organização brasileira também teve que se valer de esquemas especiais, como a escalação de homens do Exército para policiar vias públicas ou a decretação de feriados para esvaziar as metrópoles em dias de jogos. Teve, portanto, que recorrer ao improviso.

Passada a Copa do Mundo, cabe ao governo de turno responder por que não entregou o que prometeu. Cabe, ainda, explicar à população os motivos de ter feito tanto esforço para bem atender o público internacional durante 32 dias de festa e não exibir a mesma dedicação cotidiana para tornar o dia a dia de 200 milhões de brasileiros melhor. O fim dos jogos é só o início desta prestação de contas.
Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

julho 11, 2014

Vem aí a ‘Futebolbrás’

Aproveitar um momento de infortúnio para começar a construir um caminho que, no longo prazo, conduza ao reencontro com a trajetória de sucesso é algo bem-vindo, necessário, salutar. Iniciar esta trajetória mirando as eleições, apropriando-se oportunisticamente de movimentos e sentimentos legítimos de profissionais e torcedores e, sobretudo, enfiando o Estado onde não deve parece ser a pior maneira de tentar renovar o futebol brasileiro.

O governo jura que jamais vinculou futebol à política. Mas desmente-se todos os dias. A investida da hora é tentar descolar-se do fracasso da seleção brasileira defendendo a “renovação” do nosso futebol. Até instrumento para isso eles já têm: botar o Estado para intervir no esporte, a mesma receita que fracassa na economia.

Até a fatídica terça-feira em que a Alemanha atropelou o Brasil no Mineirão, a ordem era surfar na onda de otimismo, na esperança de que ela desaguasse na entrega da taça de campeão ao zagueiro Thiago Silva no domingo. Mas a maré baixou antes da hora e, com o naufrágio, busca-se agora, desesperadamente, o que afaste a presidente do espectro do fracasso em campo.

Anteontem, Dilma Rousseff deu, em entrevista à CNN Internacional, sua receita para superar o infortúnio: usar o poder de governo para impedir que jogadores deixem o país, como forma de criar atrativos para encher estádios brasileiros. Em paralelo, seu ministro de Esportes acrescentou que o Estado tem que participar das decisões futebolísticas. Não será surpresa se vier por aí uma Futebolbrás.

O governo pega carona no legítimo movimento protagonizado por alguns jogadores, o Bom Senso F.C. Na sua agenda renovadora do futebol nacional, a presidente promete recebê-los no Palácio do Planalto na próxima semana. E depois diz que não mistura política com a paixão nacional...

Na falta de uma lista robusta de benefícios duradouros para a população decorrentes da realização da Copa no Brasil, constatação que o discurso oficial luta para encobrir, o governo agora quer transformar uma possível reestruturação do nosso futebol – algo desejável – num feito seu. Pelo jeito, enfim encontraram um legado para exibir.

No entanto, o vezo estatizante que move corações e mentes do petismo – e que cobra seu alto preço no desempenho medíocre da nossa economia – se faz novamente presente. O cardápio vai desde a submissão de clubes e cartolagem ao Estado até a proibição da venda de jogadores para o exterior, ferindo, inclusive, a liberdade dos profissionais.

Do que se divulgou ontem, parece correto apenas querer cobrar contrapartidas de clubes e entidades de futebol a benesses concedidas pelo governo, como a renegociação de dívidas tributárias. Mas há aberrações como, por exemplo, ameaçar rebaixar time que atrasa salários.

Futebol se joga e se ganha, ou se perde, dentro de campo. A relação profissional entre jogadores e contratantes deve obedecer às mesmas regras e leis que regem qualquer categoria no mercado de trabalho.

Dilma e seu ministro de Esportes não querem que o Brasil “exporte matéria-prima e consuma produto acabado”. Acham que, intervindo no mercado da bola e podando a liberdade de ascensão dos nossos jogadores, conseguirão encher estádios Brasil afora.

A presidente poderia ter a mesma preocupação em relação ao resto da nossa pauta de comércio exterior, cada vez mais concentrada em produtos de baixo valor agregado. E poderia achar outra e mais eficiente maneira de salvar da ociosidade os elefantes brancos travestidos de “arenas” construídos para a Copa.

