"Um povo livre sabe que é responsável pelos atos do seu governo. A vida pública de uma nação não é um simples espelho do povo. Deve ser o fórum de sua autoeducação política. Um povo que pretenda ser livre não pode jamais permanecer complacente face a erros e falhas. Impõe-se a recíproca autoeducação de governantes e governados. Em meio a todas as mudanças, mantém-se uma constante: a obrigação de criar e conservar uma vida penetrada de liberdade política."

Karl Jaspers

setembro 26, 2014

VELHACOS EM ANSIEDADE ! Lava-Jato: Doleiro delata mais políticos envolvidos em corrupção. Youssef também dá nomes de operadores de alguns partidos, e não apenas do PP


Na primeira conversa que teve com investigadores da Operação Lava-Jato depois de fazer acordo de delação premiada, o doleiro Alberto Youssef abriu o jogo e confessou ter feito caixa dois, movimentação não declarada de dinheiro, para o PP (Partido Progressista). Numa demonstração de que está mesmo disposto a colaborar com a Justiça, Youssef citou nomes já delatados pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e fez referências a outros políticos que não teriam sido mencionados até o momento no escândalo da Operação Lava-Jato, segundo revelou ao GLOBO um dos investigadores.

DEPOIMENTO SEGUNDA

Youssef denunciou fraudes e indicou os supostos envolvidos na Petrobras e em outras áreas da administração pública ao acertar as cláusulas do acordo de delação premiada assinado com o Ministério Público Federal, na quarta-feira. A série de depoimentos formais da delação só começa na próxima segunda-feira.



No primeiro encontro com a força-tarefa do MP, o doleiro fez uma explanação geral das irregularidades que pode denunciar e mencionou nomes de políticos, operadores de alguns partidos (e não apenas do PP), e contratos supostamente fraudados.A base do acordo é a produtividade. Quanto maior o volume de informações seguras oferecidas pelo doleiro, maior será a redução de suas futuras punições. 


Parte das informações fornecidas pelo doleiro coincide com relatos de Paulo Roberto Costa. Pelas investigações do Ministério Público Federal e da PF, os dois fizeram vários negócios em conjunto. Costa fazia a intermediação dos contratos. Youssef se encarregava da lavagem do dinheiro. Mas já está claro para os investigadores que eles tinham também negócios em separado.

Ao final da série de depoimentos, os investigadores deverão confrontar as informações do doleiro e do ex-diretor. Se for necessário, os dois serão submetidos a uma acareação. Youssef prometeu também apresentar provas ou, em alguns casos, indicar como cada informação poderia ser checada. O doleiro decidiu fazer acordo de delação depois de passar seis meses preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba. Segundo advogados, Youssef não suportou a pressão da família.

Ele também se viu sem saída depois que Costa e pelo menos mais quatro outros cúmplices decidiram colaborar com a Justiça e contar detalhes dos negócios dele. Entre os colaboradores que entregaram parte dos segredos do doleiro está a contadora Meire Poza e o advogado Carlos Alberto Pereira, ex-administrador da GFD Investimentos, uma das principais empresas de Youssef.

— Ele estava cercado de delatores — disse o advogado Antônio Figueiredo Basto, ao explicar a decisão de Youssef pelo acordo de delação premiada.

MP PEDE CONDENAÇÃO DE 8 REÚS
Na quinta-feira, o Ministério Público Federal pediu a aplicação de uma pena de 47 anos e 15 dias de prisão para a doleira Nelma Kodama, parceira de Youssef. Foi o primeiro processo da Operação Lava-Jato que chegou na fase de alegações finais. Os procuradores pediram a condenação de oito réus. Luccas Pace Júnior está entre eles, mas, como foi o primeiro delator a ter a colaboração homologada pela Justiça, o MP pede que sua eventual pena seja cumprida em regime aberto

Nelma era uma das operadoras de câmbio negro do esquema desmontado pela Polícia Federal. Ela foi presa na véspera da operação com 200 mil euros na calcinha tentando embarcar no aeroporto de Guarulhos (SP) rumo a Milão, na Itália.



JAILTON DE CARVALHO
O Globo



ENFIM COMEÇAM DESCORTINAR A SANTA DO PAU OCO OU CAVALO DE TRÓIA : Marina perde fôlego nos maiores colégios. Pesquisas do Ibope mostram redução dos índices da candidata nos 8 Estados com mais eleitores, onde vivem 70% dos votantes


As mais recentes pesquisas do Ibope sobre a corrida presidencial nos oito maiores Estados do Brasil, que concentram quase 70% do eleitorado nacional, trouxeram más notícias para a campanha de Marina Silva: a candidata do PSB caiu ou oscilou para baixo em todos eles.

São Paulo é o Estado em que a queda foi das mais expressivas: 
em duas semanas, a taxa de intenção de votos de Marina passou de 38% para 32%. Em números absolutos, é como se a candidata do PSB tivesse perdido 1,6 milhão de eleitores, ou 115 mil por dia - o cálculo leva em conta o tamanho do eleitorado paulista e a taxa de abstenção verificada há quatro anos.

Apesar do recuo, Marina ainda lidera no maior colégio eleitoral do País. A presidente Dilma Rousseff, provável adversária da candidata do PSB no segundo turno, ficou estagnada, com 25%, enquanto o terceiro colocado, Aécio Neves (PSDB), subiu quatro pontos porcentuais.

Na Bahia, quarto maior eleitorado, Marina tinha 28% das preferências há duas semanas - agora, a taxa passou para 23%. Lá, Dilma oscilou de 50% para 52% e ampliou a vantagem sobre a adversária de 22 para 29 pontos.

No Ceará, a queda de Marina foi de seis pontos (de 25% para 19%), mas o intervalo entre as pesquisas da série é maior: três semanas. No Estado, oitavo no ranking do eleitorado, Dilma têm 61% - um de seus três melhores desempenhos no País. 

