A estratégia do governo de estimular o consumo das famílias por meio
do aumento do crédito, assim que o mundo ruiu com a quebra do banco
norte-americano Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, fez com que
a dívida pública do Brasil desse um salto monumental.
Dados do Fundo
Monetário Internacional (FMI) mostram que, nos últimos cinco anos, o
endividamento bruto passou de 63,5% para 67,2% do Produto Interno Bruto
(PIB), nível superior ao registrado por vários países da Zona do Euro
antes do estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos. A França, por
exemplo, tinha, ao fim de 2007, um índice de 64,2%.
O salto da dívida bruta brasileira foi estimulado, sobretudo, pela
injeção de recursos, pelo Tesouro Nacional, nos bancos públicos. Apenas o
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) recebeu
mais de R$ 300 bilhões, criando, no entender do economista Mansueto
Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), um
orçamento paralelo, que ajudou a minar a confiança dos agentes
econômicos no país.
Para ele, o desconforto é enorme, pois, não bastasse a transferência
de recursos às instituições públicas, o secretário do Tesouro, Arno
Augustin, com o aval do ministro da Fazenda, Guido Mantega, recorreu a
truques fiscais para dar às contas públicas uma saúde que elas não têm.
A maquiagem nos números foi tão intensa que o Brasil está sob ameaça
de rebaixamento pelas agências de classificação de risco.
Foi
justamente a expressiva recuperação do país logo depois do estouro da
bolha imobiliária que levou essas empresas a concederem à economia
brasileira o tão sonhado grau de investimento, chancela de porto seguro
para o capital.
Hoje, porém, o que impera no Brasil é o pessimismo.
Em especial
porque o reforço de capital dos bancos públicos, que já respondem por
mais de 50% do crédito concedido no Brasil, teve outro efeito
colateral:
o endividamento excessivo das famílias.
Pelos cálculos do
Banco Central, em setembro de 2008, 32% da renda dos lares brasileiros
estavam comprometidos com o pagamento de dívidas.
Em junho deste ano,
último dado disponível, 45% do orçamento familiar vinham sendo usados
para a quitação de juros e das parcelas de débitos contraídos com os
bancos.
Inflação
Na avaliação do estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno, as ações do governo no auge da crise mundial foram louváveis, porque permitiram ao país sair rapidamente de um severo processo recessivo. O problema foi ter insistido nas medidas de incentivo ao consumo além do recomendável. Pior: em vez de o Brasil ter impulsionado o crescimento, o que se viu foi o aumento da inflação e a desaceleração da atividade, uma vez que o poder de compra dasfamílias foi corroído.
Para o economista Andrew Storfer, da Associação Nacional dos
Executivos de Finanças (Anefac), as fragilidades do Brasil cinco anos
depois da quebra do Lehman Brothers foram se acentuando à medida que
ficou clara a saída dos países desenvolvidos da recessão.
"Diante de tantos buracos na economia, o capital ficou receoso e passou a buscar
oportunidades menos arriscadas nos países desenvolvidos, principalmente
nos Estados Unidos, que voltaram a crescer", assinala. "Com isso, fica
claro que o Brasil está jogando fora a oportunidade de ser um país
melhor a médio e longo prazos. O que todos esperavam era uma nação que
mostrasse uma face para o mundo de mais investimento, mais amigo do capital, e não criando insegurança."
No entender de Rostagno, infelizmente, se os ajustes vierem, será
somente em 2015, depois das eleições presidenciais. O problema é que,
até lá, os entraves acumulados exigirão um esforço redobrado para botar
ordem na casa. E a fatura, mais uma vez, acabará no colo do lado mais
fraco, a população, sobretudo a mais pobre.
» Nova ordem global
O estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno,
considera que a velha ordem global está de volta. Com os países ricos
saindo do atoleiro no qual se meteram a partir de setembro de 2008, e os
emergentes sentindo o baque da desconfiança, a tendência é de que as
nações mais ricas voltem a responder pela maior parte do crescimento
mundial e, claro, de que fiquem com a maior parcela dos investimentos
que circulam pelo mundo.
» Aperto
Saldo da crise levou Brasil a acumular dívida superior à da França no pré-crise
Disparada
Para turbinar a economia, governo injetou dinheiro em bancos públicos, o que elevou dívida bruta (% do PIB)...
Brasil
2007 65,2
2008 63,5
2009 66,9
2010 65,1
2011 64,9
2012 68,5
2013* 67,2
2014* 65,8
França
2007 64,2
2008 68,2
2009 79,2
2010 82,3
2011 86,0
2012 90,2
2013* 92,7
2014* 94,0
*Projeção
Orçamento apertado
Na mesma toada, seguiu o endividamento das famílias brasileiras, que é
recorde
Comprometimento da renda (em %)
Set/08 32,21
Dez/09 35,41
Dez/10 39,16
Dez/11 41,70
Dez/12 43,41
Jun/13 44,82
Portas fechadas
Desde a crise, sete bancos já foram liquidados extrajudicialmente
Banco Morada
Cruzeiro do Sul
Banco Prosper
BVA
Banco Simples
Banco Rural
Banco Mais
Troca de controle
Outras instituições, que também tiveram problemas financeiros, acabaram vendidas para concorrentes
Unibanco
Panamericano
Schahin
Matone
Fonte: Banco Central e FMI
Correio Braziliense