Futebol exige treino, diz Dilma. Corretamente. Mas também exige perseverança, competência, dedicação, trabalho árduo. O que a presidente diz sobre a seleção de Felipão cabe muito bem para sua equipe de governo. Afinal, são todos atributos bastante em falta na gestão do país...

Um ano atrás, depois que a seleção conquistou a Copa das Confederações, a presidente tentou tornar-se sócia do triunfo e disse que seu governo era “padrão Felipão”. Será que ela continua achando isso ou, dentro da sua estratégia de surfar na onda da hora, vai tentar forjar um novo bordão?
Aproveitar um momento de infortúnio para começar a construir um caminho que, no longo prazo, conduza ao reencontro com a trajetória de sucesso é algo bem-vindo, necessário, salutar. É o que fez a Alemanha depois de 2006, quando fracassou na Copa promovida em casa.

Iniciar esta trajetória mirando as eleições, apropriando-se oportunisticamente de movimentos e sentimentos legítimos de profissionais e torcedores e, sobretudo, enfiando o Estado onde não deve parece ser a pior maneira de tentar renovar o futebol brasileiro.

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ONDE TEM P artido de T orpes TEM CACHACEIRO IGNÓBIL/GERENTONA DE NADA E COISA NENHUMA/TRAMBIQUE/TRAPAÇA/OBSCURIDADE... ‘Conta paralela’ reforça caixa do Tesouro em R$ 4 bilhões em maio. Valor que havia sido depositado por um banco privado em uma conta que estava fora do radar do BC.


As contas do Tesouro Nacional tiveram uma ajuda inusual de uma operação de registro contábil que reduziu o rombo do mês de maio. Um volume de R$ 4 bilhões mantido por um banco privado em uma conta que estava fora do radar do Banco Central foi encontrado pela autoridade monetária às vésperas do anúncio oficial, pelo Tesouro, do resultado fiscal da União.

O Ministério da Fazenda não explicou a origem desses recursos. Ao Estado, o BC informou que o dinheiro representava um crédito a favor da União registrado em uma conta paralela. Os R$ 4 bilhões estavam registrados em uma conta fora do rol daquelas verificadas pelo Banco Central para calcular o resultado fiscal.
A operação, confirmada pelo BC após a descoberta do fato pelo Estado, ajudou o Tesouro a reduzir o déficit primário, das contas públicas, de maio. O governo divulgaria um rombo de R$ 15 bilhões, mas acabou por anunciar um buraco de R$ 11,07 bilhões. Ainda assim, esse desempenho foi o pior da história para meses de maio.

O banco privado migrou, de forma não explicada, esse crédito de uma conta para outra. O BC informou que o banco fez uma mudança em seu registro contábil sem avisar a autoridade monetária. O Estado apurou que os R$ 4 bilhões envolvem a movimentação financeira da Previdência Social. Mas o Tesouro e o BC se recusaram a informar a origem desse crédito.

Críticas. 
O Tesouro é alvo de críticas de investidores e do mercado financeiro por causa do seu histórico recente de uso de “contabilidade criativa”, com manobras contábeis para aumentar o superávit primário de forma artificial e cumprir a meta fiscal.

O BC assegura que o dinheiro nunca deixou o balanço de ativos e passivos da instituição privada. Mas, ao ficar em uma conta distinta, não apareceu no sistema da autoridade monetária de checagem fiscal.

A área técnica do BC, na véspera do anúncio, percebeu que havia uma diferença entre o resultado do governo federal relativo ao mês de maio apurado pelo Tesouro e o registrado pelo Departamento Econômico do BC (Depec). Os dois usam metodologias distintas de cálculo. O resultado do BC é usado como referência para o cumprimento da meta fiscal.

“O BC percebeu essa discrepância e foi investigar a razão”, admitiu um porta-voz do BC em entrevista, na sede da autoridade monetária em Brasília. Segundo o BC, não havia necessidade de autorização prévia para o banco privado criar essa conta em separado, mas informou que a área de fiscalização iria verificar o que ocorreu. 

A conta foi achada, explicou o BC, porque o sistema registrou na conta antiga uma queda abrupta e expressiva no “padrão” histórico verificado até abril de contabilização dos ativos do governo federal. O BC não revelou, no entanto, de que natureza era o crédito encontrado no banco privado. Também não explicou por que a instituição financeira privada alterou seu registro contábil em maio.