Há um equilíbrio entre as duas adversárias em Pernambuco, Estado onde Marina herdou a maior parte do eleitorado do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em acidente aéreo em agosto, mas que também é um dos principais redutos do PT e terra do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em uma semana, Dilma manteve os 39%, enquanto Marina oscilou para baixo, de 40% para 38%.

A candidata do PSB também perdeu pontos no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, no Rio Grande do Sul e no Paraná. Na última pesquisa nacional do Ibope, divulgada na terça-feira, a candidata do PSB oscilou de 30% para 29% em uma semana.

Conjunto. 
A consolidação das pesquisas do Ibope em todas as 27 unidades da Federação resulta em uma amostra nacional de 30 mil entrevistas - que foram devidamente ponderadas de acordo com o tamanho do eleitorado de cada Estado e a respectiva taxa de abstenção na eleição de 2010. Essa amostra expandida aponta Dilma com 37%, Marina com 27% e Aécio com 17%.

Por essa projeção, a candidata do PT terminaria o primeiro turno com 43 milhões de votos, contra 32 milhões da concorrente do PSB e 20 milhões do tucano. Mas, como a evolução das intenções de voto têm mostrado, esses números devem mudar até o dia da eleição.
 pesquisa mais antiga entre as 27 unidades foi feita em 1.º de setembro, em Sergipe, e as nove mais recentes, na segunda e terça-feira passadas. 


Foram os casos das sondagens feitas justamente em alguns dos maiores colégios eleitorais: São Paulo, 
Minas, 
Rio, 
Bahia, 
Rio Grande do Sul, 
Pernambuco e Ceará 
- além de Santa Catarina e Distrito Federal.


Projeções. 
A planilha permite fazer projeções para o 2.º turno. Se a disputa se confirmar entre Dilma e Marina, quem terá mais chances de ser eleita? 
Isso vai depender, basicamente, de dois fatores: 
a vantagem que uma colocar sobre a outra no 1.º turno e o quanto cada uma vai converter de votos de Aécio.

No cenário atual, com Dilma abrindo 11 milhões de votos sobre Marina em 5 de outubro, a candidata do PSB precisaria converter mais de 70% dos apoiadores do tucano em eleitores seus no 2.º turno e torcer para que a petista não transforme mais do que 15% de quem votou em Aécio em neodilmistas no turno final. É mais do que Marina conseguiria hoje.

Segundo a pesquisa nacional do Ibope divulgada na terça-feira, Marina está convertendo 51% dos eleitores tucanos em seus eleitores na simulação de segundo turno contra Dilma. Pior para ela, essa taxa vem caindo nas últimas semanas: chegou a ser de 66% no começo de setembro. Dez dos 15 pontos que Marina perdeu migraram para o contingente de quem pretende anular ou votar em branco, e o resto tornou-se indeciso. Já a taxa de conversão de Dilma tem se mantido constante. 

Desde o fim de agosto, a presidente tem conseguido converter de 15% a 18% de quem prefere Aécio no 1.º turno em eleitores que votariam nela no turno final contra Marina. Ou seja: quanto maior for a vantagem que a presidente abrir sobre a rival em 5 de outubro, mais difícil será para Marina virar 21 dias depois.
Daniel Bramatti e José Roberto de Toledo - O Estado de S. Paulo

setembro 25, 2014

PARA REGISTRO ! ‘Bom Dia Brasil’ virou ‘Bom Dia Marina’. Quanta moleza com a candidata! Só faltou Chico Pinheiro cantar o jingle


Aparentemente, a Globo estreou na manhã desta quinta-feira o Bom dia, Marina“, no qual os mesmos jornalistas que confrontaram os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) do início ao fim das entrevistas promoveram um bate-papo descontraído com a candidata do PSB, oferecendo-lhe 30 minutos de palanque. 

Não sei se o programa vai permanecer na grade da emissora no segundo turno ou no eventual governo Marina, porque pode acabar rivalizando com o ‘Encontro com Fátima Bernardes’, mas que a campanha de Marina vai lembrando cada vez mais a de Barack Obama nos Estados Unidos, não resta dúvida.

O documentário de John Zigler How Obama Got Elected and Palin Was Targeted ['Como Obama foi eleito e Sarah Palin alvejada'] e o livro de Bernard Goldberg, A Slobbering Love Affair: The True (And Pathetic) Story of the Torrid Romance Between Barack Obama and the Mainstream Media [em tradução livre: 'Babando de amor: a verdadeira (e patética) história do tórrido romance entre Barack Obama e a grande mídia'] são apenas duas das numerosas obras que mostram a superproteção midiática com a qual o presidente garantiu o poder. 

Aos cineastas e escritores brasileiros que quiserem investigar o caso de amor da imprensa com Marina, darei minha singela contribuição através da análise comparativa do desempenho de Chico Pinheiro nas entrevistas com os dois candidatos supostamente de oposição.

Praticamente todas as perguntas para Marina, e não só de Chico, foram pedidos de dissertações e esclarecimentos sobre suas propostas, diante dos quais ela pôde deitar e rolar à vontade; enquanto as cobranças e até condenações morais ficaram para Aécio e Dilma. A primeira questão – sempre emblemática – de cada entrevista já mostra a diferença de tom entre as três:

Para Dilma, Chico perguntou ”Como é possível tudo isso acontecer [na Petrobras] sem que a senhora soubesse?”. 

Para Aécio, Ana Paula perguntou “Não teria que ter um plano de governo pronto antes e a tempo do eleitor analisar suas propostas?”.

 Para Marina, Miriam perguntou “E o que que a senhora vai mudar e como vai mudar [na legislação trabalhista]? 

Ou seja:

Aécio e Dilma começaram sendo cobrados, o que ainda se intensificou nas “réplicas” dos entrevistadores. Marina começou com uma mera deixa para explicar seus planos. E assim foi.

Reúno abaixo as intervenções de Chico na entrevista com Marina. O leitor repare, naquela sobre os transgênicos, que, mesmo quando o jornalista aponta uma aparente contradição, a pergunta sai como um docinho de coco. 

Destaco as delicadezas.
Chico Pinheiro: Nós agradecemos a sua presença aqui no Bom Dia Brasil. Seja muito bem-vinda.

Chico Pinheiro: Agora, nós estamos em um quadro de desindustrialização, né, com perda, com redução de empregos. E, nesse momento, a senhora não acha delicadomexer nessa questão dos incentivos, ainda que isso seja desejável? Porque pode se entrar em um dilema aí: se tira os incentivos, corre o risco de piorar a situação da indústria e, portanto, os empregos; se mantém, permanece essa dependência das empresas do estado. Como a senhora…

Chico Pinheiro: Qual é o critério para qualificação?

Chico Pinheiro: Mas a senhora vai reduzir a carga tributária?

Chico Pinheiro: Candidata, vamos falar dos transgênicos, como é a sua posição em relação a eles? Porque a senhora diz agora que é uma lenda que a senhora fosse contra os transgênicos, no entanto, a senhora já defendeu a moratória aos transgênicos, a proibição por cinco anos, em determinado momento quando a senhora era senadora, disse que eles só poderiam ser liberados depois de muitos estudos, de ampla discussão. Essas declarações do passado, o que elas são? São lendas, devem ser esquecidas, como é que é?

Chico Pinheiro: Hoje a sua proposta é essa, da coexistência?

Chico Pinheiro: Qual é?

Chico Pinheiro: A senhora pensa em mudar a lei?

Chico Pinheiro: A senhora considera, a senhora, pessoalmente, considera os transgênicos um mal?

Chico Pinheiro: 3%, 3,5%, 4%, 4,5% [de meta da inflação]?

Chico Pinheiro: (…) que medidas tomar logo no começo para baixar a inflação e para voltar o crescimento? Como é que faz isso?

Chico Pinheiro: Qual medida?

Chico Pinheiro: Ele é propositivo esse conselho? Ele vai dizer o que fazer?
Chico Pinheiro: A senhora acha que o conselho resolve isso?

Chico Pinheiro: Vamos falar da sua campanha, candidata. [Nota de FMB: A propósito, isto é Chico mudando de assunto quando Marina ataca Dilma.]

Chico Pinheiro: Por que a senhora chorou?

Chico Pinheiro: E por isso a senhora ficou emocionada?

Chico Pinheiro: Só lembrar, candidata, que a gente tem mais um minuto e meio para a senhora, por favor. Obrigado.

Chico Pinheiro: A senhora tem um cálculo mais ou menos disso?

Chico Pinheiro: Candidata Marina Silva, muito obrigado pela sua participação aqui no Bom Dia Brasil. A senhora que tem dois minutos, teve 30 minutos aqui para expor mais as suas ideias. Agradeço muito a sua presença.

RETOMO. 
Depois dessa penúltima frase, só faltou Chico cantar o jingle da campanha de Marina, não é mesmo?

Marina acusou Dilma de ter abandonado a responsabilidade fiscal e falou de sua proposta de criar um conselho de tal coisa, e nenhum dos entrevistadores constestou: “Mas você votou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal que fixou normas e limites de gastos para a gestão pública, candidata. Votou contra, quando estava no PT de Dilma, no qual aliás a senhora passou mais de 20 anos. O eleitor deve acreditar mais na sua palavra sobre o que vai fazer no futuro do que na atitude que a senhora teve no passado e que contribuiu para a situação que a senhora hoje denuncia?”

Marina tampouco teve de explicar seu apoio ao decreto 8.243 de Dilma, presente na agenda do Foro de São Paulo, ou sua mentira durante a campanha sobre o voto da CPMF, muito menos as mudanças eleitoreiras de seu plano de governo “feito a lápis”, segundo Aécio, ou sua posição Lula da Silva de que não sabia de nada sobre isso e sobre o avião pago com caixa 2 do seu partido. 

Aécio foi questionado sobre seu governo de Minas e Dilma sobre seu governo do Brasil, mas o Acre pelo qual Marina se elegeu senadora nem foi citado na entrevista. O máximo que lhe foi pedido, por Ana Paula Araújo, foi uma explicação sobre o entrave de licenças ambientais quando ela era ministra.

Não que Marina não tenha mais desenvoltura que Dilma e Aécio para vender seu peixe, mas quanta moleza, hein! A ela, basta criticar o bolsa-empresário e dizer que vai “manter o tripé da estabilidade econômica brasileira” que a imprensa chapa-silva, de esquerda e de direita, já se dá por satisfeita.

Veja a diferença das intervenções de Chico na entrevista com Aécio:

[Destaque evidente para o seu comentário ao fim da segunda.]

Chico Pinheiro: Olá, candidato.

Chico Pinheiro: Candidato, nós estamos a pouco mais de dez dias da eleição, 12 dias. Em uma sociedade moderna, o senhor diz que… tem se apresentado como um candidato moderno, em uma sociedade democrática… Justiça seja feita, a candidata Dilma também não apresentou programa. Mas não apresentar programa para que o eleitor possa debater, discutir, conhecer, a essa altura, em uma sociedade democrática ou que se queira democrática, isso é uma aberração, isso é uma aberração.

Chico Pinheiro: O senhor não pôs no papel.

Chico Pinheiro: Mas eu falo a sociedade…

Chico Pinheiro: Não, o tempo correto: faltam dez dias, candidato.

Chico Pinheiro: Como?

Chico Pinheiro: O senhor está dizendo o que não vai fazer, o senhor não está dizendo o que o senhor vai fazer.
Chico Pinheiro: Como é que o senhor vai fazer crescer?

Chico Pinheiro: Como é que o senhor vai fazer?