Registro. 
O BC nega que os seus sistemas de controle tenham falhado ou que tenha havido uma manobra contábil do governo para ajudar a melhorar o resultado fiscal divulgado pelo secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin. 

O banco diz que a qualidade das suas estatísticas é reconhecida no mundo todo. “Aquilo que efetivamente circular no sistema financeiro estamos pegando”, disse o porta-voz. 
Especialistas em contas públicas, no entanto, vêm alertando para a dinâmica incomum das despesas do INSS em 2014, que estão menores neste ano do que seria esperado, já que não houve mudanças substanciais no valor dos benefícios e tampouco no número de aposentados e pensionistas.

O Ministério da Fazenda informou que a descoberta dos R$ 4 bilhões “é assunto do BC” e evitou comentar o crédito encontrado na conta do banco privado. Procurada, a Febraban informou que não se pronunciaria sobre o caso.

Adriana Fernandes e João Villaverde - O Estado de S. Paulo

julho 10, 2014

A goleada da inflação

Com a Copa chegando ao fim, os brasileiros se voltam a seus problemas cotidianos, que continuam à espera de soluções. Um dos mais preocupantes é a inflação, que, pela décima primeira vez em 42 meses de mandato de Dilma, estourou o limite superior da meta. A gestão petista apostou numa mistura que prometia mais crescimento e inflação domada. Fracassou e agora assiste o circo pegar fogo, perdendo de goleada para o dragão.

A Copa do Mundo está chegando ao fim e, à medida que seus eflúvios vão se dissipando, os brasileiros vão se virando cada vez mais para os muitos problemas que se acumulam no país à espera de solução. Um dos mais preocupantes é a inflação. O governo petista brincou com fogo e não parece nem um pouco capaz de controlar o incêndio.

No mês de junho, mais uma vez, a inflação acumulada superou o limite superior da meta. Nos últimos 12 meses, o IPCA variou 6,52%, de acordo com o IBGE. 
O regime em vigor no país determina como alvo o percentual de 4,5%, com tolerância de até dois pontos percentuais para cima ou para baixo.

Em 42 meses da administração Dilma Rousseff, esta é décima primeira vez que a meta é estourada. Ou seja, em mais de um quarto do mandato da presidente transcorrido até agora a política econômica em vigor não foi capaz de entregar a inflação prometida. Qualquer semelhança com o desempenho geral do PT no governo não é mera coincidência...

A tendência é não haver refresco nos próximos meses. Até por uma questão estatística. Nesta altura do ano passado, em função de recuo no preço de alimentos, o IPCA registrado foi muito baixo, chegando, por exemplo, a 0,03% em julho de 2013.Estima-se agora que os dados de um ano atrás serão substituídos nos próximos meses por altas mais fortes, engordando a inflação acumulada em 12 meses. 

Deve ser assim pelo menos até a véspera das eleições gerais de outubro. Há risco de 2014 terminar com o IPCA acima do limite superior da meta. Hoje, a média das previsões de mercado, colhidas semanalmente pelo Banco Central e divulgadas no Boletim Focus, está em 6,47%. A um triz, portanto, o teto.

Em seus três anos de mandato transcorridos até aqui, Dilma não passou nem perto de cumprir o que determina o Conselho Monetário Nacional. A meta – que é de 4,5% e não de 6,5% como o governo tenta apregoar – nunca foi cumprida pela presidente, e nem será. Trata-se de uma sina das gestões petistas. Nos últimos 12 anos, apenas em três ocasiões a inflação oficial não superou a meta: 2006, 2007 e 2009. Mas o governo prefere sustentar que foi bem sucedido apenas por não ter deixado o índice estourar o limite superior. 

O Brasil tem registrado uma das mais elevadas inflações do mundo. Entre os países do G-20, por exemplo, apenas seis exibem índices de preços mais altos que o nosso: Argentina (11% acumulados nos últimos 12 meses), Turquia (9,2%), Índia (8,3%), Rússia (7,8%), Indonésia (6,7%) e África do Sul (6,6%), segundo o Trading Economics.

Para complicar, há sério risco de os índices de inflação escalarem mais adiante, porque há muitos preços sendo fortemente controlados pelo governo. Sua alta é de 3,9% nos últimos 12 meses. Se a intenção não for quebrar a Petrobras, inviabilizar a geração de energia ou sucatear ainda mais o transporte público no país, logo logo eles terão que ser reajustados.