Chico Pinheiro: Mas o senhor admite acabar com ele?
Chico Pinheiro: O senhor admite acabar com ele?
Chico Pinheiro: E como é que fica?
Chico Pinheiro: E como é que ficam, por exemplo, os aposentados, milhões que se aposentaram sob a vigência do fator previdenciário e que podem se sentir lesados, podem se sentir prejudicados? O senhor vai criar uma série de ações na Justiça, milhões de ações.

Chico Pinheiro: Vamos falar de programas sociais. O senhor afirma que vai ampliar, primeiro para os estados que têm maior evasão escolar, depois pro resto do Brasil, pra todo o país, o programa Poupança Jovem, que o senhor criou em Minas, estado que o senhor governou por oito anos e mais quatro do seu sucessor, seu aliado, para oferecer uma poupança para estudantes que se formam.

Chico Pinheiro: Mas desde 2007, quando foi criado, esse projeto só chegou a nove municípios, 1%. Minas são 853, não é isso? 1% dos municípios mineiros e ainda sofre críticas do Ministério Público. Como é que o senhor vai… O eleitor vai acreditar que o senhor vai colocar isso no Brasil se o senhor em Minas Gerais só conseguiu em nove?

Chico Pinheiro: Mas só nove?

Chico Pinheiro: Por quê?

Chico Pinheiro: Só tem nove municípios com evasão escolar ali?
Chico Pinheiro: Mas isso pode ser expandido para Minas, para outras cidades?

Chico Pinheiro: Oito anos. Esse projeto ia ser um piloto…

Chico Pinheiro: Mas não decolou esse piloto, são oito anos.
Chico Pinheiro: Mas, candidato…

Chico Pinheiro: (…) O senhor tem defendido que o Governo Federal deve assumir mais responsabilidade na questão da segurança pública. No entanto, com 12 anos de governo em Minas Gerais, os seus oito mais os oito, os quatro do governador Anastasia. No entanto, Minas Gerais tem índices terríveis. Homicídios em Minas cresceram. Olha, o mapa da violência, 52% de 2002 a 2012, homicídios. Isso é pavoroso. É a maior taxa de aumento de homicídios do Sudeste. A morte de jovens cresceu 54% e o Brasil só cresceu 8%.
Chico Pinheiro: O que aconteceu? Não deu certo? O que que o governo de Minas fez?

Deu para notar a diferença de nível de cobrança e simpatia? 
Pois é: “isso é uma aberração, isso é uma aberração” 

E o final ainda foi um chega-pra-lá em Aécio:

Aécio Neves: Portanto, como você vê, mesmo num tempo tão curto como esse quem tem propostas para o Brasil, mesmo que ainda não estejam divulgadas, somos nós.
Chico Pinheiro: Meia hora, candidato.

Ana Paula Araújo: Meia hora de entrevista foi bastante tempo. Muito obrigada, candidato, pela sua presença aqui no Bom Dia Brasil.

E assim vamos. 
Nos EUA, após anos de lobby anti-Bush da mídia esquerdista, só o que importava na eleição de 2008 era tirar o republicano do poder, de modo que ninguém, a não ser os conservadores de sempre, estava interessado em questionar a figura, o passado, o currículo de Barack Obama – e deu no que deu: 
um desastre d
entro e fora do país.
No Brasil, após anos de roubalheira petista, só o que importa na eleição de 2014 é tirar o PT do poder, de modo que ninguém, a não ser os conservadores de sempre, está interessado em expor ao eleitorado quem é de fato Marina Silva. Evidentemente, é possível que seu governo venha a ser melhor que o de Dilma, mas o fato é que o jornalismo sempre deixa de fazer o seu papel quando vira militante e/ou se deixa levar pela esperança.


“Tomara que eu tenha me saído bem”, finalizou Marina, muito agradecida aos seus colegas, como se fosse mesmo a estreia de seu programa na TV.


Siga no Facebook e no Twitter. Curta e acompanhe também a nova Fan Page.

setembro 24, 2014

Picuinhas Ambientais


A despeito de disputas eleitorais, o Brasil tem extensa agenda ambiental a cumprir a fim de que faça prevalecer preceitos da sustentabilidade, rumo a uma economia de baixo carbono


A presidente do Brasil participou ontem de sessão na ONU dedicada ao debate de temas de alta relevância para o futuro do planeta: mudanças climáticas, combate ao aquecimento global e redução de emissões. Mas Dilma Rousseff apequenou sua intervenção ao transformar seu desempenho em Nova York em mais um episódio de disputa eleitoral.

O Brasil é ator importante nas discussões globais sobre o clima. Não apenas porque é uma das sete maiores economias do mundo e, portanto, potencialmente um dos maiores emissores de gases de efeito estufa. Mas nosso protagonismo decorre, principalmente, do fato de o país abrigar a maior floresta tropical do planeta.

Neste último ano, o desmatamento da Amazônia voltou a subir, depois de quatro quedas anuais consecutivas. A alta foi de 29%, para 5.891 km2. Segundo Dilma, trata-se tão somente de um "aumentinho". No entanto, a tendência verificada pelo Inpe desde julho passado mantém-se de elevação, segundo O Globo.

Mesmo com a queda expressiva observada desde o início do século, o Brasil ainda é o país que mais desmata em todo o mundo - também em razão de termos as maiores florestas do planeta. Ou seja, não dá para deitar em berço esplêndido com os resultados alcançados até aqui. O futuro exige mais.

Ontem na ONU o Brasil se recusou a assinar declaração que prevê corte do desmate à metade até 2020 e o fim do desmatamento até 2030. A posição não é incoerente com o que estabelece a legislação nacional: o Código Florestal permite corte de árvores até determinado percentual de reserva legal, bem como o manejo sustentável de florestas.

O que é preciso é fazer avançar as conquistas que nossa legislação abraça. Em especial, a regularização das propriedades rurais e o mapeamento detalhado de tudo o que foi desmatado e precisa ser recomposto, obtido por meio do Cadastro Ambiental Rural (CAR). Ocorre que o governo federal perdeu dois anos para regulamentá-lo e só agora os proprietários estão podendo correr atrás.

Outra possibilidade importante aberta pelo Código Florestal é o pagamento por serviços ambientais. Trata-se de mecanismo que permite a preservação de recursos naturais - como mananciais, a exemplo do que acontece exemplarmente em Extrema, em Minas - por meio de compensação monetária, bem como o manejo sustentável de florestas.

O Brasil tem uma extensa agenda ambiental para cumprir a fim de que faça prevalecer os preceitos da sustentabilidade, rumo a uma economia de baixa emissão de carbono. A despeito de disputas eleitorais, o interesse da vida e dos seres humanos que dependem de um planeta mais saudável deve prevalecer.

Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

setembro 23, 2014

— Bateu o desespero — resumiu o advogado ao GLOBO. Youssef autoriza advogados a negociar acordo de delação premiada com MPF. Pelo menos cinco outros réus decidiram delatar fraudes nas relações entre a Petrobras e empreiteiras


O doleiro Alberto Youssef autorizou seus advogados a tentar negociar um acordo de delação premiada com a força-tarefa do Ministério Público Federal, responsável pelas investigações sobre desvios em contratos de grandes empreiteiras com a Petrobras. 

Segundo o advogado Antônio Figueiredo Basto, Youssef aceitou colaborar com as investigações por pressão da família e porque, de repente, segundo os advogados, se viu cercado de delatores. Pelo menos cinco outros réus, entre eles o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, decidiram delatar fraudes nas relações entre empreiteiras e Petrobras.


— Bateu o desespero — resumiu o advogado ao GLOBO.

Segundo ele, Youssef decidiu fazer acordo de delação nesta terça-feira. Numa conversa na carceragem da PF, ele disse a Figueiredo que não suportava mais e que, a partir de agora, iria colaborar com a Justiça. Mesmo sendo contra a colaboração, o advogado disse que agora não há outra alternativa. Nesta quarta-feira os dois terão um novo encontro e, em seguida, ele deverá apresentar ao Ministério Público Federal uma proposta de acordo. Figueiredo disse, no entanto, que não sabe o que Youssef pretende revelar.

O acordo dependerá da aprovação do MP. Os procuradores do caso já manifestaram interesse numa colaboração do doleiro. Para eles, se Youssef decidiu contar o que sabe, as eventuais revelações dele poderiam ter um impacto muito maior que as declarações já feitas por Paulo Roberto até o momento.

O Globo

Mais :

Outro advogado de Youssef, Antonio Augusto Figueiredo Basto, disse à Folha que a decisão de fazer a delação não havia sido informada a ele pela família. As duas filhas e a mulher do doleiro acreditam que não há defesa processual possível no caso e pressionavam o advogado para fazer a colaboração.

Figueiredo Basto, que cuidou de uma delação do doleiro em 2004, diz que deixará o caso com a decisão de Youssef. "Discuto até as cláusulas do acordo, mas não posso ficar na defesa porque sou contra o uso desse instituto desta vez. A delação vai contra a minha tese de que seria possível fazer uma defesa processual do caso".

Na última semana, Basto e Kakay ingressaram com um pedido de habeas corpus no STJ, (Superior Tribunal de Justiça) no qual pedem a anulação de todas as provas da Operação Lava Jato, por considera-las ilícitas, e o afastamento do juiz do caso.

Segundo eles, o juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato, havia se declarado suspeito em 2010 para julgar uma questão relacionada a Youssef e a delação que fez em 2004. Com essa declaração, ainda de acordo com os advogados, o juiz não poderia ter atuado na Lava Jato porque Youssef é o ponto central da operação.

A Folha revelou em agosto que Youssef enviara os primeiros sinais de que faria delação. Ele é réu em 12 processos e pode ser condenado a mais de cem anos de prisão.

PENA DE PRISÃO

Mesmo com o acordo da delação premiada, é provável que o doleiro tenha que, além de entregar todos os seus bens ilícitos, cumprir quatro anos de prisão em regime fechado e outros quatro em regime aberto.

A exigência do cumprimento de uma pena mínima é da força-tarefa do Ministério Público Federal que atua na Operação Lava Jato. Sem o acordo, Youssef, 46, poderia ficar mais de 20 anos no regime fechado.

O rigor adicional que os procuradores têm com Youssef deve-se ao fato do doleiro já ter descumprido o acordo de delação que assinou em 2004, quando foi investigado por remessas ilegais que fez usando o Banestado, banco do governo do Paraná.

Youssef se comprometeu a deixar o mercado paralelo de dólares, mas, em vez disso, aumentou ainda mais o volume de seus negócios.

Como desrespeitou a promessa, o processo do Banestado foi reaberto em maio deste ano pelo juiz federal Sergio Moro e Youssef foi condenado a quatro anos de prisão. A ação penal havia sido instaurada em 2003 e os crimes de Youssef, perdoados em 2004.

NO brasil maravilha DO CACHACEIRO VIGARISTA E SUA GERENTONA 1,99 : Sacando a descoberto


Lá fora, com responsabilidade, os governos vão conseguindo deixar o pior para trás. Aqui, com desleixo e incompetência, a situação da economia fica cada dia mais feia

O governo federal fez ontem uma ampla reestimativa de receitas e despesas do Orçamento da União que deixa claro o total estado de descontrole das contas públicas do país. Previsões furadas e desempenhos pífios se sucedem, enquanto o estoque de mágicas petista parece não ter fim. A conta do improviso fica para o cidadão pagar.

Para fechar as contas, o governo recorreu a novas manobras. Sacou recursos do fundo soberano, cortou despesas obrigatórias e vai sangrar um pouco mais o caixa das estatais. Está entrando menos dinheiro no caixa porque a economia não cresce como a equipe econômica previra no início do ano.