Enquanto isso, os demais preços – os chamados “livres” – estão subindo muito mais que a média do IPCA. No acumulado em 12 meses, a alta chega a 7,3%. Desde 2010, os alimentos estão subindo em média 9% ao ano no Brasil. 
Mas há itens com aumento bem mais expressivo, como carnes, com preços mais de 16% maiores em um ano, como analisa o economista Felipe Salto.

Os brasileiros já se deram conta da corrosão mensal de seus salários e apontam a inflação como principal problema do país hoje. Precisamos de políticas consistentes contra a carestia, a ser tratada com tolerância zero. A gestão Dilma, porém, parece ainda acreditar que preços um pouquinho mais altos não fazem mal se o objetivo é conquistar mais crescimento econômico. Não conseguiu nem uma coisa nem outra. E agora assiste o circo pegar fogo, perdendo de goleada para o dragão.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

julho 09, 2014

PARA REGISTRO 3! É HORA DE MUDAR : O lado positivo do fiasco brasileiro na Copa do Mundo de 2014. Derrota pode levar a mudanças importantes no futebol e na política

O Brasil está prestes a mostrar ao mundo como o esporte pode influenciar o humor nacional, a política e os mercados. A devastadora derrota do país para a Alemanha nas semifinais da Copa do Mundo vai pesar bastante sobre seus líderes — e, como resultado disso, tem o potencial para se tornar algo bom para sua economia e mercados.

O placar de 7 a 1 representa uma derrota para uma nação onde o futebol é tanto uma paixão como uma obsessão, uma vergonha internacional que era não apenas improvável como impensável. É também assustadoramente similar ao que aconteceu à economia do país, que se tornou lenta e desapontadora nos últimos anos, após um período de crescimento, investimento e criação de emprego impressionantes.

No futebol como no padrão de vida, os brasileiros têm experimentado uma degradação de suas perspectivas do promissor para o altamente problemático. Tanto os jogadores como os gestores de política demoraram a compreender a magnitude da mudança. Ao tentar ajustar, eles recorreram a uma velha cartilha, mas com uma equipe que não tem como executar, sobretudo considerando o ambiente.

Há algumas justificativas mitigadoras para a má performance tanto da seleção como da economia. O capitão e o goleador estavam, ambos, indisponíveis: um suspenso devido a uma punição no jogo anterior, e o outro gravemente contundido após uma jogada brutal. A economia sofreu devido à crise financeira e suas consequências. Porém, nada dessas desculpas justificam a subsequente falta de uma reação apropriada.

Os brasileiros podem sentir que a falta de liderança de sua seleção no campeonato reflete algo maior: 
notadamente, liderança política em nível nacional. O desapontamento provavelmente ficará bastante visível em breve nos níveis de popularidade da presidente Dilma Rousseff. Com as eleições presidenciais previstas para começar em breve, o desastre do futebol brasileiro poderá perfeitamente ter um peso no sentido de frustrar a pretensão à reeleição de Dilma.

Como os mercados financeiros reagirão ainda é uma questão aberta. 
Ainda não está certo se eles irão afundar num pessimismo induzido pelo futebol. Na verdade, o oposto pode muito bem ocorrer: 
a derrota poderá levar a uma alta dos mercados, à medida que os investidores se tornarem mais otimistas quanto à possibilidade de reformas sob um novo governo, após as eleições.

Um mercado volátil, no entanto, beneficiaria apenas uma pequena minoria de brasileiros, devido à extrema desigualdade distribuição de riqueza e posses financeiras. O resto neste país apaixonado por futebol sentirá apenas dor, aquela do tipo que não é fácil esquecer ou perdoar.


Para Mohamed El-Erian, há uma impressionante similaridade entre a derrota do Brasil para a Alemanha e o desaquecimento econômico do país - Pete Marovich / Bloomberg/12-10-2013

POR MOHAMED A. EL-ERIAN*/VIA BLOOMBERG NEWS
O Globo

* Mohamed El-Erian é conselheiro-chefe de economia da Allianz. Ele é presidente do Conselho de Desenvolvimento Global do presidente Barack Obama, autor do best-seller “When Markets Colide (Quando os mercados colidem) e ex-diretor executivo da Pimco.

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