A expansão do PIB foi cortada de 1,8% para 0,9%, ainda assim bastante irrealista - na média, as previsões de mercado sugerem que não passaremos de 0,3% neste ano. No início do ano, a previsão oficial era de alta de 2,5% para a nossa economia - como não é novidade para ninguém, estava superfaturada.

Para segurar os rombos, o governo avança onde dá, e também onde não deveria dar. Uma das vítimas é o fundo soberano, criado em 2008 para ser usado em momentos de crise econômica. Até agora, porém, ele só foi usado mesmo para socorrer as crises do governo petista.

O primeiro saque no fundo, de R$ 12,4 bilhões, ocorreu em 2012, dentro das famigeradas manobras da contabilidade criativa usada para fechar as contas daquele ano. Agora, com a nova retirada, "o governo zerou o saldo do fundo", informa o Valor Econômico.

Há também o risco de despesas antes previstas para este ano, como subsídios às tarifas de energia e para a agricultura, estarem sendo postergadas para o próximo, deixando mais uma bomba-relógio armada no colo do sucessor de Dilma. Nem assim, a meta de superávit fiscal para este ano - de 1,9% do PIB - deverá ser cumprida.

A arrecadação está em queda - 0,2% nos sete primeiros meses do ano - e até as receitas previstas com a renegociação de tributos em débito deverão se frustrar. Ou seja, a capacidade de o contribuinte continuar pagando tributos escorchantes exauriu.

O governo também avança sobre o caixa das estatais. Os dividendos pagos pelas empresas ao Tesouro deverão chegar a R$ 25,4 bilhões neste ano. Trata-se de alta de quase 50% sobre os R$ 17,1 bilhões pagos em 2013. 

Galinhas dos ovos de ouro, como Caixa, Petrobras e BNDES, vão sendo sacrificadas, uma a uma.

Com tudo isso, Dilma Rousseff ainda tem a pachorra de dar entrevistas em série sustentando que o problema do Brasil são os outros, ou seja, uma ilusória crise internacional. Lá fora, com responsabilidade, os governos vão conseguindo deixar o pior para trás. Aqui, com desleixo e incompetência, a situação fica cada dia mais feia. É o governo do PT sacando o futuro do país a descoberto.


Este e outros textos analíticos sobre a conjuntura política e econômica estão disponíveis na página do Instituto Teotônio Vilela

setembro 22, 2014

NOVA POLITICA ! CONTRADIÇÕES : "A vida política não pode se reduzir a este tipo de pasmaceira."


O que vale mesmo? 
As declarações difusas e genéricas da candidata Marina Silva ou sua atuação enquanto parlamentar e ministra do Meio Ambiente? 

Frequentemente, tem-se a impressão de que são duas pessoas distintas, em tudo iguais na aparência, porém profundamente diferentes. É bem verdade que o processo eleitoral, muitas vezes, apaga as diferenças, porém não seria de bom tom para uma candidata que se coloca como apregoando uma “nova política”. Aqui ela aparece bem “velha”.

Não há nenhum problema em mudar de opinião. 
As circunstâncias mudam, a vida está cheia de imprevistos e ideias que pareciam adequadas em um determinado momento já não se mostram à altura em outro. Isto implica, contudo, o reconhecimento da mudança e a honestidade de dizer que a postura em determinadas questões não mais será a mesma. 

Não bastam formulações francamente demagógicas dos que dizem que Marina Silva é, agora, diferente. Diferente no quê? 
Onde está o seu compromisso? 
A vida política não pode se reduzir a este tipo de pasmaceira.

Em filosofia, por exemplo, grandes pensadores são caracterizados segundo mudanças que foram operando em suas respectivas formas de pensar. Não há nenhum desabono por isto, mas tão somente clareza de formulações e honestidade de postura. Assim, a obra de Kant é divida em seu período crítico e pré-crítico. O mesmo ocorre com a obra de Marx, quando divida entre o “jovem” Marx e o da maturidade.

Ocorre que a política brasileira não segue esses parâmetros de clareza e honestidade. O ex-presidente Lula simplesmente se qualificou como uma “metamorfose ambulante”, dando-se, assim, passe livre para dizer qualquer coisa. O ex-presidente Fernando Henrique, por sua vez, teria dito que os brasileiros deveriam “esquecer o que tinha escrito”. O fato de, recentemente, ter esclarecido que não teria proferido ele mesmo essas palavras, nada altera a questão, pois um não esclarecimento na época simplesmente referendou essa formulação.

Vejamos alguns posicionamentos de Marina Silva.

Em junho de 2012 (“Info Exame"), em uma palestra para estudantes, Marina qualificou o Código Florestal, aprovado no Congresso e sancionado com alguns vetos pela presidente Dilma, de “código agrário”. 


Suas palavras: “É a primeira vez na história do país que eu vejo tanto retrocesso, em todos os governos. Independente de quem fosse, sempre havia um ganho, mesmo que fosse pequeno. É a primeira vez que só se tem perdas. Espero que os rumos sejam corrigidos por quem tem o poder de corrigir, que é o próprio governo. A esperança não é a última que morre. É aquela que não deve morrer.”

Note-se a virulência da formulação em uma rejeição em bloco do Novo Código Florestal enquanto “código agrário”. Um imenso “retrocesso”. O que fará a candidata se for eleita? Sendo governo, fará todas as “correções” correspondentes? É essa a “esperança” que está sendo oferecida, a da insegurança e do imobilismo?

Em junho de 2010 (blog da jornalista Cristina Lemos, Rede Record) foi ainda mais incisiva: “Ninguém que queira governar o Brasil pode ficar omisso ou conivente com esse tipo de retrocesso”, desafia Marina, para quem há os que pretendem praticar um “discurso fácil para agradar bases retrógradas”. 

No mês de julho deste mesmo ano, em sabatina da Record News, declarou o seguinte a propósito do novo código: “É um estelionato ambiental.” 

No ano seguinte (G1, Rede Globo), em junho, perseverou no mesmo ponto: “O texto todo se constitui no maior retrocesso da história da legislação ambiental brasileira.”

Ainda em junho deste ano de 2014, em um artigo da “Folha de S.Paulo”, intitulado “Quem não sabia?”, investiu novamente contra o novo Código Florestal, desta feita acusando o governo de tergiversar na aplicação das novas regras, não implementando o CAR (Cadastro Ambiental Rural), um efetivo avanço, algo não feito pela hoje candidata quando ministra.

Diga-se de passagem que nosso país será um exemplo para todo o mundo, na medida em que passará a ser monitorado via satélite. Reservas legais e APPs (Áreas de Proteção Permanente) poderão ser avaliadas, tendo o país um retrato fiel de sua produção agrícola e de sua preservação ambiental.

Ocorre que tal processo, fruto do diálogo e da negociação, exige que todas as partes sejam ouvidas, o que é próprio de um ambiente democrático de discussão. O Incra está no centro deste processo de gestão territorial, contando com o apoio do próprio Ministério de Desenvolvimento Agrário, do Ministério da Agricultura e do Ministério do Meio Ambiente.

O que incomoda então a candidata?

 Talvez o fato de este processo não ser controlado por ONGS nacionais e internacionais. A soberania nacional está sendo efetivamente exercida no interesse de todos os cidadãos. Há os teimosos que não querem reconhecer que o país se tornou em pouco tempo um dos maiores produtores de alimentos do mundo, com preservação ambiental de 61% de suas florestas e matas nativas, além de mais de 80% da floresta amazônica.

Outro caso à parte é o das Unidades de Conservação (UCs), desenhadas demagogicamente para criar um país fictício. São factoides políticos que não expressam a realidade. Por exemplo, somente 44 (14,10%) das 312 UCs federais tinham sido demarcadas até março de 2013, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Ora, a demarcação é apenas o primeiro passo para a implementação dessas UCs. O processo todo deveria estar concluído em cinco anos, com o pagamento das indenizações correspondentes aos proprietários.

Logo, como esses processos não se concluem, cria-se um limbo jurídico, jogando os proprietários em um verdadeiro inferno, pois já não detêm a propriedade de terras que, na verdade, lhes pertencem. Sucumbem neste processo quilombolas, assentados da reforma agrária e empreendedores rurais. Alguns processos se arrastam há décadas. O que pensa fazer a candidata? Pretende continuar criando novas unidades de papel?

As contradições são evidentes. O que vale?


Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

setembro 19, 2014

VERSO REVERSO OU 'Nova política' e vida real

Sabatinado por este jornal, o candidato a vice-presidente na chapa de Marina Silva, deputado federal Beto Albuquerque, do PSB gaúcho, tentou aparentemente transformar um círculo em um quadrado, ao reconhecer que "ninguém governa sem o PMDB", ressalvando, porém, que "não é preciso entregar o governo para ter governabilidade". A questão foi levantada porque toca no nervo exposto da candidatura Marina - o disseminado ceticismo sobre as suas chances, se eleita, de formar uma equipe de governo que não seja um ajuntamento de estranhos no ninho e de construir uma base parlamentar que lhe permita aprovar os projetos que lhe forem mais caros.
O que se pode chamar de bancada marineira na Câmara dos Deputados - as cadeiras hoje ocupadas pela coligação que reúne, além do PSB do falecido Eduardo Campos, o PPS e quatro siglas nanicas - soma 32 em um total de 513. Na melhor das hipóteses, segundo projeções publicadas pelo jornal Valor, os socialistas sairão das urnas com o mesmo número de vagas (34) conquistadas em 2010 para fazer parte de uma Casa provavelmente ainda mais fragmentada que a atual, de 22 siglas. 

Diz a candidata, em desespero de causa, que fará um governo com os "melhores" nomes do espectro partidário que compõe o Legislativo. É de rogar aos céus que ela própria descreia de suas palavras.

Do contrário revelará um desconhecimento abissal de como funciona a política, não obstante seus dois mandatos de senadora. Melhores, piores e mais ou menos, os parlamentares vivem todos numa teia de lealdades a quem os tenha feito chegar ao Congresso Nacional. E ali estão sujeitos a uma complexa estrutura de poder alicerçada no sistema de lideranças que mantêm a coesão interna das bancadas. 
Uma coisa e outra restringem a liberdade de movimentos de seus membros mais do que possa conceber a vã filosofia da "nova política". Descartada, por ingênua ou insincera, a retórica do tal governo dos melhores, resta o governo possível com a expressão organizada do Parlamento.

No "presidencialismo de coalizão" brasileiro, essa fórmula leva uma dose de afinidade programática, outra de convergência com os grupos de interesses do Congresso e oito partes de realpolitik - o acatamento da relação de forças entre os partidos, resultante de cada ciclo eleitoral. 

O que, teoricamente, abriria três possibilidades para Marina em 2015: fazer as pazes com o PT, achegar-se ao PMDB ou se aliar à frente PSDB-DEM. Na primeira e mais remota hipótese, será mais do que mais do mesmo para o País: o pior dos dois mundos. 

Na terceira, que poderá começar pelo apoio tucano à candidata que ameaça despejar Dilma Rousseff - a menos que o senador Aécio Neves consiga superá-la -, o produto será um governo de minoria, mas com razoável grau de coerência e capacidade de atração de outras legendas médias.

Já um acerto com um PMDB - que deverá continuar com a segunda maior bancada da Câmara, depois do PT, e com a maior do Senado - equivalerá a um pedido de Marina para que esqueçam o que não se cansou de repetir sobre a renovação dos costumes políticos nacionais. E não será nenhuma pechincha, diga o que disser o deputado Beto Albuquerque sobre governar com o PMDB sem lhe dar o governo. 

Na entrevista ao Estado, ele perguntou retoricamente por que teria de consultar o presidente do Senado, Renan Calheiros, sobre quem deveria ser indicado para uma Transpetro, por exemplo. Porque é disso que os oligarcas do PMDB alimentam o seu poder, antes e depois das urnas. Nesse jogo duro, o conselho que deixou de ser solicitado é um ato de menoscabo que não pode passar em branco.

"Nosso governo", promete o candidato a vice, "não vai indicar gente inapta porque é pedido de alguém." Na vida real, é mais complicado. No mercado de apoios políticos, o interessado pode sair com o filé que desejava, desde que leve também uma porção de carne de pescoço. 

Enquanto o PMDB for o partido que trocou a disputa pelo Planalto por estar no Planalto em qualquer governo - embora os seus hierarcas falem em lançar um nome em 2018 -, e enquanto for hegemônico no Congresso, só restará a uma presidente Marina tentar a proeza de se entender com o diabo sem sair abrasada do entendimento.

O Estado de São Paulo

Chamada de 'raivosa', Marina diz que é 'velha política' que apela para ofensas. MAS EM 2010 A DONA IMACULADA DA "NOVA POLÍTICA" CHAMOU RIVAIS DE ONÇA PINTADA E SE COMPAROU A UMA JAGUATIRICA.


Chamada de "radical" e "raivosa" pelo senador José Sarney (PMDB-AP), a candidata à Presidência pelo PSB, Marina Silva, se defendeu em entrevista concedida na cidade de Vitória (ES), afirmando que a "velha política" tenta fugir dos problemas ao usar ofensas pessoais. 
"Não faço parte dessa geração de políticos", respondeu Marina.

Marina argumentou que seus adversários estão "desesperados", "apavorados", com a possibilidade de o povo brasileiro mostrar que quer mudança. "Nós estamos felizes, animados, em uma pororoca de esperança", disse a candidata, que justificou querer ser eleita presidente para melhorar a qualidade da gestão governamental no Brasil. 

Ela disse que continuará com o debate que interessa aos brasileiros, em vez do embate, e mencionou suas propostas: 
o passe livre estudantil, o destino de 10% da receita bruta da União para a saúde e a antecipação para daqui a quatro anos o prazo para implementar o ensino em tempo integral.


Perguntar não ofende :
Se eleita vai tirar a pele de cordeiro e virar jaguatirica?

EM 2010...

setembro 18, 2014

BRASIL REAL SEM O MARQUETINGUE CANALHA DO brasil maravilha DOS VELHACOS: Pnad 2013 confirma lentidão na melhoria da educação


O IBGE divulgou nesta quinta-feira dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios realizada em 2013. As informações relativas a educação confirmam tendências já reveladas em edições anteriores, entre elas a de que a educação brasileira avança — mas em baixa velocidade. Por isso, problemas como analfabetismo e baixa escolaridade persistem entre a população. O número de estudantes em escolas públicas cai e o das privadas, cresce.

Analfabetismo ficou praticamente estável entre brasileiros com 15 anos ou mais de idade: passou de 8,7% para 8,3%. Isso significa que no último levantamento havia 13.048.000 de pessoas nessa situação. A meta do Plano Nacional de Educação para 2010 era erradicar o analfabetismo — objetivo adiado para 2020. 


A taxa de analfabetos é significativamente menor entre os mais jovens, mais escolarizados, efeito do esforço dos últimos vinte anos de incluir todas as crianças no ensino fundamental. Entre os brasileiros com idades entre 15 e 17 anos, a taxa chegou a 0,8 em 2013 — são 83.000 meninos e meninas. Entre outros grupos, contudo, as taxas seguem altas e caem muito pouco. Entre aqueles que têm 25 anos ou mais, é de 10,2%. Na prática, são 12.633.000 pessoas. O estudo classifica como alfabetizadas as pessoas capazes de ler e escrever pelo menos um bilhete simples. 


A situação fica pior quando se consideram os analfabetos funcionais, pessoas de 15 anos ou mais de idade com menos de quatro anos de estudo. A Pnad de 2013 mostra queda de meio ponto percentual na comparação entre 2012 e 2013. Neste ano, a taxa chegou a 17,8% — são nada menos do que 27,9 milhões de pessoas que, embora saibam ler, não compreendem a mensagem do texto em questão. No Nordeste, o problema afeta 27,2% dos brasileiros a partir dos 15 anos; no Sudeste, 12,9%. 


A escolaridade média dos brasileiros com 10 ou mais anos de vida passou de 7,5 para 7,7 anos, entre 2012 e 2013. É pouco. Significa que o brasileiro médio não completou sequer o ciclo fundamental de ensino — ou seja, não chegou ao 9º ano. 


Há ainda variações regionais. No Sudeste, a taxa chega a 8,3 anos (8,2 em 2012), ante 6,6 do Nordeste (6,4 em 2012). As mulheres vão mais longe: são 7,9 anos contra 7,4 dos homens (7,7 e 7,3 no ano anterior, respectivamente). O pico da escolaridade é registrado entre 20 e 24 anos e 25 e 29 anos, quando os brasileiros completam dez anos na escola, em média — ainda assim, insuficiente para a conclusão do ensino médio, que demanda doze anos. 


A comparação entre as Pnads de 2012 e 2013 revela ainda migração de estudantes a partir dos 4 anos de idade das redes públicas para a privada. Em 2012, as escolas mantidas por governos tinham 41.563.000 estudantes, ou 77,4% do total. Os números, em 2013, caíram para 41.118 e 76,5%, respectivamente. Em movimento oposto, as unidades particulares cresceram: passaram de 12.104 alunos (22,6%) para 12.646 (23,5%). 


As entrevistas da Pnad 2013 foram realizadas em setembro de 2013. Foram ouvidas 362.555 pessoas, o que corresponde a 148.697 domicílios distribuídos por todos os Estados e Distrito Federal.


Veja.com

Mais: